Jorge Jesus e Max Weber: os prazeres, as paixões e o conflito entre os valores sociais
11/03/2020 20:59 - Atualizado em 12/03/2020 17:26
Jorge Jesus
Max Weber
Em suas entrevistas, quando é instado a falar sobre sua interferência na vida pessoal nos jogadores, o técnico do Flamengo Jorge Jesus não hesita em repetir que o ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões é um critério crucial em suas avaliações e decisões. Na longa entrevista concebida ao canal Fox Sports, o técnico português, ao ser perguntado sobre Neymar, fez comparações claras com Cristiano Ronaldo e Messi, baseadas no ascetismo dos prazeres e na hierarquia de paixões: “Neymar não é do mesmo nível porque a paixão pelo futebol não ocupa o lugar em sua vida que ocupa na vida destes outros dois e de outros. Se você quer ser o melhor do mundo, do melhor nível, deve renunciar aos muitos outros prazeres em nome do prazer no futebol. O futebol tem que ser a maior de todas as paixões”. Para ele, a equipe do flamengo é exemplar também neste critério, que reputa como fundamental para o sucesso da equipe. A “cultura organizacional” de seu Flamengo seria marcada exatamente pela adesão ao ascetismo dos prazeres (que óbvio, não precisa ser renúncia total) e à hierarquia das paixões.
O sociólogo alemão Max Weber elaborou uma das mais interessantes teorias da sociedade moderna, cuja base é a diferenciação e o conflito entre as esferas e os valores sociais. Para Weber, no mundo moderno, cada esfera social (economia, política, artes, esfera erótica, ciência, religião) exige, para toda pessoa que deseja buscar, com chances de êxito, a consagração em qualquer delas, dedicação e vocação equivalentes às que as religiões costumavam exigir de seus ascetas. Este vínculo entre êxito e engajamento pessoal tende a ser um privilégio das camadas mais privilegiadas de cada esfera da sociedade, mas é neste vínculo que reside a relação mais direta possível entre as pessoas e os valores que conferem sentido forte, duradouro e realizador na vida. A escolha conflituosa entre valores é uma condição obrigatória para os modernos, na visão de Weber. Escamotear a necessidade desta escolha é escolher uma vida de pequenos prazeres e abrir mão de qualquer realização que possa dar orientação e sentido forte à personalidade. Pais que se dedicam com vocação e prazer ao cuidado de seus filhos, renunciando a quase tudo, fazem esta escolha tanto quanto os jogadores preferidos por Jorge Jesus. Na verdade, no caso das mães, que cuidam sozinhas na maioria das vezes, não é uma escolha.
O que se dedica em primeiro lugar? O tempo, claro, aquele recurso que, segundo Pierre Bourdieu (um weberiano francês de certo modo), é o atributo pessoal de maior valor. Não há nada mais valoroso, do ponto de vista pessoal, que se possa dedicar à paixão pelos filhos, pelo futebol, pela ciência ou pela fé que o próprio tempo de vida. A estruturação do tempo exprime, melhor do que tudo, o ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões e dos valores.
O ascetismo dos prazeres e a hierarquia das paixões e dos valores não precisa fazer de ninguém um monge. Pode combinar o acesso aos prazeres dentro de limites invioláveis, como ficou claro na renúncia dos jogadores do Flamengo ao carnaval deste ano, precedido e sucedido por decisões de títulos. Não se pode deixar de falar que o controle do próprio tempo é um privilégio que depende de condições materiais e culturais que não estão acessíveis à grande maioria das pessoas, seja no futebol, seja nas outras esferas da sociedade. Desigualdades de classe e de gênero têm no acesso ao tempo sob controle pessoal uma de suas estruturas mais decisivas. Nem o burguês Weber deixou de ter sensibilidade para isso, pois em sua sociologia da religião ele demonstra claramente como o controle da vida e do tempo é uma condição para qualquer tipo de dedicação ascética à religião. A necessidade de negligenciar muitas esferas da vida (falta de tempo de ir à igreja, ao teatro, ao estádio etc.) está evidentemente envolvida nisso. Não é possível ter êxito em muitas esferas ao mesmo tempo (por isso pessoas que conseguem como Darcy Ribeiro e FHC são admiradas por isso).
Na visão de mundo de Jorge Jesus, de orientação pequeno-burguesa, a esfera social que mais combina com a dedicação prioritária ao futebol é a família. Relata-se que ele é bem mais maleável quando jogadores precisam ou querem ficar com seus familiares. Tem razão sociológica nisso. A família se combina melhor com as outras esferas, pois nela se pode manter o sentido forte da personalidade ou contando com a compreensão dos familiares pela falta de tempo ou ainda delegando o tempo de cuidado para as mães e as irmãs, como na cultura sexista tão difícil de mudar. Ao falar do que pode dificultar a renovação com o Flamengo Jorge Jesus é claro ao dizer que a saudade da família é o único fator que pode influenciar em uma improvável saída. Meus alunos de sociologia que me perdoem, mas terei muitos motivos para falar de Jorge Jesus em 2020. E não só nas aulas do Weber.  

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    Roberto Dutra

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