Artigo - Obrigado, Rainha Marta
Matheus Berriel 05/08/2023 09:45 - Atualizado em 05/08/2023 11:42
Marta, a maior de todas no futebol
Marta, a maior de todas no futebol / Foto: Thais Magalhães/CBF
Mais do que a eliminação da Seleção Brasileira na primeira fase, algo que não ocorria desde 1995, o empate por 0 a 0 com a Jamaica, na última quarta-feira (2), ficou marcado como a última partida de Marta numa Copa do Mundo. Titular pela única vez entre os três jogos disputados na Austrália, a maior jogadora de todos os tempos não conseguiu o mesmo feito de Lionel Messi, que, na vertente masculina do futebol, chegou ao apogeu da carreira ao conquistar o título mundial com a Seleção Argentina, no final do ano passado. Algo a ser lamentado, mas que em nada diminui o tamanho da camisa 10.
Aos 37 anos de idade, a alagoana Marta Vieira da Silva conquistou várias “Copas” pessoais desde que deixou Dois Riachos, sua terra natal. Quando nasceu, em 1986, havia apenas sete anos que o futebol tinha deixado de ser proibido para mulheres no Brasil. Provavelmente não imaginava que um dia seria a grande responsável para que meninas como ela acreditassem que teriam sucesso “correndo atrás de uma bola”.
Aos 14 anos, Marta já era atleta do Vasco, no Rio de Janeiro, após ter dado os primeiros chutes no CSA. Emprestada pelo clube carioca ao Santa Cruz, em Minas Gerais, de lá seguiu para defender o Uméa IK, na Suécia. Só então passou a ter o devido reconhecimento no seu país, autointitulado “país do futebol”, mas que trata o feminino como se outro esporte fosse. Afinal, se hoje falta apoio às mulheres que praticam o esporte bretão no Brasil, o que dizer de 2006, quando Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo pela primeira vez, após ter integrado o top-3 nos dois anos anteriores?
Muitos gols ela fez desde então. Só em Copas do Mundo foram 17, distribuídos em 17 jogos de cinco edições diferentes, o que a torna a maior artilheira do torneio independentemente do gênero. Tem um gol a mais do que o alemão Klose, dois a mais do que Ronaldo. Em seu sexto Mundial, já sem a mesma explosão que lhe fora habitual durante a carreira, disputou mais duas partidas entrando no segundo tempo e uma como titular, mas sem balançar a rede. Não que tenha feito tanta diferença, pois sua simples presença, ainda que no banco de reservas, passou a ser suficiente para incendiar estádios, motivar cantos, provocar ovações, motivar companheiras. Ou melhor, motivar fãs, pois quem há de negar que são fãs as jogadoras da nova geração que, quando garotas, vibraram com os feitos de Marta e viram nela uma referência?
Muitas quiseram ser Pelé, muitas tentaram ser Zico, tantas outras disputaram peladas sonhando ser Ronaldinho, até que surgiu Marta. Não foi a primeira jogadora, não será a última, mas foi quem deu voz e vez a tantas outras que, em um ambiente predominantemente masculino, tiveram que ignorar olhares tortos e falas preconceituosas, como a de que “bola é coisa de menino”.
O adeus sem glória na Austrália deixa em nós, torcedores, um sentimento de que o capítulo final poderia ser diferente. Empolgados por um falso favoritismo, ignoramos o fato de que nem entre os homens, cujos jogos estão todos os dias em nossas televisões, nos rádios e nos jornais, o tal favoritismo tem existido mais. Que dirá em relação às mulheres, das quais geralmente só nos lembramos a cada dois ou quatro anos, durante Olimpíadas e/ou Copas do Mundo. Ou você sabe em que time joga a Debinha ou quantos gols fez Ary Borges na temporada?
Bicampeã pan-americana, tricampeã da Copa América, vice-campeã mundial em 2007, duas vezes vice-campeã olímpica, campeã da Libertadores e da Liga dos Campeões; vencedora no Brasil, na Suécia e nos Estados Unidos, e seis vezes melhor jogadora do mundo, Marta foi grande até o fim. Em discurso com tom de despedida, lembrou de que ela para por aqui, mas tantas outras continuam. Com elas, temos uma dívida histórica de apoio. A Marta, nos resta agradecer.

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