Uma pequena lembrança
candida 05/05/2016 07:40
Uma pequena lembrança Cândida Albernaz   Eu a segurava com cuidado no caminho do quarto até o banheiro. O corpo muito branco e macio era pesado, porque simplesmente não conseguia sustentá-lo sozinha. Membros inchados e frágeis. Durante o banho avisava, como em outras vezes, que era necessário tirar todo o sabonete. Está bom?, nunca estava. Ainda preciso de mais água no pescoço, ou embaixo do braço, ou. Sabia que o momento de lavar a cabeça era o que mais gostava. Levantava o rosto em direção ao chuveiro e deixava que encharcasse com vontade, retirando o cabelo de sobre a testa. Acho que acabamos; eu tentava. Não seja impaciente. Esfregue minhas costas um pouco mais acima. Na volta colocava-a sentada na beirada da cama enquanto enxugava suas pernas. Os pés precisavam de um cuidado especial. Dedo por dedo até que não sobrasse qualquer umidade, caso contrário dizia que ficavam feridos. Como os meus. Como os de minha filha. Costumava colocar a mão em minha cabeça para se apoiar, quando ajoelhada à sua frente eu cuidava de secar cada parte de seu corpo enfraquecido. Nunca comentei que aquele gesto, jogando um tanto de seu peso, me incomodava. Manias antigas com um cabelo crespo que nunca obedecia a desejos. Então buscava a calma que nunca tive e ria satisfazendo todas as suas poucas vontades. Quando já perfumada e vestida, pedia o batom que fazia questão de usar nos lábios finos e rosados.  Dirigia-se novamente a mim e indagava se estava correto. Não enxergava o suficiente para confiar no espelho que eu segurava. Em seguida me debruçava sobre ela, ajeitava os travesseiros para que se recostasse, e puxava o lençol branco estampado com pequenas flores, até a cintura. Sentia mais frio do que a temperatura exigia. Em alguns dias melhores, segurava o prato na direção de seu colo, para que ela mesma pudesse colocar cada garfada de comida na boca. Não havia uma vez em que deixasse de reclamar da falta de sal e gosto do alimento que lhe era oferecido. A apresentação do prato, com legumes coloridos, não condizia com o sabor. Ruim, eu provara. Pedia cachorro-quente quando estava mais animada. Adorava. Mas não pode comer carne!, e então satisfazia-se com o pão francês e o molho de tomate cheio de cebola e pimentão cortados em grandes pedaços. A refeição da tarde que mais apreciava. O tom dos olhos ficava entre o mel e o verde. Estes que se habituaram a obedecer na cor ao humor que vivia no momento, agora permaneciam opacos na maior parte do tempo. Brilhavam quando conseguia reunir os filhos ou parte deles à sua volta. Então ouvia cada um como se bebesse as palavras. Ria nossos risos como se fossem seus. Para ela, bastava o que sentíamos. Abdicava de qualquer sentimento próprio para viver o nosso. Lembro quando, me olhando nos olhos, meses depois, avisou que não aguentava mais. Pediu que a internássemos, o que sempre lutara contra. Nem mesmo assim consegui ver fraqueza ou desistência. Firme, demonstrava uma força que parecia não possuir. Naquele instante, soube que estava indo.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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