Aniversário
Cândida Albernaz
Comemoro meu aniversário como sempre fiz questão. Sei o que pensam: pode ser o último. Noventa e quatro anos. Mal sabem que não pretendo ir tão cedo.
Vivi bem, com perdas como todo mundo, mas a soma de pequenas felicidades ao passar dos anos foi maior.
Quando menina sonhava em ter muitos filhos e um marido para cuidar. Mais tarde, jovem, pensei em uma carreira que me tornaria independente e não precisaria de homem algum. O que minha mãe sempre rebatia com olhos assustados:
- Onde já se viu? Você tem cada ideia.
O primeiro sonho foi o que se concretizou.
Casei e logo Antunes me convenceu a parar de trabalhar. Para quê? Ganho o suficiente e quero que você tenha tempo para nós dois. Pelo menos concluí os estudos, o que não serviu para nada. Com cinco filhos fortes e exigentes, meus dias eram ocupados em educá-los e me apaixonar por cada um deles.
Ficou longe a vontade de um futuro profissional. Mentira! Entre um filho e outro que crescia, um e outro que casava, a saudade da moça sonhadora fazia com que chorasse escondido. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas por inúmeras vezes um sentir vazio deixava rastros de tristeza no caminho que foi decidido tomar.
Antunes se foi há vinte anos. Senti falta dele ao mesmo tempo em que um alívio de não mais precisar prestar contas me dominou. No final se tornara um homem rabugento, implicante com tudo, e que exigia dedicação total.
Com a idade, piorou. Com a idade, melhorei. Deixei de ser tão submissa e acatar o que dizia.
Muitas vezes demonstrava impaciência e incredulidade ao lidar com a mulher a qual eu me tornava. Desconcertava-se quando ao chegar do trabalho já não me encontrava em casa esperando-o como se acostumara.
Fiz novas amigas e nos encontrávamos uma ou duas vezes por semana para jogar cartas, rir e falar bobagens. Tínhamos uma regra: recordar o passado e jamais discutir o presente. Éramos garotas novamente. Momentos preciosos aqueles, mas quando duas de nós partiram, desanimamos e acabamos por perder aquelas tardes. Deixamos de nos encontrar por alguns meses e não houve retorno.
Nessa época, Antunes ainda vivia e não conseguiu disfarçar sua satisfação quando o grupo se desfez. Aproveitou para se fazer de doente e conseguir que ficasse ao lado dele como se dependesse de ajuda.
Foi um homem forte e bonito que nunca deixei de amar. Pena ter sido tão autoritário. Teríamos uma vida melhor sem isso, com menos discussões, mágoas e mais companheirismo. Morreu durante a noite enquanto dormia. Sabia que seria assim. O coração enfraquecera aos poucos.
Agora estou aqui comemorando mais um ano com meus filhos, uma dúzia de netos e mais um tanto de bisnetos barulhentos. Brinco e converso com eles como se tivéssemos idades mais próximas. Dizem que sou uma vó moderninha. Não perco tempo me surpreendendo com as novidades do mundo que se atualiza a cada segundo. Apenas acompanho e aceito.
Peço ajuda para assoprar as velas. Não que não consiga fazer sozinha, mas gostam de pensar que preciso deles para quase tudo. É um pouco verdade, porque preciso da presença de todos ao meu lado durante o máximo de tempo para que continue respirando.
O ar necessário para continuar vivendo está a minha frente batendo palmas enquanto cantam os parabéns. Aspiro com força. Pretendo viver muito ainda.ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Sobre o autor
Candida Albernaz
[email protected]Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".


