Primeira vez
candida 01/09/2016 19:17
13615312_10209140393454335_2903117780797065458_nPrimeira vez Cândida Albernaz Sentada na poltrona predileta recostada na almofada, os pés sobre o banquinho, olhava a tela da televisão à sua frente. Se lhe perguntassem o que estava assistindo não saberia dizer. Os olhos fixavam-se num ponto invisível onde via passar parte de sua vida. O quarto estava impecável como sempre. Nos móveis não era possível ver qualquer resquício de poeira. Nos armários, as roupas eram penduradas por cor, sendo que a cor seguinte combinava com o tom da anterior. Ainda não almoçara. As crianças na escola e o marido no trabalho. Hoje, quando acordou sentiu-se estranha. Não tinha vontade de fazer nada. A cozinheira chegou e perguntou o que queria que fosse preparado para o almoço. Pela primeira vez deixou que ela decidisse o que comeriam. Antônia a olhou com ar de quem desconhece. Não se incomodou. Voltou para o quarto, sentando-se novamente. Pensava em sua adolescência, quando tinha poucas amigas e estudava num colégio só para mulheres. Enquanto as colegas enrolavam as saias pelos cós para que ficassem mais curtas e abaixavam as meias até o tornozelo, o seu uniforme permanecia sempre no comprimento exigido. Impecável. Aliás, tudo em sua vida era feito de forma responsável, seguindo regras e não entendendo as exceções. Quando se conheceram, ela e o marido, os pais logo o aprovaram e afirmaram ser o melhor para ela. No dia da festa de noivado, alegrava-se mais por eles do que por si mesma. Casaram-se na igreja, ela de véu, grinalda e virgem. Era assim que devia ser. Era assim que fazia. Não houve um dia sequer que o marido a procurasse e não se submetesse a ele. Com o tempo aprendeu a gostar daquele movimento dos corpos suados. Nunca demostrou. Restos de uma época em que costumava ouvir o quanto era sujo, errado ou proibido. Com a chegada dos filhos, os educava com as lições aprendidas e apreendidas. Cuidava bem deles e os amava também, mas não deixava que percebessem seu excessivo amor, pois poderia transformá-los em adultos frágeis. Palavras de sua mãe. Todos os dias o marido almoçava em casa e à noite os quatro reuniam-se na sala para que assistissem a algum programa na TV. Nada que contribuísse para dar mau exemplo às crianças. Não discutiam, ela e o marido. Ele costumava sair com os amigos dois dias na semana, decidir onde passariam as férias ou o filme que veriam no domingo. Ela aceitava. Não estava gostando muito do rumo de seus pensamentos. Sentia a boca seca. O coração batia mais rápido do que o normal e lágrimas escorriam fazendo com que sentisse o rosto arder. O peito parecia tão apertado que lhe faltava o ar. Talvez estivesse doente. Levantou-se e foi para frente do espelho. Olhou-se de cima a baixo e viu alguém com fome. Fome de vida. Soltou os cabelos e desabotoou o vestido. Admirou o corpo nu e tocou-o como nunca havia feito. Viu uma mulher mexendo os quadris de forma sensual. Foi até o armário e tirou um vestido que a irmã lhe presenteara e nunca tivera a coragem de usar. Tinha alças e um decote acentuado. Pegou o batom e depois de passar nos lábios, umedeceu-os com a língua. A sandália alta, usada apenas em ocasiões especiais vestiu os pés macios. No espelho uma mulher sorria para ela com malícia. Foi para a rua sem que a cozinheira notasse. No final da tarde, com a casa vazia ao voltar, encontrou um bilhete sobre a mesa: o que deu em você? almoçamos e deixei as crianças com sua mãe. não podiam ficar sozinhos e Antônia precisou ir embora. vou encontrar com os rapazes na saída do trabalho e mais tarde nos falamos. quando chegar avise para que seu pai deixe os netos com você. Beijos. Soltou aquele pequeno pedaço de papel que caiu no chão. No quarto, tirou a roupa guardando-a cuidadosamente no armário. Tomou um banho quente, prendeu os cabelos, vestiu algo confortável e sentou-se na poltrona ligando a televisão. Nos olhos havia um brilho nunca experimentado antes.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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