O coronavirus como oportunidade de enfrentamento do moralismo religioso
20/03/2020 14:05 - Atualizado em 20/03/2020 14:47
Moralização religiosa da política
A relação entre religião e política não é linear. É complexa e indeterminada. Tudo depende de como se constroem politicamente as noções de coletividade e bem comum que políticos e partidos pretendem representar com seu perfil religioso. Políticos religiosos podem adotar linha de defesa da política social e deixar o moralismo de costumes em segundo plano ou apostar tudo no moralismo. Quem decide é a política.
A complexidade e indeterminação do sentido político da religião resultam do fato de que a construção de coletividades politicamente relevantes com base na religião, ou seja, da representação política de uma vontade coletiva associada ao pertencimento religioso, não está dada pelo vínculo religioso do candidato ou do partido. Os estudos sobre a mobilização política de religiões pentecostais em períodos eleitorais também evidenciam enorme variedade de intensidade, forma e estilo no uso de elementos religiosos para a construção da identidade política e das coletividades que os candidatos pretendem representar.
Atualmente, o perfil predominante de engajamento religioso com a política é caracterizado pelo moralismo sectário. Há um protagonismo de atores e organizações religiosas na esfera política que aproveitam oportunidade de moralização da política criadas pela crise do Estado de bem-estar social em reestruturar e reorganizar subsistemas sociais decisivos para realizar expectativas políticas de acesso a direitos e inclusão social. O Estado de bem-estar social vive há tempos uma crise programática que resulta da falta de alternativas para a condução da política econômica e das políticas de inclusão social como um todo. Os partidos deixam de oferecer programas efetivamente distintos em termos de organização e estruturação da economia a partir de decisões políticas, buscando em outras dimensões da vida social temas sobre os quais possam desenvolver controvérsias e linhas de ação capazes de demarcar diferenças políticas e conquistar apoio social e legitimidade. Para Luhmann, como podemos ver na citação abaixo, esta crise programática é uma ameaça ao próprio futuro da democracia:
“A democracia é normalmente entendida como significando que a escolha de um determinado partido político ou coligação envolve a decisão por um programa político que difere do programa de outros partidos. Isso pressupõe uma correspondente programação partidária de oposição binária – por exemplo, conservador/progressiva ou, uma vez que isso não mais funcione, políticas restritivas/expansivas de Estado de bem-estar social ou, se a economia não permitir isso, recorre-se à dicotomia entre preferências ecológicas e econômicas. Só assim é que se pode escolher possíveis direções de rumo político. Os partidos, no entanto, parecem ter medo dos riscos envolvidos.”(Luhmann, The Future of Democracy,1990, p. 51).
Este diagnóstico da crise programática do Estado de bem-estar social toma os casos dos países europeus como sua referência empírica implícita. Porém, ele pode ser aplicado a outras regiões e países, como a América Latina e o Brasil. É esta “ditadura da falta de alternativas”, para a usar a expressão provocativa de Mangabeira Unger, que a política busca de certo modo compensar com a crescente moralização da opinião pública e da disputa pelo poder. O predomínio de julgamentos morais sobre a pessoa global dos candidatos, a concentração em torno de pautas comportamentais e identitárias de direita e de esquerda e a demonização de partidos e elites políticas são tentativas inviáveis de compensar a ditadura da falta de alternativas:
“A controvérsia moral é colocada no lugar da controvérsia política. Parece haver uma lei política aqui: quando o dinheiro como meio de política escasseia, a moralidade como substituto aumenta. Em geral, os políticos aceitam o jogo de que se trata de ensinar ao povo quem deve e quem não deve ser respeitado – respeito ou desrespeito como sanção moral aplicada à pessoa ou ao partido como um todo” (Niklas Luhmann, The Future of Democracy, p 1990, p. 51).
Oportunidade de enfrentamento
No entanto, para Luhmann, o moralismo não é apenas incapaz de compensar efetivamente a falta de alternativas programáticas, como também representa uma ameaça adicional à democracia: como uma de suas condições informais, a democracia exige a renúncia em moralizar o oponente político, em não colocar em questão a legitimidade da oposição e da alternância de poder.
A crise do coronavirus parece ser uma oportunidade para limitar o crescimento da moralização da política, inclusive porque permite críticas ao moralismo religioso e não religioso (como o moralismo da política identitária) a partir de perspectivas morais não religiosas, como a defesa da saúde enquanto bem comum que deve subordinar a própria liberdade religiosa. A experiência de risco compartilhado e coletivo ocasionada pela disseminação do coronavirus é uma chance para a defesa não só da saúde pública, como do Estado de bem-estar social como um todo, enfraquecendo o poder político das “bolhas morais fundamentalistas”, como já podemos ver no abandono de parte da classe média ao governo Bolsonaro em meio à crise e no enfrentamento da irresponsabilidade de líderes religiosos em promover aglomerações religiosas no momento em que o distanciamento físico tornou-se a mais importante obrigação cidadã. Ao desafiar e boicotar decisões políticas para a proteção da saúde coletiva, estes líderes ignoram a complexidade da política e de sua relação com a religião, alimentado uma oportunidade para redefinir a relação entre religião, política e sociedade, a partir da própria política.
A opinião pública e os atores políticos, inclusive de orientação religiosa, são capazes de enfrentar o moralismo fundamentalista de líderes como Silas Malafaia, pois contam com a chance de construir e mobilizar uma noção de bem comum abrangente contra ele e todo tipo de moralismo inconsequente e infame aos olhos da opinião pública. Luhmann diz que os partidos temem os riscos da formulação programática, e a capitulação diante do moralismo religioso confirma isso. Mas o coronavirus embaralha a distribuição dos riscos e aumenta as chances de sucesso na luta contra este problema.

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    Roberto Dutra

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