Delegado preso assumiu chefia da Polícia Civil na véspera do assassinato de Marielle
24/03/2024 14:26 - Atualizado em 24/03/2024 14:26
Delegado Rivaldo Barbosa
Delegado Rivaldo Barbosa / Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Um dos presos neste domingo (24) pela Polícia Federal (PF), o delegado Rivaldo Barbosa foi nomeado chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro no dia 8 de março de 2018 e tomou posse cinco dias depois, na véspera do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O decreto de nomeação foi assinado pelo comandante da intervenção federal na segurança pública no estado do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto. O nome de Barbosa tinha sido anunciado para ocupar o cargo em 22 de fevereiro, durante a intervenção federal no Rio. Neste domingo, ele foi preso em casa, em um condomínio no bairro de Jacarepaguá, Rio de Janeiro.
A área de inteligência da Polícia Civil, na época da nomeação de Barbosa para comandar a instituição, havia contraindicado o nome dele. Mas, segundo informações dos investigadores da operação da PF, o general Braga Netto manteve posicionamento garantindo que ele assumisse a chefia da Polícia Civil fluminense.
Nomeado interventor na área de segurança do Rio pelo então presidente Michel Temer, o general da reserva Braga Netto general se transformou em político. Dois anos depois de sua passagem como interventor no Rio, foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, de 2020 a 2021. Depois, de 2021 a 2022, foi ministro da Defesa. Filiou-se ao PL e concorreu à vice-presidência na chapa liderada pelo então presidente em 2022.
Braga Netto é investigado por suposto envolvimento no planejamento de golpe de Estado para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Dissimulação
Em discurso ao tomar posse, o delegado Rivaldo Barbosa destacou a necessidade de “combater a corrupção”, dizendo que esta seria uma de suas prioridades no cargo, no qual permaneceu de março a dezembro de 2018. Informações sobre as investigações no Rio de Janeiro e em Brasília indicam que ele teria feito uma combinação com o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão, para garantir a não identificação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco.
Barbosa também é suspeito de receber propina para obstruir as investigações sobre o crime. Segundo a PF, o delegado teria recebido aproximadamente R$ 400 mil para evitar que as apurações sobre a autoria do crime avançassem. Tal informação consta em relatório de 2019. O delegado  nega ter desenvolvido ações para obstruir as investigações e recebido o dinheiro.

Em delação, o ex-policial militar Ronnie Lessa disse à PF que Barbosa tinha conhecimento do crime e garantiu impunidade aos envolvidos.

Despistar
Ações do ex-chefe da Polícia Civil do Rio teriam plantado informações falsas durante a investigação do assassinato. Uma delas levou ao titular da Delegacia de Homicídios, Giniton Lages, então encarregado do caso, a falsa informação de que delegados da PF haviam encontrado uma suposta testemunha da execução.
Em 2018, foi ele quem determinou que o policial militar Rodrigo Ferreira, conhecido como Ferreirinha, fosse interrogado. Ferreirinha fora apresentado como testemunha de conversa entre Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, e o vereador Marcelo Siciliano, na qual estes teriam falado sobre o planejamento da morte de Marielle. Ambos foram apontados como mandantes do crime. Cerca de nove meses depois, tal informação foi dada como falsa pela própria PF.
Além dessa pista falsa, Barbosa fez reunião com parlamentares da bancada do PSOL, partido da vereadora, na qual garantira o esclarecimento do crime. Para a imprensa, nessa época, o delegado afirmou que a polícia estava no caminho correto das investigações, que levariam à elucidação do caso.
Rivaldo Barbosa é bacharel em Direito, com o curso concluído em 1998. Em suas redes sociais, ele se apresenta como professor de direito em uma instituição de ensino superior privada.

O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, que fez carreira política no Rio de Janeiro, escreveu em sua rede social que Rivaldo Barbosa foi a primeira pessoa para quem ele ligou quando soube do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Freixo lembra que foi recebido, junto com as famílias das vítimas, pelo então chefe da Policia Civil do Rio no dia seguinte ao crime. “Agora Rivaldo está preso por ter atuado para proteger os mandantes do crime, impedindo que as investigações avançassem. Isso diz muito sobre o Rio de Janeiro”, afirmou.
Em entrevista à imprensa, em 15 de março de 2018 — um dia após o assassinato de Marielle —, Barbosa havia garantido que a polícia adotaria todas as medidas “possíveis e impossíveis” para dar uma resposta sobre o crime. “Estamos diante de um caso extremamente grave e que atenta contra a dignidade da pessoa humana e contra a democracia”, dissera.
Fonte: Agência Brasil.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS