Primeira vez
21/01/2017 | 18h54
13615312_10209140393454335_2903117780797065458_nPrimeira vez Cândida Albernaz Sentada na poltrona predileta recostada na almofada, os pés sobre o banquinho, olhava a tela da televisão à sua frente. Se lhe perguntassem o que estava assistindo não saberia dizer. Os olhos fixavam-se num ponto invisível onde via passar parte de sua vida. O quarto estava impecável como sempre. Nos móveis não era possível ver qualquer resquício de poeira. Nos armários, as roupas eram penduradas por cor, sendo que a cor seguinte combinava com o tom da anterior. Ainda não almoçara. As crianças na escola e o marido no trabalho. Hoje, quando acordou sentiu-se estranha. Não tinha vontade de fazer nada. A cozinheira chegou e perguntou o que queria que fosse preparado para o almoço. Pela primeira vez deixou que ela decidisse o que comeriam. Antônia a olhou com ar de quem desconhece. Não se incomodou. Voltou para o quarto, sentando-se novamente. Pensava em sua adolescência, quando tinha poucas amigas e estudava num colégio só para mulheres. Enquanto as colegas enrolavam as saias pelos cós para que ficassem mais curtas e abaixavam as meias até o tornozelo, o seu uniforme permanecia sempre no comprimento exigido. Impecável. Aliás, tudo em sua vida era feito de forma responsável, seguindo regras e não entendendo as exceções. Quando se conheceram, ela e o marido, os pais logo o aprovaram e afirmaram ser o melhor para ela. No dia da festa de noivado, alegrava-se mais por eles do que por si mesma. Casaram-se na igreja, ela de véu, grinalda e virgem. Era assim que devia ser. Era assim que fazia. Não houve um dia sequer que o marido a procurasse e não se submetesse a ele. Com o tempo aprendeu a gostar daquele movimento dos corpos suados. Nunca demostrou. Restos de uma época em que costumava ouvir o quanto era sujo, errado ou proibido. Com a chegada dos filhos, os educava com as lições aprendidas e apreendidas. Cuidava bem deles e os amava também, mas não deixava que percebessem seu excessivo amor, pois poderia transformá-los em adultos frágeis. Palavras de sua mãe. Todos os dias o marido almoçava em casa e à noite os quatro reuniam-se na sala para que assistissem a algum programa na TV. Nada que contribuísse para dar mau exemplo às crianças. Não discutiam, ela e o marido. Ele costumava sair com os amigos dois dias na semana, decidir onde passariam as férias ou o filme que veriam no domingo. Ela aceitava. Não estava gostando muito do rumo de seus pensamentos. Sentia a boca seca. O coração batia mais rápido do que o normal e lágrimas escorriam fazendo com que sentisse o rosto arder. O peito parecia tão apertado que lhe faltava o ar. Talvez estivesse doente. Levantou-se e foi para frente do espelho. Olhou-se de cima a baixo e viu alguém com fome. Fome de vida. Soltou os cabelos e desabotoou o vestido. Admirou o corpo nu e tocou-o como nunca havia feito. Viu uma mulher mexendo os quadris de forma sensual. Foi até o armário e tirou um vestido que a irmã lhe presenteara e nunca tivera a coragem de usar. Tinha alças e um decote acentuado. Pegou o batom e depois de passar nos lábios, umedeceu-os com a língua. A sandália alta, usada apenas em ocasiões especiais vestiu os pés macios. No espelho uma mulher sorria para ela com malícia. Foi para a rua sem que a cozinheira notasse. No final da tarde, com a casa vazia ao voltar, encontrou um bilhete sobre a mesa: o que deu em você? almoçamos e deixei as crianças com sua mãe. não podiam ficar sozinhos e Antônia precisou ir embora. vou encontrar com os rapazes na saída do trabalho e mais tarde nos falamos. quando chegar avise para que seu pai deixe os netos com você. Beijos. Soltou aquele pequeno pedaço de papel que caiu no chão. No quarto, tirou a roupa guardando-a cuidadosamente no armário. Tomou um banho quente, prendeu os cabelos, vestiu algo confortável e sentou-se na poltrona ligando a televisão. Nos olhos havia um brilho nunca experimentado antes.
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h54
419470_2781595377197_2135221165_nFrases nem tão soltas Cândida Albernaz Através da cortina o vento sopra sussurros. É a noite que chega com seus segredos. * Resolveu que era hora de mudar. Puxou o cabelo para o alto e amarrou-o com uma fita. Pintou a boca de vermelho e vestiu seu sonho mais bonito. Através dos olhos que agora possuíam cor, enxergou que seu brilhar se refletia no outro. * Tenho vidas que me renovam. Cada vez que penso afogar, um sopro forte me faz abrir os olhos, respirar entre bolhas de água e emergir. * Se tenho o cuidado de espalhar flores na estrada por onde caminho é para que a cada tropeço em pedras e em cada buraco onde houver queda, possa me levantar e ainda assim olhar em volta com motivos para ter um sorriso no jeito de enxergar. * Para que tão sensível? Isso dói. * Quero que empurre o balanço com força para que eu possa ir tão alto que toque as nuvens. Preciso ter certeza de que são feitas de algodão. * Não me dê dúvidas, pois estas costumam alimentar a alma com o rancor. Rancores envenenam o sentir, então me “desentrego” de você e volto para mim. * Tento inúmeras vezes transformar o sentir no escrever com a alma. * Ouça através dos meus olhos. O que eles dizem é muito mais do que minha boca ousaria pronunciar. * Não sou boa, não sou má. Sou. * Muitas vezes peço que meus pensamentos se calem, mas parecem fazer questão de fingir não ouvir. * Em qualquer passagem que seja, em qualquer fase em que esteja, por mais que faça ou tenha feito, sempre será pouco a meu ver. É uma coisa minha essa de não se satisfazer. * Se me abraça, eu te abraço e ficamos os dois no meio de nossos braços. * Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela. * Ontem pensei contar carneirinhos para dormir, mas desisti e pedi que me seguissem caso precise aquecer meus sonhos quando o sono chegar. * Assusta-me escrever sobre você. Tenho medo que um dia releia o que passou. * Não entregaria meu coração sem ter a certeza da entrega do outro. Ele não é brinquedo. Ele sangra. * Parece que foi ontem que tomou a decisão de encarar o mundo. De frente. Até então costumava andar meio de lado com olhos fugidios apenas percebendo que havia um brilho a sua volta.            
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Tanto tempo perdido
21/01/2017 | 18h54
tempo-relogioTanto tempo perdido Cândida Albernaz Sentado embaixo da árvore mexia em sua nova gaiola. Olhava o trabalho feito com capricho. Não sabia quantas gaiolas já fizera. Os passarinhos, que depois colocaria dentro de cada uma delas, eram sua paixão. A mulher reclamara com ele inúmeras vezes: - Fica sujando o quintal com esse alpiste e quem tem que limpar sou eu. Era seu maior prazer, não entendia. Aposentara-se e quando se viu ser desnecessário para o trabalho que fizera a vida toda, sentiu-se inútil. No início, ficava em casa durante todo o dia, esforçando-se para acreditar que merecia aquele descanso. Afinal, era hora. Sempre fora um bom funcionário, cumpridor severo de suas obrigações, deixando de lado muitas vezes acompanhar o crescimento dos filhos ou a companhia da mulher. Esta costumava reclamar do seu cansaço ao chegar, sem disposição para outra coisa que não fosse dormir cedo para acordar bem disposto no dia seguinte para o serviço. Nos finais de semana gostava de sentar no botequim da esquina, onde encontrava com os colegas da firma. Ao voltar, almoçavam juntos e dormia. Algumas vezes Judite o chamava para um cinema ou passeio. Eram raras as ocasiões em que aceitava o convite. Sempre afirmara que se esforçava tanto pela mulher e filhos. Para que pudessem ter o mínimo de conforto de que uma família precisava. Com o tempo, foi vendo Judite envelhecer, perder o viço da pele e o brilho dos olhos. Nunca perguntou a ela se o mesmo acontecia com ele. A única coisa que realmente chamara sua atenção, foi quando num dia qualquer, pelo menos para ele, chegara a casa e a encontrara pronta para sair. Usava um vestido estampado, com um decote mais ousado do que o habitual e pediu que ele fosse até o quarto e tomasse um banho. Em cima da cama encontrou uma camisa bem passada e uma calça estendida ao lado. Apesar de estranhar, lavou-se e colocou a roupa separada por ela. Foi à sala e encontrou-a parada, em pé, próxima à porta. Perguntou o que estava acontecendo, ela segurou seu braço e disse: - Hoje sairemos um pouco. Preciso me sentir jovem novamente. Riu dela, mas aceitou o braço estendido. Caminharam ao longo da rua e diante de um pequeno restaurante de onde podia se ouvir música, ela pediu que entrassem. Beberam algumas cervejas e resolveu tirá-la para dançar. Estranharam-se um pouco no início, a falta de costume de se tocarem em público ou mais demoradamente. Não contava as noites em que a procurava e muitas vezes sem nem mesmo um beijo, satisfazia-se, não se perguntando sobre como ela se sentia. A bebida e a música fizeram com que relaxassem. Talvez esta tenha sido a última noite em que poderiam ter dado uma oportunidade para eles mesmos. No dia seguinte a rotina voltou a se instalar. Pensando bem agora, recordava de que ela o procurara com os olhos e sorria disfarçadamente quando encontrava os seus. Não soube aproveitar. Não conseguira tempo para isso. O momento passou e com ele a vida que poderiam ter vivido. Pegou a nova gaiola e saiu. Sabia qual o passarinho que colocaria ali dentro. Mais tarde, ao chegar, foi até a varanda e pendurou sua nova aquisição no prego colocado na parede. Sorriu orgulhoso. Notou que a mulher o observava. Hoje em dia ela andava com dificuldade, mas continuava cuidando de tudo dentro de casa. Aproximou-se de Judite e apontou para a gaiola. Não viu nenhuma reação em seu rosto. Só cansaço. Puxou-a pelo braço e passou os seus em volta do ombro dela. Percebeu que ela tentava sair. Não se intimidou e apertou-a com a mão, trazendo-a para mais perto dele. Ficaram os dois assim, parados, olhando sem ver. Ela então passou a mão em sua cintura e encostou a cabeça em seu ombro. Tanto tempo perdido...    
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h54
945285_1057055261020024_7464028747459902094_nFrases nem tão soltas Cândida Albernaz Não gosto de ter sonhos maus. Atrapalham parte do meu dia. Gostaria menos se estes fossem sonhados enquanto acordada. * Alguns têm a capacidade de buscar no vocabulário da vida as palavras que mais doem. * Correu de um lado para o outro como se fosse tonta. Girou em volta do corpo e permitiu que os cabelos cobrissem a visão. Sem enxergar era impossível coordenar os passos. Na queda que se seguiu foi que entendeu o preço a ser pago. * Às risadas misturavam-se os corpos nuns, como se cada poro gargalhasse em cócegas provocadas pelo cheiro do outro. * Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles. * Por que estou rindo? Porque estou bem. Porque gosto quando estou bem e porque gosto de querer rir. * Escrevo, escrevo, escrevo. Penso muito mais do que escrevo. Escrever cansa. Pensar me deixa exausta. * Quer vir comigo? Alguns sonhos se perderam no caminho e resolvi voltar para buscar. * Como um balanço de rede os pensamentos vêm e vão. Fogem e procuram. Não se acham. * Só sei sentir à flor da pele. Preciso de escudos que me protejam. Nem sempre há tempo de vesti-los. Então me parto em mil. * A rotina é nosso pior inimigo quando queremos esquecer. * Não venha me falar o que não quero ouvir. Explicação demais cansa. * Lágrimas que escorrem pelo seu rosto sem que ela dê permissão para isso a irritam. Se pudesse secava-as a tapa. * Algumas pessoas pensam que sabem, mas o máximo que conseguem é imaginar. * No meio do mato flores nascem como se importantes fossem. Importantes são enquanto flores. Do mato. E lindas sempre serão porque do mato. * Há noites em que peço ao pensamento que me deixe dormir. Quase nunca me ouve. * E não estou falando de acasos. Acasos não acontecem. Em nenhum caso. * Viu-me passar e não falou? Sem problemas, às vezes também estou assim; cansada de quem cansou de mim. * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Vista seu melhor olhar e entregue num bom dia com quem cruzar pelo caminho.      
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Frases nem tão soltas XXX
21/01/2017 | 18h54
gotas de floresFrases nem tão soltas XXX Cândida Albernaz É aconchegante estar perto de pessoas que sorriem com os olhos. Provocam-me um riso interno. * Puxou a colcha branca e a ajeitou sobre o corpo. Cobriu as pernas, os braços, o pescoço. Nada aquecia o frio do medo. * Amigos que não são amigos nos fazem sangrar decepções. * Sonhou que subia uma montanha sem fim. Exausta de não chegar, sentou-se e fechou os olhos. Apenas ao abri-los percebeu que o topo era ali mesmo onde estava, em cima daquela pequena pedra em que sentara para descansar. * Princesas são mulheres que passando as mãos em seus cabelos brancos, veem refletidos no espelho olhos que ainda desejam. * Não corria mais. Compreendeu que caminhar aos poucos facilitava o entender a vida. * Feridas expostas são um “maná” para quem gosta de provocar dor. Colocam seus dedos sujos dentro delas fingindo não ver o tanto de dilacerar que provocam. * De flor em flor ela perfuma a vida. Em cada aroma percebido vai buscando sentido em seguir. * Do pé de laranja ela colheu as mais doces e encharcou a boca com seu caldo. Sentada na terra, limpava com o dorso das mãos o que escorria. Ser um tanto criança quando já adulto fazia parte do plano de se sentir feliz. * Não me queira mal se me escondo de você. Seu peso de dor faz com que me sinta sufocar. * Não percebeu de imediato. A dor veio devagar se instalando a principio no peito. Depois parecia que todo o corpo gemia em conjunto. * Recostou-se colocando os dois braços como asas abertas no encosto do banco. Fechou os olhos com o rosto voltado para o céu. Sentiu que o que o angustiava saía por seu peito como borboletas colorindo a vida. Estava salvo mais uma vez. * Ao longo daqueles anos nem tudo foi perfeito entre eles, mas decidiram que só a parte boa seria recordada. Então foram felizes para sempre. * Hoje fui buscar você dentro de mim e não encontrei. Pensei que ficaria perdida quando isso acontecesse. Que nada! Uma espécie de alívio saiu de minha boca através de um sopro. * Ele descobriu tarde demais que não era ela a isca.
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Em tempo de conversa
21/01/2017 | 18h54
contoEm tempo de conversa Cândida Albernaz - Outro dia ouvi você falando que espera encontrar o amor de sua vida. - Verdade. - Mas você acha que ainda vai encontrar? - Claro que sim. - Com cinquenta anos? - E daí? - Ainda não esteve com ele? - Estive. Algumas vezes. - Ah!, então você o conhece. - Não este  que espero. - Como assim? - Já tive amores da minha vida. - Amores? - Sim. Cada amor que encontrei foi sempre o meu primeiro amor. O da vida inteira. - E? - E quando acaba percebo que ainda não foi ele. - O que você espera desse amor? - Que ele enxergue quem sou. Esconda-me em seu abraço. Desnude-me com o olhar.  Dê-me motivos para rir. E que ria das minhas graças mesmo quando forem sem graça. - É muito difícil? - Talvez eu queira demais. - Mas o que você falou não é demais. - Não é só isso. - O que mais então? - Quero enxergá-lo. Rir de seu riso. Colocar sua cabeça em meu peito quando estiver cansado. Querer seu corpo em mim. E ouvir com atenção suas mesmas histórias todas as vezes que quiser contá-las. - Tenho vontade de dar risadas de você. - Por que você riria de mim? - Porque nada lhe basta. - Não é verdade. Sou simples. - Você, simples? - E não sou? - Não, não é. Pensa demais. - Penso. Penso até não suportar tanto pensar. - E para que isso serve? Não dificulta sua vida? - Não tenho domínio sobre minha mente. E você sabe disso melhor do que ninguém. - Questão de treino. - Agora é você quem está me fazendo rir. - Treine não pensar. Desligue-se. Ouça uma música e relaxe. - Músicas prendem minha atenção. Gosto de entender e sentir o que a letra diz. - E então começa a pensar de novo. - Pois é. Pior quando me doem. - Tem mania de esticar os problemas até o limite. - Mas quando chega a este ponto, desisto deles e passo a fingir que não existem. - Então por que não faz isso desde o início? Acaba perdendo seu tempo e o meu. - Se eu conseguisse me conhecer... desvendar quem sou. - Gostaria? - Nunca! Prefiro surpreender-me comigo. Caso contrário perderia a chance de sonhar. - Hum! - Acompanhe: já imaginou conhecer-se completamente?, sem surpresas?, ou sustos no que faz? - Teria uma vida mais calma, sem tantas decepções. - E sem sonhos, já lhe disse. - ... - Verdade que não ter controle sobre as próprias reações, pode doer muito. Como machucar o outro sem querer. Se ocorrer, tenho necessidade absoluta de pedir desculpas. - Ou não conseguirá dormir. Sei bem. - Não durmo nem vivo. Sofro. - Mesmo assim não quer o domínio do autoconhecimento. - Não quero. - Há dias em que ser sua mente me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la e não consigo. - Não se desespere. Basta que dê um tempo. - Se é só o que temos: tempo. - E por falar em tempo, é tarde. Preciso dormir. Precisamos. - Pare de pensar então. - O que acha de contar carneirinhos? Quer ajudar? - Tenho escolha? Feche os olhos. - Só mais uma coisa. Amanhã quando acordar, não permita que eu a use para ficar agitada ou ansiosa. Quero querer rir. - Não depende só de mim. Olhe que jardim lindo estou desenhando em sua mente, flores perfumadas, o murmúrio da água do riacho...  
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Ainda presa num retrato
21/01/2017 | 18h54
13524340_1122124467846436_1054009958568484992_nAinda presa num retrato   Cândida Albernaz   Estou presa neste retrato em preto e branco amarelado pelo tempo. Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento. Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou. O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo. Ainda recordo do dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar. Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso lhe fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam? A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha a opção pelo que aconteceu. Quando tivemos o Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe. Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar da cama, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez. Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, estive acomodada deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora. Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim. Nunca perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse enfim me perceber: ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro. Não saí de casa para viver sozinha. Em menos de um ano eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio. Jamais proibiu que visse nosso filho a hora em que quisesse, mas foram poucas às vezes em que esteve por perto. Até hoje, não pude descobrir se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Sem demonstrações do que sente. Poderia dizer que sofri com minha decisão, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Mas de nada adiantaria. Depois de alguns anos, refez sua vida com uma mulher que eu jamais vira. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento relacionado a qualquer outra pessoa que não seja Carlinhos. Nosso filho se tornou homem e nos aproximamos. Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa, me trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos. Fui feliz com ele. Quando você adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez. Sua mulher não vivia mais com você e naquele momento em que estavam só os dois, ele lhe fazendo companhia, fui até sua casa. Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e agachando, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente. Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Observei-a por algum tempo e em seguida coloquei-a no mesmo lugar. Voltei-me e notei que apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão. Espero que não vá sem me perdoar. Eu já o perdoei. Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.  
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Preciso tomar uma decisão
21/01/2017 | 18h54
rosa-de-amorPreciso tomar uma decisão  Cândida Albernaz Sua cabeça hoje não parecia estar funcionando como de costume. Ouvia os pedidos e anotava-os mecanicamente. Acabaria recebendo uma reprimenda. Ontem mesmo errara com um cliente antigo. Pediu desculpas e observou que o gerente o olhou de cara feia. Precisava estar mais atento, mas como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz e nunca brigava ou se metia em confusão. Se havia algo que chamava a atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parecia ter ido embora desde aquele dia. Estão chamando por ele outra vez. Será que esta noite não acaba? Meia noite e meia e o restaurante ainda cheio. Mais um problema: a mesa cinco pediu cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que comessem o que trouxe do que reclamar? Sempre ouviu dizer que o tal do salmão faz bem a saúde. Pois então! Estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Conhecia o tipo. Ruim de dar gorjeta. Que se dane! Se continuar assim, vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa. O pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Estava acabando com o juízo dele. Melhor se concentrar no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar. Na verdade, já não havia decidido? Mandar embora nem pensar. Era viciado naquela mulher. Descobriu tudo. Verdade que ela nunca fez questão de esconder, ele sim, fazia questão de não ver. Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer. Quando a conheceu, os amigos avisaram como seria, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que com ele seria diferente. Não foi. O nome do sujeito: José. Isso lá é nome de amante? Mas o certo é que o filho da puta andou com a mulher dele. Não tinha outro jeito. Não conseguia sair de casa ou mandá-la embora. Teria que matá-la. Onde foi parar seu sossego?  Como estava não podia permanecer. Ainda não sabia como faria; faca, arma de fogo (nem sabia como usar), veneno? Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. Antes de sair teve que ouvir do gerente que se continuasse displicente como estava não continuaria trabalhando ali. Pensou na hora que queria que ele se f... Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida. Ela deve estar deitada. Será mais fácil. *                                            *                                                            *                                                            * Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim. Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer. Enrolado na toalha fica parado olhando-a. Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. E quando isso acontece se espreguiça e diz: chegou amor? Agacha-se e a beija, ela o puxa de encontro ao corpo quente ao mesmo tempo em que segura sua mão para que em formato de concha, toque seu peito. Sabe do que gosto, não é? Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você minha menininha. A resposta que ouve é a de sempre: você sempre será o único amor da minha vida. Afunda o rosto naquela pele macia e cheirosa sentindo o coração bater com força.    
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Teia
21/01/2017 | 18h54
teia 2Teia Cândida Albernaz - Dona Claudinha, estou precisando de um dinheirinho. - Outra vez Deilma? - A senhora sabe como é a vida, está cada dia mais cara. - Semana passada dei a você uma boa quantia. - É que meu filho gripou e preciso comprar remédio para ele. - Agora é seu filho? Cada semana é um que adoece? - A senhora não entendeu. Minha filha caiu e torceu o braço, por isso precisei do dinheiro. Agora o menino gripou. - Sei. - A senhora prefere que eu peça ao patrão? - Está me ameaçando? - Claro que não. Gosto tanto da senhora. Sempre me ajudando... - Você prometeu que não falaria nada. - Sou um túmulo dona Claudinha. - É bom mesmo. De quanto necessita? - A senhora vê aí. O que achar justo. - Como assim? Qual o preço do remédio? - É que não é só o remédio. As crianças têm que se alimentar melhor. - O que é isso Deilma? - Imunidade, dona Claudinha. Não podem ter imunidade baixa, caso contrário, caem toda hora e se quebram à toa, ficam gripados e até coisa pior. - Eu vou dar a você o dinheiro do medicamento e semana que vem mando algumas frutas para sua casa. - Nada disso, porque as crianças não gostam de frutas. Prefiro que a senhora me dê o dinheiro e eu compro o que eles quiserem. - Eu não posso exagerar, seu patrão daqui a pouco desconfia. - Desconfia não, dona Claudinha. A senhora ainda é moça, bonita, leva ele no bico. - Ele é inteligente, Deilma. - A senhora é mais. E depois, ele é velho, já não pensa com rapidez. - Não gosto que fale assim dele. - Mas estou mentindo? Ele baba quando a senhora passa, a gente vê isso nos olhos seguindo seu quadril mexendo pra lá e pra cá. É de propósito, não é? Aproveita dona Claudinha, porque se ele descobre nem sei o que é capaz de fazer. Amor tão grande como o que ele sente... - Ele não tem nada para descobrir. - Pois é. - Combinamos não falar mais sobre isso. - Bico fechado, eu prometi. Não sou mulher de trair as amigas. A gente é amiga, não é? - Está bem, Deilma. Vou dar o dinheiro a você. - O telefone está tocando. Atende que eu espero. - ... - Sabe quem é, não? - Dispenso seu comentário Deilma. - E então? Vai precisar que eu fique com as crianças hoje à noite? - Vou. Você pode me fazer este favor? - Claro patroa. A senhora precisa se distrair um pouco enquanto o patrão está viajando. Fica muito sozinha nessa casa imensa. - ... - Dona Claudinha? - Sim? - Sabe aquele vestido preto que a senhora usou no outro dia? Quando o patrão estava viajando também. - O que tem ele? - Tenho uma festa para ir e sabe como é, com esse salário que recebo não sobra nada para comprar uma roupa bonita para mim. - Você quer o meu vestido de seda bordado? - Não estou pedindo nada, dona Claudinha. Mas se a senhora oferecer, ficarei feliz demais. - ... - Dona Claudinha? - O que é agora? - Sabe o que descobri? Calçamos o mesmo número.
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53

a rosa revive o perfume que o livro tão antigo não carrega mais ( deixou escapar)Frases nem tão soltas

Cândida Albernaz

Existem segundos que vivemos que levam uma eternidade para se deixar esquecer.

*

Algumas vezes carregamos pedras e outras, flores. Há momentos que flores podem parecer pesar como pedras.

*

Como algumas pessoas conseguem buscar no vocabulário da vida as palavras que mais doem? Saem como vômitos espalhando sujeira por todo lado.

*

Estamos sempre entre a fome de viver e o medo da vida.

*

Há dias que  precisamos de um abraço forte para que o frio da alma se vá. Há dias que  nem mesmo um abraço forte aquece esse gelo da alma.

*

Nem sempre sou suave. Só para quem me vê com olhos que permito.

*

Quero colocar os pés na grama e deixar que o cheiro de mato se misture ao meu. E quando estender a manta embaixo de uma árvore trarei um pouco da infância sentindo o vento da tarde no corpo. Vou querer banana cozida, broa de milho, pão de sal quentinho com muita manteiga e minha mãe servindo a todos com conselhos na ponta da língua e compreensão para entender e confortar o que parecia não ter solução.

*

Quando a noite chega se disfarça em bailarina, para que assim, entre um sono e outro possa saltar com leveza e não acordar seu dormir tranquilo.

*

As palavras que saem da boca numa discussão não parecem ter ordem alguma. Atropelam o outro e te engolem.

*

Quando a sensação de paz e felicidade é muito intensa me assusta esperar pelo minuto seguinte.

*

Brinquei de achar que era possível enquanto trazia no olhar a inocência de acreditar.

*

Artistas enxergam com olhos de alma.

*

Anseio por serenidade como quem precisa de ar.

*

Da alma escaparam as luzes. Para a alma elas voltarão. Não há melhor abrigo para se estar, nem melhor forma de se doar.

*

Quando o erro é seu, não tente culpar o outro. É no mínimo ridículo e no máximo covarde.

*

Como no balanço da rede, pensamentos vêm e vão. Fogem e procuram. Não se acham.

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Candida Albernaz

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