Ícaro voador
Christiano Barbosa 21/05/2023 19:07 - Atualizado em 23/05/2023 14:02
Ícaro voador
Corria o final da década de 90 quando veio a excelente notícia de que a família que meu pai e minha mãe constituíram, fruto do seu amor, ganharia o primeiro neto. Ícaro nasceu em julho de 1999, para ser o meu sobrinho e meu primeiro afilhado, escolhido pelos pais, Aluysio, meu irmão, e Dora.
Vitória, minha primeira filha, veio ao mundo dois meses depois, em setembro de 1999, para ser a sobrinha de Aluysio e sua afilhada. Na tola imaturidade da primeira paternidade, eu tinha preferência por um menino. Após ela nascer, rapidamente eu passaria a desejar que um possível futuro próximo filho fosse menina também.
Em novembro de 2004 eu ganharia meu segundo afilhado, David, filho do meu amigo irmão César Boynard e da minha cunhada Janife. Convivendo com as inúmeras levadices de Ícaro e David em sua infância, doces para quem é padrinho, reforcei minha convicção que seria pai somente de meninas e que minha cota de meninos se esgotara já com o apadrinhamento.
Um pouco antes, em agosto de 2004, eu e Julie sacramentamos nosso amor em uma festa de casamento do tamanho que ela e minha mãe sonharam. No cerimonial, Ícaro, com 5 anos, foi o pajem e sua entrada era por um caminho iluminado à luz de velas. Sacana como sempre, ele, em seu trajeto ao altar, soprou e apagou vela por vela, para deleite de meu pai, seu fã número 1 declarado.
Eu sempre gostei de esportes e tentei puxar esse lado de Ícaro, assim como de Vitória. Até ensaiaram seguirem na natação, mas não rolou. Em uma destas tentativas, levei ele ao campo onde eu, até então peladeiro inveterado, jogava futebol, para torcer por mim. Sacana, ele passou o jogo todo torcendo contra e me chamando de pé duro, embora eu jogasse até direitinho. Aposentei ele ali da minha arquibancada.
A minha família seria aumentada em junho de 2011, com o nascimento “virginianamente” planejado de Bárbara. E seria inesperadamente completada em julho de 2017, quando Valentina quis vir ao mundo para deixar todos de cabelo em pé e esbranquiçar ainda mais os meus fios. Foi a senha para encerrar a minha carreira de reprodutor.
Nas reuniões da nossa família, Ícaro seria sempre bendito o fruto entre as mulheres da segunda geração. Ele seguiu crescendo e evoluindo, como um adolescente e jovem educado, doce, sensível, muito inteligente e dono de vasta cultura, ávido por conhecimento, tal como seu pai.
Seu lado sacana continuava presente, na sua risada e algumas tiradas. Vez por outra eu e ele, alvos preferenciais das brincadeiras do meu irmão, nos juntávamos contra ele para transferir o sorriso amarelo para o lado de lá.
Em 2019, Ícaro seguiu a carreira do seu avô paterno, cuja perda em agosto de 2012 ele sentiu muito, e do seu pai, começando a atuar como jornalista na Folha da Manhã. Sua evolução foi rápida e, no caminho natural da linha de sucessão, em 2021, por mérito, passou a ser responsável pelas redes sociais e a integrar o quadro societário do jornal.
Superados os anos de pandemia, os eventos do jornal voltaram em 2022, assim como as reuniões de família. Na Feijoada da Folha no ano passado, ele, no esplendor da juventude, era um dos mais animados e felizes.
No final de 2022 meu irmão idealizou uma viagem ao Egito e a Israel com Ícaro e nos debruçamos sobre a complexa arte de planejar a jornada, difícil para viajantes por conta própria e fora das excursões. Foram 45 dias de viagem, com dias em Amsterdam, na ida, e uma semana em Paris, ali já com minha mãe, na volta.
Ícaro, bem no inglês e “rato” de tecnologia, hoje essencial também nas viagens, além de deter grande conhecimento, foi figura fundamental para tudo dar certo.
No sábado, 13 de maio, comemoramos aqui em casa o Dia das Mães, antecipando em um dia a data. Com as famílias, constituídas pela minha mãe e pela minha sogra, presentes, foi um dia agradabilíssimo, com todos felizes e contando os seus planos de vida.
Ícaro falou da viagem recente, do destino que mais gostou, Amsterdam, e relembrou, com seu pai, de passagens no Egito e em Israel, e com sua avó, de cenas vividas juntos em Paris.
Eu e ele tínhamos alguns gostos e preferências em comum, viajar claramente era um deles, outros nem tanto. Eu sempre fui fã de esportes, Ícaro no máximo airsoft. Eu sou de centro-direita, ele de direita. Mas era no gosto por rock e na preferência pela cerveja que mais nos afinávamos.
Ele foi o meu parceiro de cerveja no Dia das Mães, enquanto os demais optavam por vinho, água ou refrigerantes. Meu parceirinho. Nossa última parceria.
Quando ele saiu daqui de casa desci para leva-los até o Uber e, no elevador, fiz carinho nas suas longas madeixas, sem saber que seria o último.
Fui para a festa de 50 anos de um amigo, Erasmo Jr, onde reencontrei vários amigos de uma vida. Vinte minutos depois de entrar na festa recebi a ligação do meu irmão com a trágica notícia de que Ícaro não estava mais entre nós.
Enquanto eu e meus amigos entrávamos no terço final de vida, com muitas histórias para contar, algumas boas e outras nem tanto, meu afilhado tinha sua vida interrompida no seu primeiro terço, com tanta história para viver.
Nos dias que se seguiram, da semana mais triste de minha vida, foi difícil encontrar respostas. Mantive a prática de esportes, que, entre tantos benefícios, serve também como uma válvula de escape.
Na quinta-feira passada, na piscina do Sesi, onde nado desde 2018, ao respirar lateralmente, vi, pela primeira vez em 5 anos, a cúpula de uma igreja vizinha e a cruz em seu alto. Mais uma respiração e vi um pássaro voando, batendo suas asas rumo ao céu. No dia seguinte, uma linda missa de Padre Murialdo acalentou corações e mentes.
Ícaro viveu como quis viver. Não concordo com todas as suas decisões, mas estarei ao seu lado sempre. Te amo meu afilhado, continue voando o mais alto que puder e busque o seu sol. Voe Ícaro voador!

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