Teia
candida 07/07/2016 20:13
teia 2Teia Cândida Albernaz - Dona Claudinha, estou precisando de um dinheirinho. - Outra vez Deilma? - A senhora sabe como é a vida, está cada dia mais cara. - Semana passada dei a você uma boa quantia. - É que meu filho gripou e preciso comprar remédio para ele. - Agora é seu filho? Cada semana é um que adoece? - A senhora não entendeu. Minha filha caiu e torceu o braço, por isso precisei do dinheiro. Agora o menino gripou. - Sei. - A senhora prefere que eu peça ao patrão? - Está me ameaçando? - Claro que não. Gosto tanto da senhora. Sempre me ajudando... - Você prometeu que não falaria nada. - Sou um túmulo dona Claudinha. - É bom mesmo. De quanto necessita? - A senhora vê aí. O que achar justo. - Como assim? Qual o preço do remédio? - É que não é só o remédio. As crianças têm que se alimentar melhor. - O que é isso Deilma? - Imunidade, dona Claudinha. Não podem ter imunidade baixa, caso contrário, caem toda hora e se quebram à toa, ficam gripados e até coisa pior. - Eu vou dar a você o dinheiro do medicamento e semana que vem mando algumas frutas para sua casa. - Nada disso, porque as crianças não gostam de frutas. Prefiro que a senhora me dê o dinheiro e eu compro o que eles quiserem. - Eu não posso exagerar, seu patrão daqui a pouco desconfia. - Desconfia não, dona Claudinha. A senhora ainda é moça, bonita, leva ele no bico. - Ele é inteligente, Deilma. - A senhora é mais. E depois, ele é velho, já não pensa com rapidez. - Não gosto que fale assim dele. - Mas estou mentindo? Ele baba quando a senhora passa, a gente vê isso nos olhos seguindo seu quadril mexendo pra lá e pra cá. É de propósito, não é? Aproveita dona Claudinha, porque se ele descobre nem sei o que é capaz de fazer. Amor tão grande como o que ele sente... - Ele não tem nada para descobrir. - Pois é. - Combinamos não falar mais sobre isso. - Bico fechado, eu prometi. Não sou mulher de trair as amigas. A gente é amiga, não é? - Está bem, Deilma. Vou dar o dinheiro a você. - O telefone está tocando. Atende que eu espero. - ... - Sabe quem é, não? - Dispenso seu comentário Deilma. - E então? Vai precisar que eu fique com as crianças hoje à noite? - Vou. Você pode me fazer este favor? - Claro patroa. A senhora precisa se distrair um pouco enquanto o patrão está viajando. Fica muito sozinha nessa casa imensa. - ... - Dona Claudinha? - Sim? - Sabe aquele vestido preto que a senhora usou no outro dia? Quando o patrão estava viajando também. - O que tem ele? - Tenho uma festa para ir e sabe como é, com esse salário que recebo não sobra nada para comprar uma roupa bonita para mim. - Você quer o meu vestido de seda bordado? - Não estou pedindo nada, dona Claudinha. Mas se a senhora oferecer, ficarei feliz demais. - ... - Dona Claudinha? - O que é agora? - Sabe o que descobri? Calçamos o mesmo número.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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