Perfeição
Perfeição
Cândida Albernaz
Respirou profundamente. Essa ansiedade o incomodava. Queria escrever a carta com calma. Sabia que não se usava mais, tudo costuma ser resolvido por e-mail ou mensagem. Não era o caso.
Sentou-se na beira da cama porque não queria sujar o lençol com a roupa que chegara da rua.
Resolveu tomar um banho antes. Talvez diminuísse a sensação de abafamento. A água gelada fez com que retesasse o corpo. Ouviu uma voz e prendeu a respiração por momentos. Lembrou-se então que havia deixado a televisão ligada.
Trocara a fechadura da entrada, portanto ninguém mais teria acesso ao apartamento a não ser ele. Sentiu necessidade disso para que não tivesse a esperança, a cada vez que abria a porta, de encontrar alguém a sua espera.
Mudou o número do telefone também. Assim tinha a certeza de quem não seria todas as vezes que tocasse.
Enxugou os pés, dedo por dedo, não gostava que ficassem nem um pouco úmidos. Um ritual chamado de ridículo em tantas ocasiões. Era estranho notar que tudo o que divertia ou provocava risos no início, se tornou desagradável e exasperante mais tarde.
Onde deixara seu pente? Será que trocaram de lugar? Impossível, pensou com um sorriso torto na boca.
Realmente estava fora do seu normal. Nada!, nunca ficava fora do espaço que destinara a ele em sua casa.
Por isso não dera certo com ninguém. Tudo e todos deviam permanecer em seu lugar. Ou melhor, onde dispusera colocá-los.
Foi assim com Márcia, com Letícia e por último com Sílvia.
Todas o deixaram alegando o mesmo: controlador, cheio de manias, sério em excesso e finalizavam com o Chato!, chato!, chato!, chato! Cinco letras que o sufocavam.
Por que não entendiam que apenas preferia a ordem em troca da desordem?
Encolheu-se quando ouviu a voz do pai.
- Não viu que sua mãe acabou de limpar a sala? Tire estes sapatos imundos!
- E o pescoço? Não sabe se lavar direito?
Esfregava o local com força até que ficasse vermelho. Não adiantava.
- Lodo! Isso é lodo nesse pescoço.
E voltava ao banheiro, com a bucha agora, para cima para baixo para cima para baixo até que ficasse lanhado. Nunca era o bastante.
Olhou-se no espelho: precisaria de uma camisa com a gola mais alta. Fizera de novo.
Fechou a torneira e voltou uma, duas, três vezes para se certificar que não a deixara pingando. Não aceitava desperdício.
Sílvia quando saiu fez questão de deixar o lençol amassado, depois de sentar nele de qualquer jeito. Um copo sujo de batom sobre a pia e não levou com ela a escova de cabelo que sempre o incomodara com todos aqueles fios sobrando.
Apanhou inúmeras vezes para que entendesse que o tênis usado na escola deveria ser limpo diariamente com um pano úmido, e em seguida com outro seco. Então este era colocado na borda do tanque, onde não poderia haver qualquer resquício de água. Se fosse encontrado um quase imperceptível fio de poeira no mesmo, era motivo. Com o tempo o problema aumentava por conta das marcas escuras de uso. Então...
Não gostava muito de pensar em sua infância. Filho único, com todas as expectativas e exigências sobre ele.
Uma vez por mês visitava o túmulo do pai. Limpava pétala por pétala das flores plásticas que colocara lá. Brancas.
Pegou o papel, colocou a caneta ao lado e ficou observando a folha em branco.
Queria pedir que voltasse, mas pensando bem, estava tudo tão organizado. Mantinha as luzes apagadas como sempre gostara, o lençol sem um friso, a cozinha sem um senão. Concluíra que comer na rua era mais prático.
A TV..., bem, esta foi a única coisa que mudara.
Sílvia tinha o hábito de chegando a casa ligar a televisão. Dizia que o silêncio lhe trazia tristeza. Discutiram e discutiram por isso.
Hoje, acostumara-se a mantê-la ligada. Se passava pela sala, sorria para ela de acordo com o que acontecia na tela. Só retirava da tomada quando ia se deitar.
Pensou ser melhor deixar a carta para amanhã. Ou depois de amanhã.
Sentou-se na poltrona e ficou prestando atenção no programa bobo que era transmitido.
Daqui a pouco o sono chegaria.