A crise do coronavirus e a consciência da finitude da vida social
16/03/2020 18:57 - Atualizado em 16/03/2020 19:18
Qual a centralidade do sistêmica econômico em nossa vida social? Por maior que seja, ela parece não aplacar a ameaça da crise biológica em nosso cotidiano. 
Desde seu surgimento, a sociologia se ocupa com o problema da centralidade da economia. Em sociedades feudais, a religião era o sistema central da sociedade, pois construía uma interpretação de mundo que se impunha como válida para todos os âmbitos da vida social. Inclusive em momentos de grave crise, como no período da peste negra, a religião aparentemente aumentava este poder de definir o ambiente para a vida social como um todo.
Para muitos autores, como Marx e Weber, no mundo moderno é o sistema econômico que possui esta centralidade. Luhmann discorda em muitos aspectos desta centralidade, defendendo uma concepção de sociedade baseada em muitos centros, como economia, política, direito, comunicação de massas, ciência, esportes, religião e família. No entanto, ele não deixa de constatar e admitir que o sistema econômico pode ter mais centralidade que os outros subsistemas, propondo uma diferença em relação à centralidade ocupada pela religião em algumas sociedades pré-modernas: enquanto a centralidade da religião estava baseada em sua capacidade de instituir uma visão de mundo válida para todos os âmbitos da sociedade, a centralidade da economia está baseada em sua capacidade de criar instabilidades e ameaçar os outros subsistemas. A pressão econômica pode direcionar a evolução da política, do direito, da educação, da ciência, da família etc. Quando mais estes subsistemas entram em crise em função de sua (in) capacidade de pagamento, mais eles se tornam condicionados pelos imperativos econômicos. Isso aproxima Luhmann de Marx e Weber. E até de Bourdieu. 
No entanto, para o sociólogo alemão, a centralidade econômica poderia ser deslocada por crises ambientais. A religião, no passado, conseguia fazer com que fé ou falta de fé dessem orientação transcendente às crises “deste mundo”, mas a falta de capacidade de pagamento pode ser mais facilmente deslocada que a visão de mundo religiosa do passado. A crise do coronavirus mostra que as condições ecológicas da vida humana podem se tornar mais urgentes, para muitos, do que as dívidas e perspectivas econômicas em geral. A religião conseguia lidar com o mergulho no desconhecido de modo muito mais efetivo que a economia moderna globalizada.
Em seu livro sobre a crise ambiental, Luhmann defendia que a comunicação sobre a finitude das bases ecológicas da vida humana poderia criar uma consciência sobre a própria finitude da sociedade e de seus subsistemas. Na concorrência pela capacidade de ameaça, a economia parece poder ser ultrapassada pelas crises biológicas que ameaçam a vida humana e a sociedade como um todo.
Esta consciência sobre a possibilidade do colapso das condições do ambiente ecológico (natureza) para a reprodução da sociedade seria agravada, ainda, pela percepção de que a sociedade não dispõe de um centro capaz de coordenar a reação necessária à crise. Como não dispõe deste centro, e na proporção em que se agrava a percepção de que decisões centralizadas não dão conta do problema, apela-se, crescentemente, para o cógido da moral e para a consciência moral dos indivíduos, com decepções bem previsíveis.
Sempre achei esta tese demasiado eurocêntrica e descolada da realidade, pois nunca compartilhei da percepção de que a crise ambiental pudesse se tornar uma preocupação cotidiana para todos os cantos e subsistemas da sociedade. Mas aplicada ao coronavirus, esta tese de Luhmann ganha nova atualidade. Uma possibilidade na qual Luhmann não apostava é que a crise ambiental fosse uma oportunidade para retomada de terreno do sistema político e do estado. Mas, de saída, parece estar claro que esta possibilidade precisa ser considerada na crise atual.
Referências: 
Luhmann, N. (1986). Ökologische Kommunikation. Kann die moderne Gesellschaft sich auf ökologische Gefährdungen einstellen. Opladen (Westdt. Verlag)

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    Roberto Dutra

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