Efeitos sociais da pandemia
14/05/2020 | 20h45
Este é o segundo texto do professor André Kieserling traduzido e publicado no blog a partir de sua coluna no Frankfurter Allgemeine Zeitung.
Nesta coluna, Kieserling comenta achados empíricos das mais variadas pesquisas sociais sobre os mais distintos temas, usando um olhar sociológico para comunicar, de modo resumido e acessível, um conhecimento científico que refuta a pretensão de generalidade de intuições do senso comum. Não se trata de negar totalmente a validade destas intituições, mas sim de relativizar esta validade. A sociologia é arte do "segundo olhar", dizia Luhmann, o grande mestre de Kieserling e fundador da Escola Sociológica de Bielefeld.
Meu objetivo, porém, vai além da tradução e reprodução desses textos. Inclui comentários sobre o significado dos principais achados para debates sobre a política e a sociedade no Brasil.
Neste texto, na agenda da Covid-19, o assunto são os efeitos sócio-culturais das crises e pandemias, especialmente a simplificação cognitiva e moral do mundo que decorre do colapso dos saberes sociais disponíveis. Um destes efeitos seria a desconfiança com pessoas ou grupos considerados perigosos, ou seja, responsáveis por disseminar doenças.
Será que os brasileiros podem ser alvo de processsos de estigmatização como estes? Será que o conhecimento global sobre nosso fracasso em lidar com a pandemia, inclusive sobre o comportamento das pessoas, pode se tornar um saber seguro, em meio a tanta insegurança cognitiva, para orientar práticas de discriminação que toda pandemia já tende a induzir?
 
Uma epidemia de medo
                                                                                                               André Kieserling
A praça do mercado de Nápoles durante a peste, de Domenico Gargiulo,1657
A praça do mercado de Nápoles durante a peste, de Domenico Gargiulo,1657
 
 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Em tempos de crise, perdemos nossa orientação e aumentamos nossa desconfiança em relação aos outros. Qual a razão disso?
Exatamente trinta anos atrás, o sociólogo da medicina britânico Philip Strong publicou um ensaio sobre a sociologia das epidemias, que logo se tornou uma referência clássica em pesquisa sobre desastres nas ciências sociais. Naquela época, a AIDS era a ameaça do momento, e as entrevistas feitas pelo autor também se referiram às incertezas que ela desencadeava. No entanto, Strong também levou em conta epidemias da antiguidade e da idade média, pois seu objetivo era um modelo geral. É, portanto, um pensamento deliberadamente a-histórico, que visa sobretudo identificar os traços constantes na reação a um desastre de grandes proporções, novo e em grande parte incompreensível.
O autor não se preocupa com a trajetória objetiva de uma doença infecciosa, sobre a qual se deve temer que ponha em perigo a saúde ou a sobrevivência de muitas pessoas – e isto sob pressão temporal intensa que limita fortemente o repertório de medidas e possibilidades de reação adequadas. Ao invés disso, ele está interessado na crise de orientação que tais perspectivas desencadeiam na sociedade. Esta segunda crise não é simplesmente um reflexo mais ou menos fiel da primeira. Embora se espalhe como um contágio, segue sua própria lógica e pode, portanto, causar seus próprios "danos de inquietação" (Niklas Luhmann), não só temporariamente sobre o julgamento das pessoas envolvidas, mas também permanentemente sobre as instituições da sociedade.
Subjetividade necessária
Para Philip Strong a principal razão para esta autonomia do desenvolvimento especificamente social da crise, é que em face de riscos maiores, agudos e novos não é possível se orientar por saberes testados e seguros. Quando a Peste Negra se aproximou pela segunda vez, as pessoas já tinham experiência e rotina para lidar com essa pandemia, mas na primeira aparição as pessoas estavam despreparadas. Segundo Strong, a ação em uma crise desse tipo não é simplesmente orientada pela diferença entre o que é certo e errado, pois, além de erros drásticos, é preciso evitar que a ação aconteça cedo ou tarde demais. Os historiadores podem ver isso retrospectivamente, mas seu conhecimento não está disponível para os contemporâneos do desastre desconhecido. Estes contemporâneos não têm outra opção além de exagerar as informações insuficientes e agir com base em seguranças autofabricadas. Suas reações são, portanto, inevitavelmente subjetivas, e é justamente essa subjetividade necessária que torna compreensíveis muitas características objetivas da dinâmica social da crise.
Strong explica isso usando o exemplo da desconfiança em relação a pessoas consideradas perigosas. Isto pode ser um erro de julgamento subjetivo. Mas precisamente como tal, mesmo em situações normais, este erro tende ao auto-reforço e à hostilidade aberta, e em crises graves de orientação essa hostilidade pode ser dirigida contra aqueles a quem se atribui a doença ou que poderiam disseminá-la. Como é sabido, uma das primeiras reações à AIDS foi a tentativa de vê-la como uma doença apenas de gays, quando não um castigo por sua orientação sexual. Strong fala de uma epidemia de medo para descrever tais ondas de desconfiança.
Alarmistas e negacionistas
A necessária subjetividade da reação explica muito bem por que não há avaliações unânimes, mas sim concorrentes sobre o perigo, confrontando, por exemplo, alarmistas e negacionistas com enorme vínculo emocional com suas próprias visões. Mesmo as controvérsias científicas podem então ser combatidas como guerras de fé, e também podem ocorrer conversões que levam os seguidores de um campo para o outro, onde continuam sua pregação com o zelo dos novos convertidos. Philip Strong fala de uma epidemia de explicações e uma epidemia de recomendações de ação, para descrever essa ação descoordenada com convicções fortes.
As dúvidas sobre este procedimento a-histórico são evidentes: As civilizações pré-históricas avançadas não reagiram de forma bem diferente às epidemias em comparação com as sociedades modernas? E não faz diferença considerável se quem atua como intérprete competente são padres ou cientistas? Strong talvez responda que a simplificação do modelo atende a um traço do próprio objeto: as crises têm como característica geral a simplificação das perspectivas. A regressão intelectual e emocional é um de seus efeitos colaterais, e uma forte tendência à desdiferenciação social é uma de suas características inconfundíveis. Isso parece plausível: pessoas alimentadas conseguem se diferenciar umas das outras, mas a fome quase insuportável faz com que todos se pareçam iguais. Da mesma forma, pode-se olhar para esta ou aquela direção em meio a um ambiente de vida estável e conhecido, mas diante de um perigo desconhecido, reações menos diferenciadas e sobretudo menos independentes são flagrantes.
Bibliografia
Philip Strong, „Epidemic psychology: a model“, Sociology of Health & Illness, Vol. 12, No. 3 (1990), p. 249-259.
 
 
 
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Bolsonaro cai ou não? Frenta ampla ou frente ousada?
28/04/2020 | 11h38
A capacidade de traçar cenários é um desafio conhecido para as ciências sociais. Não é absurdo nem ofensa dizer que somos famosos pela incapacidade de prever. Temos explicações muito boas para essa falha, acolhendo a crítica e explicando a “normalidade do problema” com a própria relativização sociológica da perspectiva científica. Mas a construção de cenários não se torna inválida com isso. Considerando a contingência dos diversos cenários, é possível, ainda creio, identificar possibilidades e impossibilidades relativamente prováveis e improváveis. A questão é trazer a imprevisibilidade, a contingência e a indeterminação para dentro do esforço de imaginar e traçar cenários com base no mais amplo e melhor conhecimento do passado e do presente.
A existência de cenários distintos traçados por cientistas sociais favorece esta internalização da indeterminação. A questão sobre as chances de Bolsonaro cair ou permanecer no poder aglutina atualmente esforços de previsão neste sentido não pretensioso, humilde, exigido pela internalização da indeterminação, mas ainda assim buscando distinguir, comparar e avaliar os distintos cenários.
À tese de que Bolsonaro tem nais chances de cair, defendida por Marcos Nobre, contrapõe-se a tese de que ele tem chances razoáveis de não cair, defendida por Carlos Sávio Teixeira. Um vê na luta pela queda do presidente a possibilidade de uma frente ampla pela democracia, a ser feita por todos os setores adversários do bolsonarismo, que agora inclui Sérgio Moro. O outro percebe a crise como possibilidade para uma frente ousada, que reconheça e compreenda os motivos da força do bolsonarismo e busque derrotá-lo por dentro, enfrentando os problema sociais e nacionais de que o projeto autocrático de Bolsonaro se alimenta, mas enfrentando com a mesma seriedade o projeto autocrático bem comportado que se aglutina em torno de Sérgio Moro.
Tomo posição. A tese de uma frente ampla, pautada na defesa abstrata da democracia que desconsidera os motivos da resiliência de Bolsonaro e de seu estilo autocrático, deve ser subsituída pela tese da frente ousada, pautada no reconhecimento destes motivos como condição necessária para oferecer uma alternativa que equipe a defesa da democracia com conteúdo programático que ataque os problemas concretos das maiorias.
Marcos Monte orienta uma defesa da democracia pautada exclusivamente no valor dos processos democráticos em abstrato, do input do sistema político. Não leva em conta os motivos pelos quais parte crescente da população valoriza menos os processos políticos em si (input) e mais os resultados do sistema (output), ou a promessa deles.
Carlos Sávio faz exatamente o oposto. Considera que o valor dos processos políticos não pode ser defendido sozinho. Depende de valores sociais ligados à realização de metas coletivas e por isso da ousadia programática para mudar a realidade.
Continuo tratando destas duas teses no próximo texto. Entendo que elas articulam, dentro do terreno da ciência política, não apenas duas análises distintas que representam bem as diferenças políticas entre os setores progressistas e liberais, mas também duas atitudes distintas em relação há como superar a crise de nosso sistema político e de nossa democracia.
 
 
 
 
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Radical no conteúdo e ampla na forma: a esquerda em busca do centro perdido
20/04/2020 | 10h13
O maior desafio da esquerda é construir discurso e programa capazes de conquistar maiorias sociais e políticas. Esta tarefa exige romper com o que Roberto Mangabeira Unger identifica como “ditadura da falta de alternativas”: a crise programática engendrada pela adesão da esquerda ao programa econômico de seus adversários, que com esta adesão hegemônica assume contornos de necessidade incontornável além das escolhas políticas. Algo que poderíamos chamar de um programa invisível, construído e implantado fora da disputa democrática sobre ideias e políticas públicas. Ao se render ao neoliberalismo, a esquerda abdicou das condições para juntar politicamente as classes médias e as classes populares. Os países que conseguiram esta junção política, esta fusão majoritária de interesses, foram os que rejeitaram o conformismo à ortodoxia neoliberal, rompendo com a miragem mágica de conseguir o progresso social por meio da confiança dos mercados financeiros internacionais.
A subserviência progressista foi merecidamente punida pelos eleitores. No Brasil não foi diferente. A fórmula geral da punição foi a implosão da âncora centrista com a qual contava a esquerda, o desmonte do “neoliberalismo progressista” identificado por Nancy Fraser. No processo de adesão ao programa de seus adversários, a esquerda buscou e ainda busca o centro político como lugar de apagamento e moderação das principais diferenças na esfera da política econômica, ou na “economia política” como falavam Marx e também os liberais com quem dialogava. O apagamento e a moderação destas diferenças seriam o único caminho para unir os pobres e a classe média em torno de uma agenda comum. Na prática, o que a esquerda tem feito, ao adotar este centrismo rendido, é desconectar a agenda da inclusão social e da redistribuição de renda da agenda da mudança da política econômica, combinando política identitária para minorias, política compensatória de transferência monetária para os pobres e política regulatória de serviços privados de educação e saúde para a classe média, ao preço de executar e ampliar a política rentista das oligarquias financeiras que promovem a oligopolização do controle das finanças, travestindo-se de mercado financeiro. Tudo isso na esperança de que a água morna centrista fosse acalmar os ânimos para sempre. Só que não foi assim. A classe média, ameaçada pela decadência social, se revoltou mais uma vez, restando para a esquerda, como no caso do Brasil, parcela das classes populares politicamente desorganizadas e por isso incapazes de conduzir aglutinação da maioria em torno de seus interesses, definidos quase exclusivamente no curto prazo. A situação social desta parcela das classes populares que restou para a esquerda, marcada pela desorganização e pela visão de curto prazo, facilita uma cooptação pelo bolsonarismo, o que torna o quadro ainda mais calamitoso.
É urgente reconectar a agenda da política social – inclusão social e redistribuição de renda – com a agenda da mudança da política econômica em torno de um projeto nacional de desenvolvimento centrado na soberania nacional. É preciso religar o que foi desligado. A agenda da reconquista do terreno perdido não consiste em um nacionalismo tosco. Soberania nacional não é isolamento nem ausência de dependência: é ruptura com formas assimétricas de dependência que impedem que as decisões coletivas fundamentais de que precisamos para nosso desenvolvimento sejam controladas pela política nacional.
A reconexão entre política econômica nacionalista e política social universalista consiste em mudanças sociais induzidas pelo sistema político no sentido de construir solidariedade complexa no plano nacional, oferecendo programa e discurso que façam o que chamo de fusão política majoritária de interesses sociais distintos em interesses políticos comuns, responsável pela criação de identificações coletivas suficientemente amplas e coesas parra sustentar decisões políticas. Na política social, esta solidariedade complexa requer a ruptura com a fragmentação entre política compensatória de transferência marginal de renda para os pobres e política regulatória de serviços privados para a classe média. A tarefa é atrair a classe média para os serviços públicos, para a escola pública, para o SUS. Na política econômica, o desafio é romper com o abismo institucional entre produção desigual e redistribuição marginal da riqueza. É preciso reinventar a receita do bolo, de modo que produção e distribuição não sejam momentos e processos desconectados, mas processos correlatos. A esquerda precisa conjurar o rebaixamento das expetativas e não se contentar em redistribuir pela tributação redistributiva a riqueza produtiva a apropriada de modo desigual no sistema econômico. É preciso transformar as estruturas sociais da economia. É preciso transformar e diversificar as formas de propriedade, recolocando a questão do controle dos meios de produção e da relação entre o capital e o trabalho no centro da agenda. O trabalho assalariado não serve mais como horizonte absoluto de trabalho livre garantidor de cidadania para todos. Formas alternativas de produção, consumo e financiamento como o trabalho cooperativo, que no século XIX figuravam como opções para superar a julgo do trabalho pelo capital, devem ser recuperadas e reformuladas à luz dos novos desafios. A inovação jurídica, especialmente nos direitos de propriedade, deve estar na ordem do dia. Em uma palavra, é preciso ousadia programática.
Muitos interlocutores preocupados com o destino da política de esquerda ainda estão presos à ideia de um centro político como lugar de apagamento e moderação das principais diferenças políticas. Acreditam que a moderação programática é o único caminho possível e/ou desejável. Precisam se dar conta que ela é parte do problema. Estão ainda reféns da confusão entre ser radical e ser sectário: partem da premissa de que um programa político radical, ousado, que busque soluções estruturais para problemas estruturais, é sempre sectário, estreito no espectro dos grupos e classes sociais que lhe dão sustentação. Esta confusão pode e deve ser desfeita, pois ser radical na dimensão programática não significa necessariamente sectarismo. Programas rebeldes de desenvolvimento nacional foram sempre radicais e contaram com ampla base de apoio envolvendo setores populares e médios. Quando não contaram com o apoio de setores burgueses, o apoio da classe média e dos setores populares garantiu, muitas vezes, as condições para a coerção política da minoria dissidente e entreguista. Não há lei social ou política que faça da classe média a linha de frente da burguesia antinacional e antipopular. Por mais que esta seja a configuração atual, não foi sempre assim.
É preciso recuperar as nuances e contradições da história política e a contingência das estruturas da ação social. A classe média está em disputa, como sempre esteve. É preciso ser radical no programa e amplo nas alianças. Radical no conteúdo e amplo na forma da comunicação política. O centro político perdido era um centro amorfo, marcado pelo “neoliberalismo progressista”, pelo rebaixamento de expectativas, pela idolatria institucional. O centro precisa ser reconquistado e reconstruído como centro radical. Uma esquerda em busca do centro não precisa ser uma esquerda rendida. Creio que o oposto é que vale: a esquerda só conseguirá reconquistar o centro perdido se for radical no que interessa às maiorias, e ampla na forma da comunicação e da organização política para aglutiná-las.
 
 
 
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O legado da educação de Campos na gestão de Brand Arenari
07/04/2020 | 14h23
Na última sexta-feira (03/04), Brand Arenari deixou a secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Campos dos Goytacazes para poder ser pré-candidato a vereador nas eleições do município pelo PSB. Deixou realizações importantes como a escola em tempo integral – os Centros Municipais de Educação Integral (CEMEIs) –, o fim da aprovação automática, o aumento da carga horária de português e matemática, o aumento das vagas nos cursos profissionalizantes para jovens e adultos (EJA) e a implantação das eleições diretas para diretores das escolas. Trata-se de um legado que põe a educação pública municipal no rumo certo, e que precisa ter continuidade. A aprovação recorde de alunos da rede pública municipal para o Instituto Federal Fluminense (IFF) no último processo seletivo é um bom indicador de que a educação básica de Campos tomou o melhor caminho, o do avanço na qualidade.
No passado de vacas gordas, nas gestões de Arnaldo Vianna, Garotinho e Rosinha, a educação básica de Campos nunca teve avanços significativos na qualidade do ensino ofertado. Apesar da abundância de dinheiro, as transformações necessárias não foram feitas. Faltou coragem política e também ideias. Os vínculos que estes ex-prefeitos mantiveram com Leonel Brizola não foram suficientes para que abraçassem de verdade a causa do soerguimento da educação básica. A gestão de Brand Arenari se deu no período de vacas magras, com o menor volume de recursos para investimentos em infraestrutura e recursos humanos que o município já viveu desde que passou a receber as receitas oriundas da exploração do petróleo. As graves restrições orçamentárias limitaram evidentemente o ritmo e o volume dos avanços. A implantação do ensino integral não vem ocorrendo, por exemplo, na velocidade desejada. Esta é uma crítica correta à gestão de Brand. Outra é a demora na implementação das eleições diretas para a direção das escolas. Apesar destas e outras críticas que possam ser feitas, nunca se avançou tanto na educação básica de Campos.
O ex-secretário demonstrou que política pública não depende só de dinheiro – embora, repito, ele seja essencial –, mas também de coragem política e ideias. Brand foi capaz de não se render a interesses organizados: embora alguns deles sejam legítimos, precisam ser, em contextos de escassez, subjugados ao interesse maior da população na melhoria da qualidade do ensino. Racionalizar a gestão exige medidas como o fechamento de algumas unidades escolares para otimizar a alocação de recursos físicos e humanos em unidades com mais alunos. Isto desagrada profissionais. Assim como implementar a eleição direta para a direção das escolas desagrada quem está acostumado a indicar ou a ser indicado para os cargos. Não faltou, porém, capacidade e coragem política para tomar estas decisões. O melhor ensino básico do país é o de Sobral, município do Ceará. Sua construção começou na gestão do atual senador Cid Gomes, que precisou fechar dezenas de escolas para fazer alocação racional de recursos: a racionalidade administrativa foi colocada à frente do interesse dos vereadores em indicar diretores. Em vez de ser punido eleitoralmente, como previam e desejavam os vereadores, Cid foi reeleito com louvor e Sobral se tornou paradigma estadual e nacional de transformação do ensino básico. Brand esteve ano passado no município cearense. Mesmo não sendo do mesmo partido de Cid, comunga com o senador cearense não só a coragem política, como também os conceitos fundamentais sobre o rumo necessário da transformação e qualificação do ensino básico.
Brand é um cientista social que conhece profundamente as desigualdades sociais e educacionais do país. Sua produção científica está concentrada no entendimento da situação social e cultural das classes populares. Entre 2015 e 2016, foi diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), onde participou de discussões sobre as políticas nacionais de qualificação do ensino básico, ao lado dos ministros Roberto Mangabeira Unger (Secretaria de Assuntos Estratégicos) e do próprio Cid Gomes (Educação). Em matéria de educação sua principal inspiração é Anísio Teixeira, mestre de Darcy Ribeiro. Parte do diagnóstico correto de nossos problemas: a desigualdade educacional e a má qualidade do ensino básico estão correlacionadas às profundas desigualdades sociais e culturais do país, pois as classes populares são afetadas, em grande parte, por deficiências cognitivas e emocionais produzidas na vida familiar precária e sem recursos e depois reproduzidas ao longo da trajetória escolar. Em vez de adotar a visão politicamente correta comum na esquerda, que ignora estas inibições cognitivas e emocionais em nome de uma suposta valorização dos saberes populares, Brand parte da concepção de que valorizar o saber popular é entender a legitimidade da demanda das famílias pobres por uma escola pública que ajude a fazer o que a família não conseguiu realizar sozinha: construir os pressupostos comportamentais, como disciplina e capacidade de concentração, indispensáveis para o sucesso dos processos escolares de ensino e aprendizagem. Foi para salvar as crianças pobres do destino de miséria engendrado pela socialização familiar precária que Darcy Ribeiro, inspirado em Anísio Teixeira, criou o CIEP. Brand adotou o mesmo caminho, e busca aperfeiçoar o conceito e a prática da escola pública integral: para soerguer social e culturalmente os pobres, a escola pública precisa atrair também a classe média. Política social e educacional só para os pobres acaba não servindo para ninguém. Quanto mais as famílias de classe média colocam seus filhos na escola pública, mas a causa do ensino público integral ganha sustentação política e social. Em todo lugar que a educação pública prosperou, foi assim que ocorreu. Na gestão de Brand Arenari este rumo foi traçado também em Campos. Sua entrada na política partidária e na disputa eleitoral é para mostrar que aqui também a causa da educação precisa e pode conseguir apoio político.
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Cuidar da economia e cuidar da saúde: o urgente e o importante
03/04/2020 | 12h25
Celso Furtado
Celso Furtado
Roberto Mangabeira Unger
Roberto Mangabeira Unger
É falsa a escolha entre cuidar da economia e cuidar da saúde do povo. A curto prazo, como tem ocorrido no mundo todo, o sistema econômico deve ser subjugado ao imperativo da saúde: achatar a curva de contaminação pelo coronavirus para salvar o maior número de vidas possível. Mas o pensamento de curto prazo não deveria dominar as ações de “economia de guerra” que precisamos adotar com urgência. É preciso combinar o que é urgente com o que é importante.
O urgente é salvar vidas e preservar o que for possível da economia, garantindo as condições materiais mínimas – liquidez das empresas e famílias, contratos de trabalho etc.– para o isolamento social, medida inegociável para que o sistema de saúde possa cuidar do maior número de pessoas e salvar o maior número de vidas possível. O importante é combinar o escudo de proteção de famílias e empresas com um escudo protetor de médio e longo prazo, capaz de assegurar a capacidade da economia nacional em formular um projeto de desenvolvimento. Como todo projeto nacional de desenvolvimento é sempre rebelde em relação ao que prescrevem as potências que desejam manter a condição subjugada de nossa economia, um escudo protetor para o avanço de setores estratégicos, como a economia da saúde, o complexo de petróleo e gás, a indústria da defesa e a criação de um complexo industrial do agronegócio, é indispensável não apenas para o presente, mas também para o futuro. A crise do coronavirus abre uma janela de oportunidade para quebrar o dogmatismo neoliberal não apenas no momento de emergência, como é consenso, mas também em uma perspectiva duradoura. É aí que reside a disputa fundamental.
Não é pouca coisa o fato de quase todo mundo ter se tornado neokeynesiano e redistributivista. O apoio militante dos liberais e a propaganda da rede globo em defesa da renda mínima deixou sem discurso os intelectuais que insistem que a luta redistributiva é a questão política principal. A “elite do atraso” está fazendo seu processo de aprendizado moral que Jessé Souza tanto prega. Quem está surpreso com os liberais e a rede globo defendendo a renda mínima ainda está na superfície da questão econômica envolvida na crise. De fato, é importante marcar e valorizar a diferença entre liberais convertidos ao redistributivismo, como Armínio Fraga e Monica De Bolle, e genocidas como Paulo Guedes. Faz diferença sim.
No entanto, há uma outra diferença que está sendo esquecida. A diferença entre o Estado intervir para salvar a economia e manter o status quo, a liquidez das empresas e das famílias, e intervir para reordenar a economia, criando novas bases produtivas e implementando um projeto nacional de desenvolvimento e complexificação da economia. Os bolsonaristas que apoiam a infame política de Paulo Guedes são genocidas. Contra eles vale a pena apoiar os liberais convertidos ao redistributivismo. Mas estes liberais param na superfície da renda mínima. A questão estrutural de longo prazo é como reconstruir nossas estruturas econômicas, como aumentar nosso padrão de produção de riqueza, como dinamizar o desenvolvimento de nossas forças produtivas e incorporar os ganhos de produtividade em todos os setores da economia.
O desmonte do dogma monetarista que impõe restrições desnecessárias às capacidades financeiras do Estado é um passo fundamental. Ao emitir sua própria moeda, o governo central não está, em tese, submetido a qualquer restrição financeira e por isso não é obrigado a equilibrar receitas e despesas. Não há jogo de soma zero entre Estado e mercado. Se o Estado não fizer política anticíclica radical, para garantir liquidez das empresas e das famílias, só restará mesmo o próprio Estado. Neste ponto André Lara Resende está à frente de seus colegas liberais. Mas este passo fundamental ainda não é suficiente. A soberania monetária do Estado nacional é de fato crucial para superar o subdesenvolvimento, mas ela não depende apenas da capacidade de emissão da moeda nacional. Depende também, e decisivamente, da exportação de produtos de elevado valor agregado e por isso da soberania tecnológica. Enquanto a moeda norte-americana for necessária nas transações internacionais correntes, a soberania monetária depende de uma política de exportação como fizeram China, Coreia do Sul, Alemanha, entre outros. A soberania monetária é, por sua vez, condição necessária para a soberania financeira, dimensão crucial para superar a dependência extrema das oligarquias representadas por Paulo Guedes.
Não é preciso uma “revolução socialista” para superar as relações de dependência e o subdesenvolvimento. Mas tampouco basta um processo de aprendizado moral que converta nossas elites ao redistributivismo. Precisamos de uma revolução nacional capaz de transformar nossas forças produtivas e elevar o padrão de produção de riqueza em todos os setores da economia. É óbvio que a redistribuição é fundamental. Está diretamente ligada à garantia de direitos sociais. Mas não se pode garantir nem redistribuição nem direitos sociais sem soberania nacional e portanto sem transformação estrutural de nossa economia, o que, por sua vez, como a história mostra, não se pode alcançar sem coerção política sobre as elites econômicas.
O caso da economia da saúde é exemplar. Neste momento de urgência, precisamos importar massiva e rapidamente insumos, testes, equipamentos de proteção individual, respiradores, máquinas de UTI, entre outras coisas. É urgente, e nem isso este governo genocida consegue fazer. Prefere arrumar intrigas com a China, de onde estas importações deveriam vir. A garantia do direito social à saúde, hoje um consenso que engloba a esquerda e os novos convertidos ao redistributivismo, não se faz sem o desenvolvimento das forças produtivas. No entanto, a urgência das importações deixa ainda mais clara nossa dependência tecnológica em um setor tão crucial.
É preciso cuidar do urgente, mas não esquecer do importante. E o importante é o desenvolvimento de um complexo industrial da saúde, como propôs Ciro Gomes nas eleições de 2018. Importar é agenda urgente de curto prazo. Substituir importações é agenda importante de médio e longo prazo. Se tivéssemos cuidado da agenda importante não estaríamos de mãos atadas na agenda urgente, e ainda teríamos uma chance de acumular montanhas de dólares com a exportação de produtos e serviços de alto valor agregado.
O que fica claro no exemplo da saúde é que a industrialização, a complexificação da economia e o desenvolvimento das forças produtivas, mesmo não sendo suficientes, são condições necessárias para superar o subdesenvolvimento e a subcidadania. Não há cidadania social sem isso. Não se trata de crescer o bolo para depois redistribuí-lo. É preciso reinventar a receita do bolo, de modo que a produção e a distribuição equitativa da riqueza não sejam dois momentos distintos e difíceis de conciliar, mas sim processos interligados.
 
 
 
 
 
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A política, os medíocres e o pobre povo de Cambuci
29/03/2020 | 13h02
 
Bruna Tavares da Costa
Em tempos de pandemia, num território dominado pelo medo da doença que pouco conhecemos e por um governo que mais confunde e atrapalha , cabe aos governadores e prefeitos de estados e municípios a liderança desta triste travessia. Politicamente nós, que até então estávamos acostumados a nos dividir em dois lados, hoje nos encontramos perdidos no meio do caminho. Não há como não elogiar a conduta de governadores como Wilson Witzel ou João Dória diante da pandemia. Não há como não se impressionar com liberais perdidos, defendendo a atuação rápida do Estado, eles que até então só falavam em Estado mínimo. Como não se estarrecer diante de vizinhos e familiares que insistem em negar o óbvio e se expõe ao perigo de uma contaminação defendendo o indefensável?
Nestes tempos podemos diferenciar aqueles que nos orgulham dos outros tantos que ainda não perceberam que vivemos tempos sombrios, tempos de guerra e que só a união, conscientização e disposição de cada um de nós pode salvar a todos. Exemplos vem de todos os lugares, sejam das janelas que cantam para vizinhos ou aplaudem os profissionais da saúde, sejam de ações individuais que buscam oferecer comida e conforto aos hoje desamparados, momento em que o cidadão substitui a necessária ação do Estado.
O filósofo Alan Deneault, em seu último livro, apresenta o conceito de "mediocracia", que explica bem o momento político em que vivemos: o instante em que os medíocres tomam o poder. Coloco aqui uma explicação do autor sobre como o medíocre atua quando chega ao poder :
"Caberia pensar que uma característica comum entre aqueles que compartilham esse poder seria a de um sorriso cúmplice. Acreditando serem mais espertos do que todos os outros, ficam satisfeitos com frases carregadas de sabedoria, como:"É preciso entrar no jogo". O jogo —uma expressão cuja absoluta imprecisão se encaixa perfeitamente no pensamento medíocre— exige que, de acordo com o momento, a pessoa acate servilmente as regras estabelecidas com o único propósito de ocupar uma posição relevante no quadro social, ou que contorne com ufanismo tais regras —sem nunca deixar de manter as aparências—, graças a vários atos de conluio que pervertem a integridade do processo."
Ao fim, senhoras e senhores, para os medíocres, é o jogo, apenas o jogo, que importa. Os medíocres não entendem a diferença entre a prática da política eleitoreira e o exercício da política estadista, do governante que pensa a cidade, o povo e seu destino, incluindo aí sua vida ou morte- indo além das eleições. Não conseguem distinguir o momento em que o ser político, o deputado, o prefeito, o vereador ou o presidente, precisam atuar de acordo com o cargo que ocupam e a função que esse cargo exerce dentro da nossa democracia: representar o povo, seus interesses e atuar de acordo com as suas necessidades . É o momento crucial de um político: quando a história exige de um representante a liderança- e muitos escolhem o caminho da falsa profecia. Num momento como o que vivemos hoje são os medíocres os mais expostos, os mais visíveis , uma vez que não conseguem deixar de jogar o jogo. Não importa que o adversário esteja atuando em outras frentes, que a torcida não tenha comparecido ao estádio, que a partida nem possa começar. O medíocre só enxerga o jogo, mesmo em tempos de pandemia.
Ocupando as Câmaras e Prefeituras de diversos municípios, os medíocres, neste momento, estão , de olhos em eleições que podem nem chegar, impedindo que prefeitos possam atuar com mais eficácia e que municípios tenham maiores e melhores oportunidades de cuidar de sua população num momento em que um vírus mortal se alastra. Ou acatando desejos e ordem de comerciantes que preferem ver suas lojas abertas aos seus clientes vivos. Como exemplo, e na tentativa de chamar atenção de leitores , mídia e todo e qualquer veículo de comunicação que possa dar visibilidade ao caso, informo que vereadores da pequena cidade de Cambuci estão atuando em conluio, para impedir que verbas destinadas ao município cheguem a cidade, se recusando a incluir os valores no orçamento municipal. Verbas estas que serviriam , entre outras coisas, para a construção de um centro de hemodiálise , aquisição de material e maquinário para o hospital da cidade e ampliação do centro cirúrgico, entre outros. Desde 07/02 está "sob análise" dos "nobres" vereadores o projeto de custeio de toda a área de saúde do município, o que torna possível que o atendimento a população no hospital e nas unidades de saúde sejam suspensos por falta de verba.
Em plena pandemia de coronavírus.
Repito: em plena pandemia de coronavírus.
Políticos medíocres não sabem diferenciar os tempos de guerra dos tempos de paz. Não sabem que a política exige não só saber ganhar e perder mas, principalmente, saber a hora de baixar a guarda – que, neste caso, é atuar junto com o executivo, pq há limites. E o limite, como vemos agora, é simples: o limite é a vida.
Não se faz política ao custo da saúde do seu povo, caros vereadores. No campo da política, acreditem, vocês estão fazendo gol contra.
Lembrem-se: para serem reeleitos voces precisam, antes de qualquer outra coisa, que seus eleitores estejam vivos.
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O coronavirus como oportunidade de enfrentamento do moralismo religioso
20/03/2020 | 14h05
Moralização religiosa da política
A relação entre religião e política não é linear. É complexa e indeterminada. Tudo depende de como se constroem politicamente as noções de coletividade e bem comum que políticos e partidos pretendem representar com seu perfil religioso. Políticos religiosos podem adotar linha de defesa da política social e deixar o moralismo de costumes em segundo plano ou apostar tudo no moralismo. Quem decide é a política.
A complexidade e indeterminação do sentido político da religião resultam do fato de que a construção de coletividades politicamente relevantes com base na religião, ou seja, da representação política de uma vontade coletiva associada ao pertencimento religioso, não está dada pelo vínculo religioso do candidato ou do partido. Os estudos sobre a mobilização política de religiões pentecostais em períodos eleitorais também evidenciam enorme variedade de intensidade, forma e estilo no uso de elementos religiosos para a construção da identidade política e das coletividades que os candidatos pretendem representar.
Atualmente, o perfil predominante de engajamento religioso com a política é caracterizado pelo moralismo sectário. Há um protagonismo de atores e organizações religiosas na esfera política que aproveitam oportunidade de moralização da política criadas pela crise do Estado de bem-estar social em reestruturar e reorganizar subsistemas sociais decisivos para realizar expectativas políticas de acesso a direitos e inclusão social. O Estado de bem-estar social vive há tempos uma crise programática que resulta da falta de alternativas para a condução da política econômica e das políticas de inclusão social como um todo. Os partidos deixam de oferecer programas efetivamente distintos em termos de organização e estruturação da economia a partir de decisões políticas, buscando em outras dimensões da vida social temas sobre os quais possam desenvolver controvérsias e linhas de ação capazes de demarcar diferenças políticas e conquistar apoio social e legitimidade. Para Luhmann, como podemos ver na citação abaixo, esta crise programática é uma ameaça ao próprio futuro da democracia:
“A democracia é normalmente entendida como significando que a escolha de um determinado partido político ou coligação envolve a decisão por um programa político que difere do programa de outros partidos. Isso pressupõe uma correspondente programação partidária de oposição binária – por exemplo, conservador/progressiva ou, uma vez que isso não mais funcione, políticas restritivas/expansivas de Estado de bem-estar social ou, se a economia não permitir isso, recorre-se à dicotomia entre preferências ecológicas e econômicas. Só assim é que se pode escolher possíveis direções de rumo político. Os partidos, no entanto, parecem ter medo dos riscos envolvidos.”(Luhmann, The Future of Democracy,1990, p. 51).
Este diagnóstico da crise programática do Estado de bem-estar social toma os casos dos países europeus como sua referência empírica implícita. Porém, ele pode ser aplicado a outras regiões e países, como a América Latina e o Brasil. É esta “ditadura da falta de alternativas”, para a usar a expressão provocativa de Mangabeira Unger, que a política busca de certo modo compensar com a crescente moralização da opinião pública e da disputa pelo poder. O predomínio de julgamentos morais sobre a pessoa global dos candidatos, a concentração em torno de pautas comportamentais e identitárias de direita e de esquerda e a demonização de partidos e elites políticas são tentativas inviáveis de compensar a ditadura da falta de alternativas:
“A controvérsia moral é colocada no lugar da controvérsia política. Parece haver uma lei política aqui: quando o dinheiro como meio de política escasseia, a moralidade como substituto aumenta. Em geral, os políticos aceitam o jogo de que se trata de ensinar ao povo quem deve e quem não deve ser respeitado – respeito ou desrespeito como sanção moral aplicada à pessoa ou ao partido como um todo” (Niklas Luhmann, The Future of Democracy, p 1990, p. 51).
Oportunidade de enfrentamento
No entanto, para Luhmann, o moralismo não é apenas incapaz de compensar efetivamente a falta de alternativas programáticas, como também representa uma ameaça adicional à democracia: como uma de suas condições informais, a democracia exige a renúncia em moralizar o oponente político, em não colocar em questão a legitimidade da oposição e da alternância de poder.
A crise do coronavirus parece ser uma oportunidade para limitar o crescimento da moralização da política, inclusive porque permite críticas ao moralismo religioso e não religioso (como o moralismo da política identitária) a partir de perspectivas morais não religiosas, como a defesa da saúde enquanto bem comum que deve subordinar a própria liberdade religiosa. A experiência de risco compartilhado e coletivo ocasionada pela disseminação do coronavirus é uma chance para a defesa não só da saúde pública, como do Estado de bem-estar social como um todo, enfraquecendo o poder político das “bolhas morais fundamentalistas”, como já podemos ver no abandono de parte da classe média ao governo Bolsonaro em meio à crise e no enfrentamento da irresponsabilidade de líderes religiosos em promover aglomerações religiosas no momento em que o distanciamento físico tornou-se a mais importante obrigação cidadã. Ao desafiar e boicotar decisões políticas para a proteção da saúde coletiva, estes líderes ignoram a complexidade da política e de sua relação com a religião, alimentado uma oportunidade para redefinir a relação entre religião, política e sociedade, a partir da própria política.
A opinião pública e os atores políticos, inclusive de orientação religiosa, são capazes de enfrentar o moralismo fundamentalista de líderes como Silas Malafaia, pois contam com a chance de construir e mobilizar uma noção de bem comum abrangente contra ele e todo tipo de moralismo inconsequente e infame aos olhos da opinião pública. Luhmann diz que os partidos temem os riscos da formulação programática, e a capitulação diante do moralismo religioso confirma isso. Mas o coronavirus embaralha a distribuição dos riscos e aumenta as chances de sucesso na luta contra este problema.
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A crise do coronavirus e a consciência da finitude da vida social
16/03/2020 | 18h57
Qual a centralidade do sistêmica econômico em nossa vida social? Por maior que seja, ela parece não aplacar a ameaça da crise biológica em nosso cotidiano. 
Desde seu surgimento, a sociologia se ocupa com o problema da centralidade da economia. Em sociedades feudais, a religião era o sistema central da sociedade, pois construía uma interpretação de mundo que se impunha como válida para todos os âmbitos da vida social. Inclusive em momentos de grave crise, como no período da peste negra, a religião aparentemente aumentava este poder de definir o ambiente para a vida social como um todo.
Para muitos autores, como Marx e Weber, no mundo moderno é o sistema econômico que possui esta centralidade. Luhmann discorda em muitos aspectos desta centralidade, defendendo uma concepção de sociedade baseada em muitos centros, como economia, política, direito, comunicação de massas, ciência, esportes, religião e família. No entanto, ele não deixa de constatar e admitir que o sistema econômico pode ter mais centralidade que os outros subsistemas, propondo uma diferença em relação à centralidade ocupada pela religião em algumas sociedades pré-modernas: enquanto a centralidade da religião estava baseada em sua capacidade de instituir uma visão de mundo válida para todos os âmbitos da sociedade, a centralidade da economia está baseada em sua capacidade de criar instabilidades e ameaçar os outros subsistemas. A pressão econômica pode direcionar a evolução da política, do direito, da educação, da ciência, da família etc. Quando mais estes subsistemas entram em crise em função de sua (in) capacidade de pagamento, mais eles se tornam condicionados pelos imperativos econômicos. Isso aproxima Luhmann de Marx e Weber. E até de Bourdieu. 
No entanto, para o sociólogo alemão, a centralidade econômica poderia ser deslocada por crises ambientais. A religião, no passado, conseguia fazer com que fé ou falta de fé dessem orientação transcendente às crises “deste mundo”, mas a falta de capacidade de pagamento pode ser mais facilmente deslocada que a visão de mundo religiosa do passado. A crise do coronavirus mostra que as condições ecológicas da vida humana podem se tornar mais urgentes, para muitos, do que as dívidas e perspectivas econômicas em geral. A religião conseguia lidar com o mergulho no desconhecido de modo muito mais efetivo que a economia moderna globalizada.
Em seu livro sobre a crise ambiental, Luhmann defendia que a comunicação sobre a finitude das bases ecológicas da vida humana poderia criar uma consciência sobre a própria finitude da sociedade e de seus subsistemas. Na concorrência pela capacidade de ameaça, a economia parece poder ser ultrapassada pelas crises biológicas que ameaçam a vida humana e a sociedade como um todo.
Esta consciência sobre a possibilidade do colapso das condições do ambiente ecológico (natureza) para a reprodução da sociedade seria agravada, ainda, pela percepção de que a sociedade não dispõe de um centro capaz de coordenar a reação necessária à crise. Como não dispõe deste centro, e na proporção em que se agrava a percepção de que decisões centralizadas não dão conta do problema, apela-se, crescentemente, para o cógido da moral e para a consciência moral dos indivíduos, com decepções bem previsíveis.
Sempre achei esta tese demasiado eurocêntrica e descolada da realidade, pois nunca compartilhei da percepção de que a crise ambiental pudesse se tornar uma preocupação cotidiana para todos os cantos e subsistemas da sociedade. Mas aplicada ao coronavirus, esta tese de Luhmann ganha nova atualidade. Uma possibilidade na qual Luhmann não apostava é que a crise ambiental fosse uma oportunidade para retomada de terreno do sistema político e do estado. Mas, de saída, parece estar claro que esta possibilidade precisa ser considerada na crise atual.
Referências: 
Luhmann, N. (1986). Ökologische Kommunikation. Kann die moderne Gesellschaft sich auf ökologische Gefährdungen einstellen. Opladen (Westdt. Verlag)
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Observações contraintuitivas: a arte do segundo olhar
13/03/2020 | 20h01
Inicio no blog uma sequência de textos sobre como a sociologia pode fazer observações sobre a vida cotidiana que vão contra intuições difundidas no senso comum. 
Nesta sequência, reproduzo textos que o professor André Kieserling, da Universidade de Bielefeld na Alemanha, publica em sua coluna mensal no Frankfurter Allgemeine Zeitung. Nestes textos,  Kieserling comenta achados empíricos das mais variadas pesquisas sociais sobre os mais distintos temas, usando um olhar sociológico para comunicar, de modo resumido e acessível, um conhecimento científico que refuta a pretensão de generalidade de intuições do senso comum. Não se trata de negar totalmente a validade destas intituições, mas sim de relativizar esta validade. A sociologia é arte do "segundo olhar", dizia Luhmann, o grande mestre de Kieserling e fundador da Escola Sociológica de Bielefeld. 
A sequência, porém, vai um pouco além da tradução e reprodução desses textos. Será acompanhada de comentários sobre o significado dos principais achados para debates sobre a política e a sociedade no Brasil. 
No primeiro texto, Kieserling faz uma reflexão que questiona a validade da crença de que punir e premiar de modo rigoroso o desempenho das pessoas, sobretudo vinculando milimetricamente despempenho e remuneração, é sempre o caminho indicado para efetivamente melhor este desempenho. 
A crença questionada por este achado é precisamente a base do pensamento neoliberal de Paulo Guedes: punir os pobres, especialmente sua suposta incapacidade de desempenho em poupar, seria o melhor caminho para fazê-los poupar. Esta suposição ideológica também está na base das políticas públicas neoliberais em outras áreas. Seu caráter puramente ideológico é atestado pelos achados que refutam existir uma relação rigorosa entre punição/premiação e desempenho. 
Não se trata se defender o fim das punições e premiações sociais. Longe disso. Se trata de levar em conta a complexidade do mundo social e do comportamento das pessoas. 
A sociedade está sofrendo de vício em comparações
Por André Kieserling
Medir alto desempenho pelo seu sucesso não é, surpreendentemente, em muitos casos, uma boa ideia. Que advogado ainda estaria disponível para representar o litigante com as piores chances de vitória?
Há décadas, uma grande variedade de organizações vem experimentando formas de benchmarking (comparação avaliativa) quantificado. As universidades comparam seus pesquisadores de acordo com o número de suas publicações e a quantidade de fundos arrecadados com agências de financiamento - e os políticos também comparam as universidades de acordo com estes e outros critérios. As escolas também quantificam anualmente a proporção de seus graduados de nível A, que naturalmente deveria ter aumentado nesse meio tempo, mesmo que isso não possa ser alcançado a longo prazo sem baixar os padrões. E espera-se que os relatórios anuais das grandes empresas comerciais publiquem os números-chave dos seus sucessos e fracassos em intervalos cada vez mais curtos. Os críticos desta tendência já estão recorrendo à terminologia médica e percebem a sociedade moderna sofrendo de “comparatite”, ou seja, de vício em comparações.
Os indicadores não estão sendo coletados para se ter uma melhor visão geral. Ao contrário, estão tipicamente ligados a perspectivas de sanções positivas ou negativas. Esta é uma das ideias mais populares sobre motivação no trabalho. Segundo esta idéia, as pessoas deveriam sentir no bolso os sucessos e os fracassos do seu trabalho, pois de outra forma não fariam qualquer esforço real por melhores desempenhos, se tornando vítimas da sua inércia natural. Ao pagar bônus de sucesso, o indivíduo poderia ser acionado em seus interesses tangíveis e encorajado a fazer mais esforços e, em caso de fracasso, teria que enfrentar cortes no salário e, em casos de culpa coletiva comprovada, no orçamento da sua organização.
Tudo isto soa muito mais plausível do que é. As sanções, por exemplo, pressupõem que as diferenças de desempenho sejam atribuíveis à falta de esforço. Mas que tipo de esforço deveria ser feito para ajudar uma escola problemática a alcançar as taxas de sucesso de uma escola de classe média? E que contribuição positiva poderiam dar os cortes orçamentários neste contexto? Além disso, ser afetado por interesses pessoais também pode distorcer a decisão apropriada. Essa, de qualquer forma, é a tese de um livro inteligente e acessível sobre os vários danos causados pela atual ligação comum das comparações de desempenho com as intenções sancionadoras. Foi escrito pelo historiador americano Jerry Z. Muller, mas alguns dos seus argumentos também são familiares aos sociólogos.
Os professores nunca conseguem direcionar o aprendizado de todos os alunos
Em muitas profissões, não se deve ser desencorajado por possíveis falhas. Todos os advogados perdem, estatisticamente falando, a cada segundo julgamento, todos os médicos perdem ocasionalmente um dos seus pacientes. Os professores não conseguem melhorar o desempenho de todos os alunos, os policiais não resolvem todos os casos e os cientistas não conseguem encontrar todas as provas e evidências buscadas em seus projetos de grande magnitude. Tais profissionais precisam não só de coragem, mas também de equanimidade no fracasso duradouro. Muller conclui daí que a situação financeira não deve depender demasiado especificamente da quantidade de seus fracassos e sucessos, pois, caso contrário, os casos incertos não receberiam atenção. Um dos custos de uma pressão forçada ao sucesso é uma orientação conservadora para o que é seguro e comprovado, enquanto que nas falhas temidas encontram-se oportunidades de aprendizagem inerentes.
É fácil dizer que os advogados devem ser pagos estritamente de acordo com os seus sucessos. Mas suponhamos que sim: quem ainda estaria disposto a representar o litigante com as piores chances? Um cientista que é pago de acordo com o sucesso seria bem-aconselhado a não arriscar nada em seus projetos de pesquisa, mas apenas a recalcular o que já é conhecido pela comunidade de profissionais. E até mesmo o melhor médico, por melhor que fosse, sob pressão para ter sucesso, só usaria sua arte de curar em operações de rotina e empurraria tudo que poderia dar errado por baixo dos tapetes ou para o mundo exterior.
Aversão ao risco e editais
Muller mostra em estudos sobre hospitais americanos que a falta de compreensão pela inevitabilidade de alguns fracassos já está começando a ter um efeito exatamente nesse sentido. Na Alemanha, por outro lado, existem editais específicos para pesquisas cujo sucesso não é conhecido antecipadamente - uma circunstância que revela algo sobre a aversão ao risco embutida nos outros editais.
O nivelamento dos padrões, a superestimação do fator esforço e a fuga para o que é seguro e comprovado - todas estas desvantagens não fazem de Muller um oponente fundamental do benchmarking (comparação avaliativa). Usado corretamente, ele poderia ajudar grandes organizações a identificar pontos fracos e níveis de desempenho que poderiam ser melhorados. No entanto, as medidas de desempenho necessárias para este fim pressupõem que valores insatisfatórios também possam ser comunicados sem ter que temer sanções. Quando este não é o caso, é de se esperar que haja a distorção nas informações e relatórios sobre os desempenhos.
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Jorge Jesus e Max Weber: os prazeres, as paixões e o conflito entre os valores sociais
11/03/2020 | 20h59
Jorge Jesus
Max Weber
Em suas entrevistas, quando é instado a falar sobre sua interferência na vida pessoal nos jogadores, o técnico do Flamengo Jorge Jesus não hesita em repetir que o ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões é um critério crucial em suas avaliações e decisões. Na longa entrevista concebida ao canal Fox Sports, o técnico português, ao ser perguntado sobre Neymar, fez comparações claras com Cristiano Ronaldo e Messi, baseadas no ascetismo dos prazeres e na hierarquia de paixões: “Neymar não é do mesmo nível porque a paixão pelo futebol não ocupa o lugar em sua vida que ocupa na vida destes outros dois e de outros. Se você quer ser o melhor do mundo, do melhor nível, deve renunciar aos muitos outros prazeres em nome do prazer no futebol. O futebol tem que ser a maior de todas as paixões”. Para ele, a equipe do flamengo é exemplar também neste critério, que reputa como fundamental para o sucesso da equipe. A “cultura organizacional” de seu Flamengo seria marcada exatamente pela adesão ao ascetismo dos prazeres (que óbvio, não precisa ser renúncia total) e à hierarquia das paixões.
O sociólogo alemão Max Weber elaborou uma das mais interessantes teorias da sociedade moderna, cuja base é a diferenciação e o conflito entre as esferas e os valores sociais. Para Weber, no mundo moderno, cada esfera social (economia, política, artes, esfera erótica, ciência, religião) exige, para toda pessoa que deseja buscar, com chances de êxito, a consagração em qualquer delas, dedicação e vocação equivalentes às que as religiões costumavam exigir de seus ascetas. Este vínculo entre êxito e engajamento pessoal tende a ser um privilégio das camadas mais privilegiadas de cada esfera da sociedade, mas é neste vínculo que reside a relação mais direta possível entre as pessoas e os valores que conferem sentido forte, duradouro e realizador na vida. A escolha conflituosa entre valores é uma condição obrigatória para os modernos, na visão de Weber. Escamotear a necessidade desta escolha é escolher uma vida de pequenos prazeres e abrir mão de qualquer realização que possa dar orientação e sentido forte à personalidade. Pais que se dedicam com vocação e prazer ao cuidado de seus filhos, renunciando a quase tudo, fazem esta escolha tanto quanto os jogadores preferidos por Jorge Jesus. Na verdade, no caso das mães, que cuidam sozinhas na maioria das vezes, não é uma escolha.
O que se dedica em primeiro lugar? O tempo, claro, aquele recurso que, segundo Pierre Bourdieu (um weberiano francês de certo modo), é o atributo pessoal de maior valor. Não há nada mais valoroso, do ponto de vista pessoal, que se possa dedicar à paixão pelos filhos, pelo futebol, pela ciência ou pela fé que o próprio tempo de vida. A estruturação do tempo exprime, melhor do que tudo, o ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões e dos valores.
O ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões e dos valores não precisa fazer de ninguém um monge. Pode combinar o acesso aos prazeres dentro de limites invioláveis, como ficou claro na renúncia dos jogadores do Flamengo ao carnaval deste ano, precedido e sucedido por decisões de títulos. Não se pode deixar de falar que o controle do próprio tempo é um privilégio que depende de condições materiais e culturais que não estão acessíveis à grande maioria das pessoas, seja no futebol, seja nas outras esferas da sociedade. Desigualdades de classe e de gênero têm no acesso ao tempo sob controle pessoal uma de suas estruturas mais decisivas. Nem o burguês Weber deixou de ter sensibilidade para isso, pois em sua sociologia da religião ele demonstra claramente como o controle da vida e do tempo é uma condição para qualquer tipo de dedicação ascética à religião. A necessidade de negligenciar muitas esferas da vida (falta de tempo de ir à igreja, ao teatro, ao estádio etc.) está evidentemente envolvida nisso. Não é possível ter êxito em muitas esferas ao mesmo tempo (por isso pessoas que conseguem como Darcy Ribeiro e FHC são admiradas por isso).
Na visão de mundo de Jorge Jesus, de orientação pequeno-burguesa, a esfera social que mais combina com a dedicação prioritária ao futebol é a família. Relata-se que ele é bem mais maleável quando jogadores precisam ou querem ficar com seus familiares. Tem razão sociológica nisso. A família se combina melhor com as outras esferas, pois nela se pode manter o sentido forte da personalidade ou contando com a compreensão dos familiares pela falta de tempo ou ainda delegando o tempo de cuidado para as mães e as irmãs, como na cultura sexista tão difícil de mudar. Ao falar do que pode dificultar a renovação com o Flamengo Jorge Jesus é claro ao dizer que a saudade da família é o único fator que pode influenciar em uma improvável saída. Meus alunos de sociologia que me perdoem, mas terei muitos motivos para falar de Jorge Jesus em 2020. E não só nas aulas do Weber.  
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Sobre o autor

Roberto Dutra

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