Em tempo de conversa
candida 28/07/2016 01:10
contoEm tempo de conversa Cândida Albernaz - Outro dia ouvi você falando que espera encontrar o amor de sua vida. - Verdade. - Mas você acha que ainda vai encontrar? - Claro que sim. - Com cinquenta anos? - E daí? - Ainda não esteve com ele? - Estive. Algumas vezes. - Ah!, então você o conhece. - Não este  que espero. - Como assim? - Já tive amores da minha vida. - Amores? - Sim. Cada amor que encontrei foi sempre o meu primeiro amor. O da vida inteira. - E? - E quando acaba percebo que ainda não foi ele. - O que você espera desse amor? - Que ele enxergue quem sou. Esconda-me em seu abraço. Desnude-me com o olhar.  Dê-me motivos para rir. E que ria das minhas graças mesmo quando forem sem graça. - É muito difícil? - Talvez eu queira demais. - Mas o que você falou não é demais. - Não é só isso. - O que mais então? - Quero enxergá-lo. Rir de seu riso. Colocar sua cabeça em meu peito quando estiver cansado. Querer seu corpo em mim. E ouvir com atenção suas mesmas histórias todas as vezes que quiser contá-las. - Tenho vontade de dar risadas de você. - Por que você riria de mim? - Porque nada lhe basta. - Não é verdade. Sou simples. - Você, simples? - E não sou? - Não, não é. Pensa demais. - Penso. Penso até não suportar tanto pensar. - E para que isso serve? Não dificulta sua vida? - Não tenho domínio sobre minha mente. E você sabe disso melhor do que ninguém. - Questão de treino. - Agora é você quem está me fazendo rir. - Treine não pensar. Desligue-se. Ouça uma música e relaxe. - Músicas prendem minha atenção. Gosto de entender e sentir o que a letra diz. - E então começa a pensar de novo. - Pois é. Pior quando me doem. - Tem mania de esticar os problemas até o limite. - Mas quando chega a este ponto, desisto deles e passo a fingir que não existem. - Então por que não faz isso desde o início? Acaba perdendo seu tempo e o meu. - Se eu conseguisse me conhecer... desvendar quem sou. - Gostaria? - Nunca! Prefiro surpreender-me comigo. Caso contrário perderia a chance de sonhar. - Hum! - Acompanhe: já imaginou conhecer-se completamente?, sem surpresas?, ou sustos no que faz? - Teria uma vida mais calma, sem tantas decepções. - E sem sonhos, já lhe disse. - ... - Verdade que não ter controle sobre as próprias reações, pode doer muito. Como machucar o outro sem querer. Se ocorrer, tenho necessidade absoluta de pedir desculpas. - Ou não conseguirá dormir. Sei bem. - Não durmo nem vivo. Sofro. - Mesmo assim não quer o domínio do autoconhecimento. - Não quero. - Há dias em que ser sua mente me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la e não consigo. - Não se desespere. Basta que dê um tempo. - Se é só o que temos: tempo. - E por falar em tempo, é tarde. Preciso dormir. Precisamos. - Pare de pensar então. - O que acha de contar carneirinhos? Quer ajudar? - Tenho escolha? Feche os olhos. - Só mais uma coisa. Amanhã quando acordar, não permita que eu a use para ficar agitada ou ansiosa. Quero querer rir. - Não depende só de mim. Olhe que jardim lindo estou desenhando em sua mente, flores perfumadas, o murmúrio da água do riacho...  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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