Obrigada por você
candida 09/06/2016 09:25
boa noite. A luz ficara aces a noite toda p iluminar sonhos q nunca assustemObrigada por você Cândida Albernaz Ontem eu o vi escondido sob nova roupagem, agora com cabelos grisalhos, vincos na face e trazendo no olhar parte de um passado onde eu não me encontrava. Sentada, o observava furtivamente enquanto em volta o presente dançava. No ar as lembranças teimavam regressar como se recentes fossem. No peito uma dor incontrolável pelo que não foi completamente vivido. Você esteve rondando minha vida todos esses anos mesmo sem saber, aconchegando-me e fazendo ficar. Na memória, vezes e vezes foi a companhia que faltava e sempre era  bom trazer sua presença como num passe de mágica e fazer realidade o que havia se tornado sonho há muito. Não sei se quero que chegue perto e veja que também eu tenho cabelos grisalhos e marcas no rosto que não conhecia. Creio que o melhor seja continuarmos na lembrança um do outro para que possamos encontrar nas recordações calor para as horas cruas que teremos. Está muito escuro aqui. Sinto o corpo se retesar com frio. O lençol fino não aquece o suficiente. Bato o queixo tremendo e tento não deixar que os dentes, se encontrando, façam barulho. Preferia continuar meu sonho onde eu e você éramos passado se tornando presente. Penso em sentar um pouco, mas esse movimento tão comum não me é permitido. Preciso esperar que amanheça quando então o corredor se encherá de passos e sons. Por que fui acordar? Estes sonhos com você parecem reais. Gosto de imaginar que numa dessas noites eles me levem a tal ponto que eu possa tocar sua pele,  cruzar nossas línguas e trazer na saliva o gosto de um passado incompleto, mas que me pertence. A cama ao lado resmunga. Talvez eu esteja fazendo barulho. Tento ver o soro, saber se está terminando. Não queria que o trocassem mais. Careço dos braços livres dessas agulhas que machucam. Nunca suportei estar presa e agora estou atada a fios e aparelhos sem poder reclamar. Ainda bem que tenho você. Ouço sua voz murmurar palavras ditas numa época em que eu imaginava ser dona do tempo. A lembrança da rispidez ao me trazer de encontro ao peito e o beijo misturado às lágrimas numa noite em que medos e paixão se confundiam, ainda faz com que permaneça viva. A respiração está mais difícil, o peito esmaga não deixando que o ar entre. Talvez tenha sido o beijo novamente sentido. Não importa, por mais que fique agitada, quando o relembro é dessa forma que também sinto serenidade. Queria tocá-lo uma vez mais. Tê-lo prendido a mim no dia em que o deixei ir. O peito sufoca com uma enorme pressão. São mãos que o apertam enquanto ouço: ela está indo embora! Estão me perdendo. Mal sabem que quero ir. Não quero retornos. Obrigada por continuar comigo nessa hora. Por ter estado em meu passado para poder buscá-lo agora. Sinto o gosto de sua boca mais uma vez. Ainda ouço vozes distantes dizendo que não há mais o que fazer. A luz transborda ao redor. Nossos dedos se entrelaçam com força. O aparelho ao lado começa a emitir um som contínuo e agudo.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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