Ainda presa num retrato
candida 26/07/2016 10:41
13524340_1122124467846436_1054009958568484992_nAinda presa num retrato   Cândida Albernaz   Estou presa neste retrato em preto e branco amarelado pelo tempo. Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento. Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou. O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo. Ainda recordo do dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar. Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso lhe fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam? A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha a opção pelo que aconteceu. Quando tivemos o Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe. Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar da cama, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez. Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, estive acomodada deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora. Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim. Nunca perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse enfim me perceber: ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro. Não saí de casa para viver sozinha. Em menos de um ano eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio. Jamais proibiu que visse nosso filho a hora em que quisesse, mas foram poucas às vezes em que esteve por perto. Até hoje, não pude descobrir se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Sem demonstrações do que sente. Poderia dizer que sofri com minha decisão, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Mas de nada adiantaria. Depois de alguns anos, refez sua vida com uma mulher que eu jamais vira. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento relacionado a qualquer outra pessoa que não seja Carlinhos. Nosso filho se tornou homem e nos aproximamos. Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa, me trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos. Fui feliz com ele. Quando você adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez. Sua mulher não vivia mais com você e naquele momento em que estavam só os dois, ele lhe fazendo companhia, fui até sua casa. Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e agachando, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente. Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Observei-a por algum tempo e em seguida coloquei-a no mesmo lugar. Voltei-me e notei que apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão. Espero que não vá sem me perdoar. Eu já o perdoei. Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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