Observações contraintuitivas: a arte do segundo olhar
13/03/2020 20:01 - Atualizado em 13/03/2020 21:44
Inicio no blog uma sequência de textos sobre como a sociologia pode fazer observações sobre a vida cotidiana que vão contra intuições difundidas no senso comum. 
Nesta sequência, reproduzo textos que o professor André Kieserling, da Universidade de Bielefeld na Alemanha, publica em sua coluna mensal no Frankfurter Allgemeine Zeitung. Nestes textos,  Kieserling comenta achados empíricos das mais variadas pesquisas sociais sobre os mais distintos temas, usando um olhar sociológico para comunicar, de modo resumido e acessível, um conhecimento científico que refuta a pretensão de generalidade de intuições do senso comum. Não se trata de negar totalmente a validade destas intituições, mas sim de relativizar esta validade. A sociologia é arte do "segundo olhar", dizia Luhmann, o grande mestre de Kieserling e fundador da Escola Sociológica de Bielefeld. 
A sequência, porém, vai um pouco além da tradução e reprodução desses textos. Será acompanhada de comentários sobre o significado dos principais achados para debates sobre a política e a sociedade no Brasil. 
No primeiro texto, Kieserling faz uma reflexão que questiona a validade da crença de que punir e premiar de modo rigoroso o desempenho das pessoas, sobretudo vinculando milimetricamente despempenho e remuneração, é sempre o caminho indicado para efetivamente melhor este desempenho. 
A crença questionada por este achado é precisamente a base do pensamento neoliberal de Paulo Guedes: punir os pobres, especialmente sua suposta incapacidade de desempenho em poupar, seria o melhor caminho para fazê-los poupar. Esta suposição ideológica também está na base das políticas públicas neoliberais em outras áreas. Seu caráter puramente ideológico é atestado pelos achados que refutam existir uma relação rigorosa entre punição/premiação e desempenho. 
Não se trata se defender o fim das punições e premiações sociais. Longe disso. Se trata de levar em conta a complexidade do mundo social e do comportamento das pessoas. 
A sociedade está sofrendo de vício em comparações
Por André Kieserling
Medir alto desempenho pelo seu sucesso não é, surpreendentemente, em muitos casos, uma boa ideia. Que advogado ainda estaria disponível para representar o litigante com as piores chances de vitória?
Há décadas, uma grande variedade de organizações vem experimentando formas de benchmarking (comparação avaliativa) quantificado. As universidades comparam seus pesquisadores de acordo com o número de suas publicações e a quantidade de fundos arrecadados com agências de financiamento - e os políticos também comparam as universidades de acordo com estes e outros critérios. As escolas também quantificam anualmente a proporção de seus graduados de nível A, que naturalmente deveria ter aumentado nesse meio tempo, mesmo que isso não possa ser alcançado a longo prazo sem baixar os padrões. E espera-se que os relatórios anuais das grandes empresas comerciais publiquem os números-chave dos seus sucessos e fracassos em intervalos cada vez mais curtos. Os críticos desta tendência já estão recorrendo à terminologia médica e percebem a sociedade moderna sofrendo de “comparatite”, ou seja, de vício em comparações.
Os indicadores não estão sendo coletados para se ter uma melhor visão geral. Ao contrário, estão tipicamente ligados a perspectivas de sanções positivas ou negativas. Esta é uma das ideias mais populares sobre motivação no trabalho. Segundo esta idéia, as pessoas deveriam sentir no bolso os sucessos e os fracassos do seu trabalho, pois de outra forma não fariam qualquer esforço real por melhores desempenhos, se tornando vítimas da sua inércia natural. Ao pagar bônus de sucesso, o indivíduo poderia ser acionado em seus interesses tangíveis e encorajado a fazer mais esforços e, em caso de fracasso, teria que enfrentar cortes no salário e, em casos de culpa coletiva comprovada, no orçamento da sua organização.
Tudo isto soa muito mais plausível do que é. As sanções, por exemplo, pressupõem que as diferenças de desempenho sejam atribuíveis à falta de esforço. Mas que tipo de esforço deveria ser feito para ajudar uma escola problemática a alcançar as taxas de sucesso de uma escola de classe média? E que contribuição positiva poderiam dar os cortes orçamentários neste contexto? Além disso, ser afetado por interesses pessoais também pode distorcer a decisão apropriada. Essa, de qualquer forma, é a tese de um livro inteligente e acessível sobre os vários danos causados pela atual ligação comum das comparações de desempenho com as intenções sancionadoras. Foi escrito pelo historiador americano Jerry Z. Muller, mas alguns dos seus argumentos também são familiares aos sociólogos.
Os professores nunca conseguem direcionar o aprendizado de todos os alunos
Em muitas profissões, não se deve ser desencorajado por possíveis falhas. Todos os advogados perdem, estatisticamente falando, a cada segundo julgamento, todos os médicos perdem ocasionalmente um dos seus pacientes. Os professores não conseguem melhorar o desempenho de todos os alunos, os policiais não resolvem todos os casos e os cientistas não conseguem encontrar todas as provas e evidências buscadas em seus projetos de grande magnitude. Tais profissionais precisam não só de coragem, mas também de equanimidade no fracasso duradouro. Muller conclui daí que a situação financeira não deve depender demasiado especificamente da quantidade de seus fracassos e sucessos, pois, caso contrário, os casos incertos não receberiam atenção. Um dos custos de uma pressão forçada ao sucesso é uma orientação conservadora para o que é seguro e comprovado, enquanto que nas falhas temidas encontram-se oportunidades de aprendizagem inerentes.
É fácil dizer que os advogados devem ser pagos estritamente de acordo com os seus sucessos. Mas suponhamos que sim: quem ainda estaria disposto a representar o litigante com as piores chances? Um cientista que é pago de acordo com o sucesso seria bem-aconselhado a não arriscar nada em seus projetos de pesquisa, mas apenas a recalcular o que já é conhecido pela comunidade de profissionais. E até mesmo o melhor médico, por melhor que fosse, sob pressão para ter sucesso, só usaria sua arte de curar em operações de rotina e empurraria tudo que poderia dar errado por baixo dos tapetes ou para o mundo exterior.
Aversão ao risco e editais
Muller mostra em estudos sobre hospitais americanos que a falta de compreensão pela inevitabilidade de alguns fracassos já está começando a ter um efeito exatamente nesse sentido. Na Alemanha, por outro lado, existem editais específicos para pesquisas cujo sucesso não é conhecido antecipadamente - uma circunstância que revela algo sobre a aversão ao risco embutida nos outros editais.
O nivelamento dos padrões, a superestimação do fator esforço e a fuga para o que é seguro e comprovado - todas estas desvantagens não fazem de Muller um oponente fundamental do benchmarking (comparação avaliativa). Usado corretamente, ele poderia ajudar grandes organizações a identificar pontos fracos e níveis de desempenho que poderiam ser melhorados. No entanto, as medidas de desempenho necessárias para este fim pressupõem que valores insatisfatórios também possam ser comunicados sem ter que temer sanções. Quando este não é o caso, é de se esperar que haja a distorção nas informações e relatórios sobre os desempenhos.

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    Sobre o autor

    Roberto Dutra

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