Preciso tomar uma decisão
candida 26/07/2016 10:39
rosa-de-amorPreciso tomar uma decisão  Cândida Albernaz Sua cabeça hoje não parecia estar funcionando como de costume. Ouvia os pedidos e anotava-os mecanicamente. Acabaria recebendo uma reprimenda. Ontem mesmo errara com um cliente antigo. Pediu desculpas e observou que o gerente o olhou de cara feia. Precisava estar mais atento, mas como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz e nunca brigava ou se metia em confusão. Se havia algo que chamava a atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parecia ter ido embora desde aquele dia. Estão chamando por ele outra vez. Será que esta noite não acaba? Meia noite e meia e o restaurante ainda cheio. Mais um problema: a mesa cinco pediu cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que comessem o que trouxe do que reclamar? Sempre ouviu dizer que o tal do salmão faz bem a saúde. Pois então! Estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Conhecia o tipo. Ruim de dar gorjeta. Que se dane! Se continuar assim, vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa. O pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Estava acabando com o juízo dele. Melhor se concentrar no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar. Na verdade, já não havia decidido? Mandar embora nem pensar. Era viciado naquela mulher. Descobriu tudo. Verdade que ela nunca fez questão de esconder, ele sim, fazia questão de não ver. Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer. Quando a conheceu, os amigos avisaram como seria, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que com ele seria diferente. Não foi. O nome do sujeito: José. Isso lá é nome de amante? Mas o certo é que o filho da puta andou com a mulher dele. Não tinha outro jeito. Não conseguia sair de casa ou mandá-la embora. Teria que matá-la. Onde foi parar seu sossego?  Como estava não podia permanecer. Ainda não sabia como faria; faca, arma de fogo (nem sabia como usar), veneno? Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. Antes de sair teve que ouvir do gerente que se continuasse displicente como estava não continuaria trabalhando ali. Pensou na hora que queria que ele se f... Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida. Ela deve estar deitada. Será mais fácil. *                                            *                                                            *                                                            * Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim. Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer. Enrolado na toalha fica parado olhando-a. Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. E quando isso acontece se espreguiça e diz: chegou amor? Agacha-se e a beija, ela o puxa de encontro ao corpo quente ao mesmo tempo em que segura sua mão para que em formato de concha, toque seu peito. Sabe do que gosto, não é? Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você minha menininha. A resposta que ouve é a de sempre: você sempre será o único amor da minha vida. Afunda o rosto naquela pele macia e cheirosa sentindo o coração bater com força.    

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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