A gente faz o que precisa
21/01/2017 | 18h42
A gente faz o que precisa
Cândida Albernaz
A chuva caía há pelo menos duas horas. Conseguia ver de sua casa que o trânsito na estrada estava parado. Alguma desgraceira deve ter acontecido
Era sempre assim. Todo dia um acidente e alguns perto de onde morava.
Olhou o pacote de rosquinha em cima da pia. O dia havia sido ruim. Vendera pouco. Quando os carros ficavam mais tempo sem se mover no asfalto, sua chance de ganhar algum era maior. Pena que para isso acontecer, o pior ocorreu com alguém. A vida é assim e não adianta lamentar. Hoje são eles que morrem, amanhã pode ser ela ou o filho de fome.
Estavam só ela e a criança em casa, não tinha ninguém para ajudar. O sem-vergonha do marido, que era marido só no nome, porque não casaram de papel passado, se mandou com a caixa do supermercado. Quem criava o filho com o trabalho de faxineira e uns biscates era ela.
Hugo, que tinha o mesmo nome do pai, estava com três meses quando aconteceu. Passaram dois anos.
Olhou para a caminha onde estava enrolado no lençol, porque hoje o dia foi mais fresco. Pena de tirar ele dali com essa chuva... Mas não havia jeito. Precisava faturar um pouco mais e agora era a hora.
Se pudesse escolher, não faria isso. Ele saiu de uma gripe há duas semanas.
Observou de novo o lado de fora. Os carros continuavam parados e pelo que conhecia, demorariam a voltar a andar.
Colocou uma manta na cabeça dele e segurou-o no colo. Gemeu um pouco, resmungando pelo incômodo.
Afinal, onde deixou o raio do guarda-chuva? Embaixo da cadeira, claro. Foi Hugo quem brincou mais cedo e o colocou ali.
Chovia menos agora. Melhor ir logo se ainda queria trazer algum dinheiro para casa
Fechou a porta com cuidado sem fazer muito barulho. O pacote de rosquinha numa mão e o filho na outra. Ainda precisava equilibrar o guarda-chuva.
Andava tentando evitar a lama e os buracos. A última coisa que queria era cair e machucar seu menino.
Chegou ao asfalto e entre os carros oferecia o produto. Vendeu o primeiro, o segundo, venderia todos, tinha certeza.
Aquela gente trancada em seu automóvel por tanto tempo queria alguma coisa para se distrair. E ela fazia isso.
Ouviu alguns conselhos para voltar para casa e levar a criança, porque ele ia ficar doente. E outros comentários: essa aí traz o filho de propósito para a gente ficar com pena e comprar as porcarias que vende...
Não respondia nada. Levantava a cabeça e batia no vidro da janela do próximo.
Hugo começou um choramingo. Com dificuldade conseguiu desabotoar a blusa e dar o peito a ele. Leite não tinha mais, mas servia para acalmar. Pronto, ficou quieto.
Não gostava de deixar o filho sozinho. Tinha medo de algum maldoso roubar. E havia motivos para pensar isso. No ano passado, uma vizinha foi ao mercadinho e deixou as duas filhas dormindo. Quando voltou, só encontrou uma. Está até hoje procurando. Todo mundo sabe que não vai achar, mas continuam rezando e pedindo.
Faltavam quatro pacotes para terminar. Resolveu ir embora, já se afastara demais. Quem sabe voltando vendia esses...
Em casa, percebeu que Hugo ainda sugava o peito. Beijou sua testa e o colocou na cama.
Tirou a roupa molhada e pôs sobre a cadeira. Sentou e contou o dinheiro. Não era muito, mas seria uma ajuda para o dia seguinte. Precisava de leite e feijão. Daria para comprar.
Puxou a coberta sobre o corpo e virou o rosto quase encostando ao do filho. Gostava de ficar olhando-o até que seus próprios olhos se fechassem
Tão bonito seu menino. E se dependesse dela, cresceria forte...
15-12-2010.
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Futebol e amigos são sagrados
21/01/2017 | 18h42
Amigos e futebol são sagrados
Cândida Albernaz
- Você vive repetindo isso.
- E acha que não tenho coragem?
- Não sei se tem ou não. Mas qualquer hora dessas eu também desisto.
- Demorou!
- Sei que fala da boca para fora. Não é o que realmente quer.
- Do jeito que está não dá.
- Que jeito?
- Brigamos o tempo todo.
- Brigamos, não. Você reclama o tempo todo. E mesmo que tente agradar, não consigo.
- Tá... Jogando futebol toda quarta-feira, assistindo futebol toda semana, saindo com os amigos para encher a cara...
- Então não posso mais sair com os amigos nem torcer pelo meu time.
- Claro que pode, mas não no fim de semana, quando podemos ficar mais tempo juntos.
- E você, que aos domingos quer ir para a casa de sua mãe? Sabe que ela não vai com a minha cara.
- Que é isso? Minha mãe sempre tenta agradar você.
- Me serve cerveja quente...
- Coitada, é que não bebe e não entende da temperatura ideal.
- ... fala mal do Flamengo...
- Só para implicar, é uma forma de brincar.
- ... e quando tem jogo e estamos na casa dela, sempre arruma um jeito de pedir para consertar algo.
- Poxa, José Antônio, ela é sózinha...
- Mas tem que ser na hora em que sento em frente à televisão?
- Precisa de nós.
- Pensa que não vi da última vez o sorrisinho dela quando o time perdeu?
- Não entende do assunto...
- E ofereceu uma cervejinha para brindar o jogo. Brindar o quê?
- Quis agradar.
- Não volto lá tão cedo.
- Tá vendo como você é? Só tenho minha mãe e não tem paciência nenhuma com ela.
- Está certo, mas ela não-é-minha-mãe-é-minha-sogra-que-me-sacaneia.
- Seu grosso!
- Você tem que estar com ela, não eu.
- Não vou abandonar mãe por sua causa.
- Não estou pedindo isso. Só não quero passar meu domingo tentando fingir que não vejo o que ela faz comigo.
- Viu só?
- Então você quer me deixar porque não quero ir à casa de sua mãe.
- Não é só isso.
- O que mais eu fiz?
- Quase não saímos. Quer dizer, eu não saio, porque você todas as sextas vai para a rua com seus amiguinhos.
- Quer que pare de ver meus amigos também?
- Quero que saia comigo.
- E você não pode escolher outro dia da semana?
- Posso, mas sempre diz que está cansado.
- Trabalho como um condenado!
- Tem que ter um tempo para mim.
- E eu não tenho? Sábado mesmo trouxe umas iscas e umas bebidinhas para nós dois ficarmos vendo tv abraçadinhos.
- Futebol, João Antônio! Fu-te-bol!
- Era uma partida importante.
- Não quero mais conversar.
- Não faz isso, vem cá.
- ...
- Vivo trazendo presentes para você e nem dá valor.
- Que presentes? A geladeira que comprou porque a nossa deu defeito?
- E o ar condicionado da sala também, você queria tanto.
- E isso é presente?
- Não é?
- Não banque o espertinho, João Antônio.
- Custou uma grana! O que queria?
- Poderia ser um anel? Um vestido novo? Um perfume?
- Vamos fazer as pazes, sabe que não vivo sem você. E não faz essa cara de brava porque também me ama.
- Amo, mas não devia.
- Vem cá, vamos sair no sábado para jantar e levo aonde quiser.
- Promete?
- Prometo tudo. Gosto desse seu cheiro... Mais pertinho, vem.
- E vai me dar um presente direito?
- O que escolher. Esse seu beijo me mata. Ô boca gostosa!
- João Antônio...
- Vamos conversar mais tarde...
- Domingo vai à casa de mamãe?
- Começando a pedir demais.
- Então chega desse chamego comigo.
- Ei! Agora não. Vem aqui, vou no domingo, na segunda, na terça, todos os dias à casa de sua mãe...
- Ai, amor...
- Mas na hora do jogo a leva para o quarto, combinado?
- Jogo, amor?
- É, vai ter um jogão nesse domingo, não quero perder.
- Tem um probleminha.
- Deixa para depois, faz aquele amorzinho que eu gosto, faz...
- A televisão de mamãe...
- O que tem?
- Não está funcionando.
- Manda consertar.
- Já tentou. Só comprando outra.
- Então compra! Mais um beijinho...
- Está sem dinheiro.
- E...
- Falou que a gente podia dar uma de presente para ela.
- Mas foi você quem falou que geladeira, fogão, televisão, ar, não é presente.
- Mas para a mãe...
- Vamos fazer uma coisa. Você vai para a casa de sua mãe, eu assisto ao jogo aqui e segunda conversamos de novo. Agora não dá mais tempo de nada...
- Como assim?
- Esqueceu que hoje é sexta?
- João Antônio!
14/12/2010.
Seguir em frente
21/01/2017 | 18h42
Seguir em frente
Cândida Albernaz
Ela andava na rua e não percebia os rostos que se viravam para acompanhar seus movimentos. Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos. Pensava e quanto mais o fazia, percebia a proximidade cada vez maior de uma solução.
Tropeçou num desnível da calçada que não notara. Soltou um palavrão baixinho. Hábito antigo que não conseguira mudar. Xingava quando algo a irritava.
Queria chegar logo à casa. Infeliz idéia a sua quando resolveu caminhar até lá. O salto alto a cansava e o sol resolveu aparecer com força. Sentiu um fio de suor escorrendo entre os seios. Estava perto agora. Mais duas quadras e o ar condicionado a esperava depois de um banho.
Entrando em casa, tirou as sandálias e as deixou no corredor. O vestido que usava também ficou pelo caminho. Não gostava de bagunça, mas ansiava por uma ducha. Deixou que a água fria escorresse por seus cabelos e corpo. Precisava por ordem em seus pensamentos e no que queria.
Sabia que não havia outra decisão. Estavam juntos há dois anos, muito de suas coisas na casa dele e outras tantas dele na dela.
O início sempre é divertido, instigante no querer conhecer o outro e tranqüilo. Aliás, prezava demais esta palavra: tranquilidade. Precisava disso para viver, e não possuía mais. Chegaram a um ponto em que estar junto se resumia a cobranças que ela fazia, e ironia, como ele respondia.
Soubera há dois meses que ele saíra com outra mulher. Conversaram e garantiu ter sido companhia para um jantar enquanto ela não estava na cidade. O peito doía de forma insuportável. Não imaginava que o amasse tanto e por isso, fingiu engolir. Claro que depois de uma discussão em que se ofenderam, ela chorou, gritou, e ele pediu “desculpa, não vai se repetir”.
Não foi o que aconteceu. Uma de suas amigas alertou “fez uma vez querida, e você perdoou tão fácil... Sinto dizer, vai repetir”. Ela tinha razão. Hoje viu os dois por acaso, quando foi deixar o carro para lavar. O idiota, porque na hora era o que ele parecia ser, estava saindo com o carro brilhando e a mesma mulher no banco do carona. Com certeza agora já a conhecia, porque procurou saber quem era, onde trabalhava, o salão que frequentava, o lugar onde morava. Ficha quase completa. Quase porque não tinha certeza de que estavam juntos ainda.
Tomou a resolução de não discutir mais nada.
Sairia de sua vida e o retiraria de dentro dela. Não sabia o tempo que ia precisar para isso, mas nada que a fizesse sentir tão mal poderia estar ao seu lado.
Era capaz de passar por cima dele, dela própria, ou de qualquer coisa para conseguir sobreviver longe do que não a fazia bem.
Fácil não seria, mas e daí? Também não estava sendo agora.
Não costumava voltar atrás em suas decisões, mesmo que doesse. Talvez ela não bastasse para ele, mas bastava-se para si mesma.
Olhou o relógio e viu que ainda era cedo. Ligou para uma de suas amigas. Pegariam juntas o carro e sairiam.
Precisava de olhos que a cercassem. Queria ver gente, ouvir música, rir. Lembrava agora... Há quanto tempo não ria com vontade?
5-12-2010.
Nem sempre vale a pena recordar
21/01/2017 | 18h42
Nem sempre vale a pena recordar
Cândida Albernaz
Resolveu sentar na calçada para descansar um pouco. Andou o dia inteiro e nem parou para comer. Retirou do bolso da saia preta e larga demais para o corpo que possuía, um pequeno embrulho. Foi abrindo o papel devagar, de onde tirou um pedaço de pão com lingüiça. Mordeu com vontade. Um pouco duro para os dentes que sobraram em sua boca. A garota de olhos azuis da padaria foi quem deu a ela. De vez em quando ela preparava alguma coisa que a alimentava. Gostava de conversar também. Fazer perguntas.
Hoje contou sobre a casa bonita em que morava quando era jovem numa outra cidade com o marido e as duas filhas. Não era grande, mas o bairro onde residia tinha muitas árvores e uma praça para onde levava as meninas. Só o marido conhecia esta cidade onde estava agora vivendo. Ele tinha negócios aqui. E um apartamento também.
Tirou mais um pedaço do sanduíche. Mastigava devagar e com dificuldade.
A garota costumava pedir que contasse alguma parte de sua vida. Nem sempre podia fazer isso, porque não lembrava. A mente fugia e as idéias ficavam fora de ordem.
Suas filhas eram louras como ela e gostavam de correr entre os brinquedos da pracinha. Tinham cinco e seis anos na época. Riam tanto as duas e brigavam também, porque criança adora ter ciúme uma da outra nos desejos mais bobos.
Estava pensando em ficar por ali mesmo esta noite. Mais tarde alguém passaria e serviria uma sopa morninha.
O marido vivia viajando a trabalho. Sua família e a dele, eram do norte e desde que se casaram e se mudaram, não os vira. Falta de tempo dela, falta de dinheiro deles... Os anos passaram e não percebeu.
Vivia para as filhas e para aquele homem que escolheu. Não trabalhava, ele não permitia.
Guardou o restante que sobrou no mesmo papel, fechou direitinho e enfiou no bolso outra vez. Amanhã podia precisar. Estava com sede. Levantou-se e foi até a porta da loja que havia ali perto. Pediu um copo de água à funcionária, que depois de resmungar qualquer coisa foi pegar. “Pode levar o copo. E não fique aqui na frente.” Voltou para onde estava e sentou. Quando a loja fechasse, se acomodaria melhor sob a marquise.
Um dia, o marido chegou com um carro novo e mandou que as três se vestissem. Iam sair. Gostava quando ele as levava para passear perto da praia. O mar tinha uma beleza e uma força que a deixava deslumbrada sempre que via. Bom de verdade era quando, no domingo, pisavam na areia e podiam mergulhar na água gelada. Virava criança junto com as filhas. Ele ficava sentado sob o guarda sol olhando-as. Depois entrava sozinho no mar sem dar muita atenção às três. Notara que ele falava e ria cada vez menos.
Pronto. Fecharam a loja. Poderia se acomodar melhor nos degraus. A funcionária passou por ela e deu boa noite. Respondeu com um sorriso de dentes falhados.
Alguns dias pensava mais, como hoje. Em outros, só olhava em volta, com a cabeça oca de idéias ou lembranças.
Nunca viera com o marido àquela cidade. No dia em que desembarcou de um ônibus ali, estava sozinha.
Não gostava muito quando esta parte da vida enchia sua cabeça. Ficava triste.
Na sacola com que andava para cima e para baixo pendurada no ombro, tinha uma colcha fina e uma almofada bem pequena que fazia de travesseiro. Um pente também, porque adorava pentear os cabelos. E só. Antes carregava coisas que as pessoas davam ou encontrava pela rua. Jogou tudo fora. Pesava.
Não percebeu nada antes. Confiava. Ele pediu que fosse ao supermercado enquanto ficava com as crianças. Uma lista grande. Disse que a pegaria de carro para levar as compras. Esperou por uma hora mais ou menos. Deixou tudo lá mesmo e avisou que voltaria para pegar.
Em casa, todos haviam saído. Imaginou um desencontro entre eles. Esperou. E continuou esperando. Dois dias depois, não entendia o que acontecera. Fora a polícia e prometeram procurar por eles. Naquela semana esteve várias vezes na delegacia. Sem notícias.
Num desses dias em que retornava à casa, encontrou pessoas estranhas dentro dela. Tinham a chave e anunciaram que a haviam comprado e a ocupariam. Retirasse logo tudo o que fosse pessoal porque queriam o imóvel livre no dia seguinte. O prazo dado ao antigo proprietário vencera. Tentou procurar ajuda, o dinheiro que tinha mal dava para comer. Na firma onde o marido trabalhava como representante de remédios, disseram que pedira demissão. E não, não sabiam informar o paradeiro dele.
Papéis e papéis que assinara sem ler.
Resolveu ir à rodoviária. Tentaria a cidade onde ele falara sobre o apartamento que tinham. Talvez os encontrasse. Sabia o endereço, vira em sua gaveta e gravara.
Assim que chegou, foi à rua que conhecia apenas de nome. Tocou a campainha. Uma mulher com um lenço amarrado à cabeça abriu aporta. Perguntou pelo marido, disse seu nome, ou estaria no endereço errado?
“Não, foi este o senhor que nos vendeu o apartamento. Mudamos há um mês. Pagamos uma parte com dinheiro e demos nosso carro também. Juntávamos há algum tempo.”
Quando saiu dali, ficou andando pela cidade que desconhecia. Foi a primeira vez que sentou numa calçada. Foi a primeira vez que escorregou o corpo até que com a bolsa embaixo da cabeça, dormiu sob uma marquise.
Quando a mente voltava como hoje, sentia o corpo inteiro doer. Continuaria procurando amanhã... Se ainda lembrasse.
A moça da sopa estava chegando...
30-11-10
Amava aquele lugar
21/01/2017 | 18h42
Amava aquele lugar
Cândida Albernaz
Sentado na beira da estrada sobre a mochila gasta, olhava o asfalto quente como se dali fosse obter respostas. A camisa laranja contrastava com o verde do mato no acostamento. Precisava de uma carona, mas não me animava a pedi-la. Andei bastante. Estava tonto por tudo o que havia acontecido e o sol forte me cegava com tamanha claridade.
Abaixei a cabeça até o joelho passando as mãos nos cabelos pretos e cheios. Se pudesse me ver agora, notaria que dos olhos antes tão frios escorriam lágrimas, mas a dormência que me dominava não deixava perceber as coisas com clareza.
A casa construída na fazenda ficou uma bagunça. Amava aquele lugar. Nasci, cresci e casei-me naquela terra, assim como meu pai e meu avô. Trabalhamos ali por toda a vida.
As coisas começaram a dar errado desde o dia em que Lourival, com ares de cowboy e um cabelo louro ensebado, chegou à fazenda.
A princípio não percebi nada. Tornamos-nos amigos. Gostava do jeito dele, achava até engraçado. Dizia saber tudo, não havia assunto que não conhecesse ou história ouvida que já não tivesse vivido igual. Também não era um cara muito respeitoso com as mulheres. Costumava contar detalhes do que fazia com as meninas nos outros lugares onde trabalhou e quando íamos ao bar aos sábados, tinha sempre um comentário maldoso para cada mulher que passava. Até isso eu relevava porque sabia que a metade do que dizia era mentira e o achava uma criança.
Com o tempo, a maioria dos companheiros foi se afastando dele e eu me sentia meio que responsável pelo cara. Era jovem e trabalhava sob minhas ordens.
Passou a almoçar na minha casa aos domingos, quando a Nicinha, minha mulher, sempre preparava uma comida caprichada. Ela sabia que eu adorava pernil de porco com tutu e todo domingo arrumava a mesa na varanda onde costumava tomar umas cachacinhas com limão antes de me fartar de tanta comida. Então pedia licença e ia me deitar. Ela ficava arrumando a cozinha e depois se deitava manhosa ao meu lado, esfregando seu corpo no meu até que me deixasse aceso.
À noite sentávamos na escada da varanda e fazíamos planos para o futuro, quando viessem os filhos.
No primeiro domingo em que acordei e não vi Nicinha ao meu lado, estranhei. Fui até a sala e de lá vi os dois conversando na varanda. Ela sentada na cadeira de palha e Lourival em pé na escada. Sorriram para mim e ela:
“Acordou? O Lourival estava me contando umas histórias de quando era criança e já ri muito com ele”.
Não gostei no início, mas depois sentei ao lado de Nicinha e comecei a rir das histórias dele também. Quando percebemos, era noite. Lourival foi embora e eu e Nicinha entramos abraçados no quarto.
Alguns meses depois, percebi que havia um zum zum zum à minha volta. Sempre que me aproximava, a conversa morria. Aos sábados, Nilton e Tonho eram os únicos que continuavam bebendo comigo. E não tinha mais a desculpa de Lourival, porque me falou que estava cansado das caras feias que o pessoal fazia para ele e resolveu não freqüentar mais aquele bar. Passou a ir num lugar ali por perto, onde tinha umas mulheres bonitas. Até me chamou para ir junto, mas expliquei que isso eu não fazia. Respeitava a minha Nicinha.
Uma noite, cheguei mais cedo no bar. Tinha combinado de jogar sinuca com Tonho e ele já devia estar esperando. Mal entrei, ouvi o nome da Nicinha. Cheguei perto deles que se calaram na hora. Tonho que estava no grupo veio até mim.
“E aí? Vamos jogar?”.
“O que houve? Ouvi vocês falarem o nome da minha mulher”.
“Impressão sua, meu irmão”.
“Não foi impressão. Você é meu amigo. O que o nome da Nicinha está fazendo na boca desses caras? ’.
Notei que Tonho ficou nervoso. Carlão que ainda estava por perto:
“Cadê seu amigo Lourival?”.
“Tá falando comigo, Carlão?”.
“Claro. Você é o único otário aqui que dá corda para um tipo daqueles”.
“O que Lourival tem a ver com isso? Vocês estavam falando da minha mulher”.
“Soma dois mais dois, meu chapa. Ficou burro de repente?”.
Olhei para Tonho que abaixou os olhos. Segurei no braço dele e o puxei até a porta.
“Fala. Prefiro saber por você. O que essa gente está comentando?”.
“Não sei direito, amigo”.
“Fala!”
Olhando-me firme.
“Dizem que o Lourival anda visitando a Nicinha todo sábado. Mas eles falam demais, você sabe”.
Não precisava ouvir mais nada. Cheguei a casa em poucos minutos. Ainda do lado de fora, arranjei calma não sei onde e entrei sem fazer ruído.
O barulho que vinha lá de dentro não necessitava de explicação. Peguei o facão pendurado na parede e fui para a porta do quarto. Minha cabeça pegava fogo e eles nem perceberam quando entrei. A minha Nicinha estava nua embaixo daquele moleque safado.
O sangue dele espirrou na minha cara me cegando um pouco. Limpei os olhos com as mãos e vi que ela estava em pé olhando para mim e pedindo desculpas. Seu corpo caiu sobre a cama depois do primeiro golpe. Vieram outros.
Quando Tonho chegou, colocou umas roupas na mochila que estava sobre o armário e me ajudou a tomar um banho.
“Some amigo. Vai para bem longe porque a polícia vai demorar a aparecer aqui”,
Não falei nada. Olhei em volta e vi minha casa toda suja daquele vermelho horrível.
Coleção
21/01/2017 | 18h42
Coleção
Cândida Albernaz
- Sente o meu coração?
- Hum- hum.
- O que você acha?
- Normal.
- Normal, como? Não vê que está acelerado?
- Pode ser.
- Pode ser? Estou aqui me desmanchando por dentro e não percebe?
- Não seja boba, também estou feliz por estarmos aqui.
- Verdade?
- Hum-hum.
- Odeio quando faz isso.
- Isso o quê?
- Hum-hum. Tenho certeza de que não está prestando atenção no que estou falando.
- Claro que não. Agora só estou pensando em você. Não quer tirar a blusa?
- Agora por quê? Penso em você o tempo todo. Vê como é diferente?
- Ora, não seja boba. É só maneira de falar.
- Tá bom. Então diz que me ama.
- Te amo.
- Assim rápido não vale. Tem que falar direito.
- Te amoooo.
- Eu também te amo. Você me acha boba mesmo?
- Como assim? Não te acho boba coisa nenhuma. Venha cá, deite aqui ao meu lado e tire essa blusa. Está quente.
- Você falou duas vezes para eu parar de ser boba.
- Não foi com intenção. Deixe te abraçar, vai sentir como meu coração também está acelerado.
- Gosta de criança?
- Como?
- Quero saber se gosta de criança, se quer ter filhos um dia.
- Adoro criança, de preferência desligada, dormindo.
- Não pensa em ter filhos?
- Que conversa é essa? Vamos falar menos, quero sentir você. Nossa, que cheiro bom! Se pudesse não parava de te beijar.
- Ora, bobinho. É só querer me ver todo dia. Minha boca é só sua.
- Só a boca? Não percebe que quero você todinha?
- Não seja apressado.
- Deite aqui. Vê como é gostoso nós dois assim, coladinhos? Percebe como está o meu coração?
- Devagar, assim fico sufocada.
- Quero sufocar você, te deixar molinha e sem ar.
- Deus me livre!
- O que foi agora? Por que se levantou?
- Claro, está dizendo que quer me ver morta.
- Como assim morta?
- Sem ar, sufocada, molinha. Eu hein?
- Cansei. Acho melhor irmos embora.
- Ficou zangado comigo?
- Zangado? Não. Só acho melhor deixar para outro dia.
- Está zangado sim. Falou que íamos passar a tarde aqui para depois jantarmos.
- Você quer jantar?
- Claro, não foi o que combinamos?
- Você não me deixa chegar perto, não fica nem mesmo sentada, quanto mais deitada e agora quer jantar? Tá me achando com cara de otário?
- Se me convidou...
- Mas não te convidei apenas para jantar. E depois, não pára de falar um segundo. Nem gosto de mulher que fala tanto.
- Não gosta mais de mim.
- Gostar? Acho você muito gostosinha. Aliás, achava.
- Minha mãe tinha razão.
- O que sua mãe tem a ver com isso?
- Ela disse que você não era um cara para casar.
- Casar? Quem falou em casamento? Conheci você ontem.
- Faz um mês.
- Um mês, um ano, um dia. Dá no mesmo. E abotoe sua blusa direito, porque os botões estão trocados.
- Não quer mais me ver?
- Depende.
- De quê?
- Se você deitar aqui agora e fechar sua boquinha, vou pensar no assunto.
- Seu grosso!
- Vamos embora. Já paguei a conta e nem usei. Estou indo para o carro.
- Amor?
- O que é agora?!
- Posso levar o xampu e o sabonete que está no banheiro? É para minha coleção.
- ?!
O tempo que passa
21/01/2017 | 18h42
tempo que passa
Cândida Albernaz
A menina estava sentada na beirada da cama, os pés balançando no ar enquanto as mãos para trás apoiavam o corpo. Observava o movimento da mãe preparando-se para sair.
Os olhos curiosos seguiam cada gesto parecendo querer para si a novidade do mundo adulto.
Elza, a mãe, virou-se e perguntou à filha se queria passar batom. O brilho que iluminou o rostinho foi seguido de um sim cheio de felicidade. Abriu bem a boca, tornando o ato quase impossível de ser feito sem borrar. Pediu para ver e a mãe, pegando-a no colo, levou até o espelho do banheiro.
- Estou igual a você, não é mamãe?
- Mais linda, filha. Muito mais linda.
Sorriu orgulhosa imaginando-se mulher.
- Agora volte para lá, porque preciso terminar de me arrumar.
- Mãe, você guarda esse vestido para eu usar quando crescer?
- Claro, meu amor. Tudo que tenho será seu.
Recordava-se desse dia como se estivesse acontecendo agora. O vestido não existia mais. Nada mais era como naquela época.
Estava atrasada, precisava ajeitar a casa antes de sair. Sua funcionária não apareceu e para variar, não avisou que faltaria.
Deixou o filho na escola depois de preparar o café para ele e o marido, que também já saíra.
A roupa suja, colocou na área de serviço; a louça, havia lavado, e as camas, feitas. Não gostava de bagunça ou sujeira. Tinha um prazer enorme em ver sua casa em ordem e cheirosa. O marido costumava mexer com ela sobre sua mania de limpeza e organização. Ao contrário da mãe, que nunca se preocupava muito. Se a empregada não fosse trabalhar, ficava tudo do mesmo jeito até que ela resolvesse voltar. Dizia que não fora feita para isso. Serviços domésticos a entediavam e quebravam suas unhas. Sua mãe tinha um humor que a divertia. Ou irritava.
Muitas vezes ela mesma arrumava a casa e quando pegava a vassoura para varrer, Elza ria, dizendo que era muito bom ter uma filhinha que cuidava de tudo.
Olhou o relógio e viu que ainda tinha algum tempo. Resolveu fazer uma macarronada para o almoço, era mais rápido e aproveitaria a carne assada que sobrara do dia anterior. Quando o filho e o marido chegassem, apenas esquentaria a comida.
Lembrou novamente da mãe que nunca aprendeu a cozinhar.
- Já pensou, eu com manchas de queimaduras nos braços e mãos? Deus me livre, porque minha pele é muito clara. E depois, se fizer o serviço de Laura ela fica sem utilidade nessa casa, e, se não precisarmos mais dela, coitadinha, vai viver de quê?
E ria, sua mãe estava sempre rindo. Ria de si mesma e de tudo o que ocorria à sua volta.
Só a vira zangada e triste uma vez. Quando descobriu que o pai estava saindo com outra mulher.
Chegando do colégio, encontrou a mãe trancada no quarto, de camisola, o cabelo desfeito e chorando. Perguntou o que havia acontecido. E apesar dos seus dez anos, Elza contou com detalhes o que descobrira. Foi a vizinha quem falou para ela. O pai era um safado, arranjara uma vagabunda, que, claro, só devia estar interessada no dinheiro dele. Os dois estavam se divertindo bem debaixo dos seus olhos.
- E pensa que vai ficar assim? Vou quebrar a cara deles. Ou matar.
Abraçou a mãe e esta pediu que a socorresse pensando no que fazer, porque amava aquele desgraçado e não permitiria que uma qualquer se metesse na vida dos dois.
Não tinha idade suficiente para ajudar e mesmo que imaginasse algo, não teria tempo para expor. Elza teve uma idéia, levantou da cama e vestiu-se para matar, como ela mesma informou. Avisou que ia sair, mas não demoraria. A mãe estava linda quando passou pela sala e fechou a porta.
Duas semanas depois ouviu Elza conversando com uma amiga.
- Segui meu marido e descobri onde se encontravam. Esperei ele sair e toquei a campainha. Sangue frio, minha cara, porque nessas horas é preciso. Quando aquelazinha abriu, vi o sorriso estúpido. Já entrei enfiando a mão na cara dela. Bati muito. Uma magrela baixinha que não aguentava um tapa. Dei vários. E avisei: última vez que encosta essa mão nojenta no meu marido. Fique sabendo que se houver próxima, vai ser muito, mas muito pior.
Sei não amiga, mas acho que ele acabou com as visitinhas que fazia. Chega cedo à casa, me faz um excesso de carinho, e me convidou para uma segunda lua de mel.
E ria...
Pegou as chaves do carro e saiu.
Parou em frente ao portão da clínica. Verificou se as frutas e o bolo estavam direitinho dentro da bolsa. Ela sempre gostou de bolos caseiros.
As enfermeiras a conheciam. Procurou na sala a poltrona onde a mãe a esperava. Abaixou ao lado, e deu um beijo em sua testa. Acariciou o rosto enrugado e tirou uma fatia do bolo. Os olhos parados não a reconheciam, mas assim que sentiu o sabor do doce na boca, Elza sorriu.
7-11-2010
Retorno
21/01/2017 | 18h42
Retorno
Cândida Albernaz
Quando abriu os olhos viu que o pai, debruçado sobre ela, a observava com preocupação. Tentou falar e ele sorriu vendo que estava bem.
Procurava colocar o pensamento em ordem, lembrar-se do que ocorrera.
Voltava para casa quando alguma coisa jogou-a longe.
Não estava muito certa sobre o que havia acontecido, mas recordava de uma moto.
Caminhava com pressa, queria chegar logo à casa. Chorava e a água em seus olhos atrapalhava sua visão.
Recordava de tudo agora. Olhou para o pai e pediu desculpas por deixá-lo apreensivo. Sentia-se bem, apenas um pouco de dor nos braços. Atravessou a rua sem reparar que vinha uma motocicleta e quando esta estava bem perto, jogou-se para o lado apoiando seu corpo com os braços na hora da queda. Ficaram arranhados e o peso em cima deles fez com permanecessem doloridos.
Em casa, deitou na cama do mesmo jeito que estava, sem mudar a roupa suja de terra ou limpar o sangue que escorrera. Precisava dormir, descansar a mente do pensar.
Deve ter apagado, porque não se lembrava de nada a partir dali.
O pai agora perguntava o que havia acontecido. Começou a falar sobre a moto, o asfalto onde caíra, e o sono pesado que a fizera dormir sem se trocar.
Não foi o suficiente para ele, mas pareceu se conformar. Pediu que deixasse ver o cotovelo sujo e sugeriu que tomasse um banho enquanto preparava um café para os dois.
Saiu do quarto deixando-a sozinha. No banheiro, em frente ao espelho, notou as pálpebras inchadas devido ao choro da noite anterior. No braço, sangue e poeira formaram uma casca em que não dava para medir o tamanho dos arranhões.
Ao reparar na mancha arroxeada no lado esquerdo da face, lágrimas começaram a escorrer novamente. Melhor mesmo entrar logo embaixo do chuveiro. O pai ainda não perguntara o que acontecera realmente e tinha certeza que o faria.
Os dois moravam sós desde que mãe se fora há dez anos. Ele sofreu muito lutando ao lado dela contra uma doença no coração que acabou vencendo-a. Viu o pai emagrecer, ganhar uma opacidade nos olhos que sumia apenas quando estavam juntos. Passaram a cuidar e proteger um ao outro.
Ela tinha treze anos na época e durante esse tempo foram ficando mais e mais unidos.
Quando conheceu Breno, o pai tentou alertá-la dizendo que não via na expressão daquele rapaz algo de bom. Insistiu e começou o namoro contra a vontade dele. Pensou que o ciúme por ver a filha com alguém falava mais alto.
O dia a dia mostrou que o humor de Breno oscilava nos extremos.
Ela quase perdera o emprego quando, alcoolizado, resolveu tirar satisfações com um colega de trabalho, que julgava estar interessado nela.
Saíam e quase sempre costumavam discutir no caminho de volta. Nesses momentos mandava que ela descesse do carro, deixando que fosse a pé para casa. Chegando, encontrava o pai desperto lendo ou assistindo a algum filme. Conversavam um pouco antes de dormir. Ele desistira de aconselhar. Passado algum tempo, beijava sua testa e ia para o quarto. Muitas vezes ela permanecia acordada imaginando que o pai deveria ter se casado de novo. Era muito sozinho.
Hoje teria que dar explicação. O lugar onde recebera a bofetada inchara um pouco. Não era a primeira, mas decidiu que seria a última.
Sentado à sua frente ele serviu o café quente e perguntou se queria leite também. Respondeu que sim e quando foi pegar um pedaço de bolo, ele estendeu a mão e acariciou o lado dolorido de sua face. Pediu com os olhos que ela se poupasse.
Desistira de opinar ou orientar. Tentara uma vez acertar as contas com Breno, mas a filha ficou sem falar com ele por dias. Disse então que aceitaria sua decisão, mostrou que ela era importante e pediu que pensasse o quanto não merecia o que aquele homem estava oferecendo.
Agora o choro molhava o rosto dos dois, abraçou o pai e avisou que não aconteceria mais. Decidira que Breno não chegaria perto dela novamente.
Aquele antigo brilho que surge dos olhos de seu pai, ao estarem juntos, voltou a aparecer.
Tomaram o resto do café em silêncio, experimentando apenas a sensação de paz que invadira aquela sala.
2-11-2010.
Não pensar, não lembrar: adormecer.
21/01/2017 | 18h42
Não pensar, não lembrar: adormecer.
Cândida Albernaz
Falar, falar, falar... e não precisar pensar, porque pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino.
O bar está cheio e o som das vozes se mistura com a música que o cantor desconhecido canta, na esperança de que alguém o escute. A maioria veio para beber e rir de tudo e nada, assim como eu. O grupo de amigos à minha volta presta atenção numa piada que Mário conta com uma interpretação irrepreensível: qualquer coisa sobre argentinos e brasileiros, onde é claro, o argentino se ferra. Todos rimos.
Olho para Henrique, os olhos parados fixos em um ponto que só ele vê. Deveria puxar conversa e escutá-lo, mas não preciso de mais problemas, bastam os meus.
A mulher de Henrique saiu de casa há dois meses. Tentou explicar-lhe que não teve como evitar a paixão repentina pelo aluno quinze anos mais novo. Que poderia ser a última chance para viver esse sentimento. Que não era mais criança e suas rugas não importavam ao rapaz e que a juventude dele fazia com que se sentisse jovem também. Que precisava compreendê-la, desculpá-la, e quem sabe arrumar uma garota? Ele? E o hábito de tantos anos ao lado da mesma mulher, agora não sabendo o que fazer de si mesmo?
Não penso, não lembro, não sofro: durmo.
Em casa, evito acender as luzes, não resolveria: vou tropeçar nos móveis de qualquer forma. Bebi demais e a cabeça gira como tudo à volta.
Tomo um banho e na cama, massageio os pés com as pontas dos dedos: mania, todas as noites faço assim. Antes de deitar, ligo a televisão e quando não aguento mais manter os olhos abertos, durmo. Pela manhã prometo que não vou mais deixá-la ligada por toda a noite.
Os hábitos me ajudam a sobreviver: vêm de forma mecânica, sem que precise fazer esforço.
Há meses tento não sentir a ausência, principalmente de Vítor. Até suas repreensões e olhares de raiva me fazem falta. Procuro chegar a casa o mais tarde possível, porque assim, com o corpo exausto e o excesso de bebida, não há como não dormir. Se houver sonhos, não importa, não me lembro deles mesmo.
Por mais que faça, algo me persegue: culpa.
Um ano depois a culpa transpassa meu corpo como uma lança.
Não chovia, não era noite. Estávamos os três saindo de casa e você insistiu para que eu não dirigisse. Teimosa como sempre, não abri mão. Sentei ao volante e por mais que tentasse, gritei que se não quisesse ir, podia ficar em casa. Iríamos eu e nosso filho Vítor, para a praia, como havíamos combinado no dia anterior.
Sabia que não deixaria que fosse sozinha com ele, o problema seria a volta, depois que já tivesse bebido o suficiente para me divertir.
Juro que procurei fazer direito. Sabia que você estava cansado de mim e pensava estar tentando o melhor possível. Quando na curva, virei para trás e brinquei com Vítor, estava na verdade querendo que você visse o quanto podia ser amiga e amorosa com ele. Foi o suficiente para que perdesse a direção e o carro saísse da estrada.
Nosso menino foi jogado longe, batendo com a cabeça no asfalto: não resistiu.
Você foi embora de casa: não resistiu.
Eu tento sobreviver: não sei se vou resistir.
Não queria pensar, pois pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino...
Era ela ou eu
21/01/2017 | 18h42
Era ela ou eu
Cândida Albernaz
Saí cedo como sempre, mas hoje estou me sentindo cansado. Ontem à noite enquanto comia a canjiquinha que mãe preparou, fiquei matutando sobre o que ia fazer. Ela parecia que estava adivinhando. Encheu de perguntas sobre meus amigos, sobre quando eu ia voltar a estudar, “quem não estuda não tem futuro”, sobre o trabalho na obra da creche de dona Lurdes. Foi mãe quem arrumou. Falou com a patroa que eu estava precisando de emprego. Até posso imaginar:
- Tenho que arranjar alguma coisa para o meu filho fazer. Sabe como é, dona Lurdes, rapaz de dezesseis anos tem que ter o tempo ocupado, senão...
Pois é, o problema é esse senão. Na obra conheci o Jurandir, ajudante de pedreiro, cheio de história para contar. Foi ele quem me deu a idéia.
Tenho uns amigos que não são fáceis, arrombam um carro aqui, levam uma carteira ali, mas não passam disso.
Até já participei de alguns desses servicinhos com eles, mas nada violento.
O Jurandir, não. Esse contou que já matou dois e assalta armado. Cumpriu pena por uns tempos, mas não se emendou. Só diz que se for para ser preso de novo, prefere morrer. Falou que lá dentro é uma merda e que a gente se arrepende de ter nascido.
Nunca me meti com arma. Não digo para ninguém, mas tenho medo.
Minha mãe conta que meu pai, que não conheci, morreu com um tiro nas costas. Numa briga de bar, ele bateu num sujeito porque tinha mexido com ela. Arrebentou com a cara do outro e o expulsou dali. O covarde voltou meia hora depois e antes que pudessem avisar a meu pai, disparou um tiro nas costas dele. Ainda foi para o hospital com vida, mas lá acabou morrendo. Os médicos disseram que se vivesse ia ficar aleijado. Acho que foi melhor assim.
Minha mãe casou de novo e teve mais dois filhos. Não morro de amores pelo marido dela, sujeito grosso, mal-educado, que só fala gritando. Se eu não morasse com eles, já tinha enfiado a mão na minha mãe. Mas como não é besta nem nada, fica na dele porque se encostar um dedo nela, como ele vivo. O tipo tem a metade da minha altura. Só a mãe mesmo para ficar com um nanico desses. Mas se gosta dele, eu respeito.
Combinei de encontrar com Jurandir depois do serviço. Vamos acertar tudo. Ele me garantiu que é seguro e eu tô cansado dessa vida que levo. Preciso de uma grana extra.
* * *
Abri a porta com facilidade, está tudo escuro e tô rezando para não tropeçar em nada. Conheço a casa porque já estive aqui duas vezes. Soube que ela guarda as jóias numa mesinha dentro de uma gaveta com fundo falso. Sei bem onde é, porque quando ela viajou há uns meses atrás vim com mãe e enquanto ela fazia a limpeza da casa, eu aproveitava para conhecer a área. Nunca se sabe quando se vai precisar de um extra.
Jurandir está comigo. Se der tudo certo, vai ser rápido. Dona Lurdes está dormindo, costuma deitar cedo. Ela só não pode me ver, porque me conhece.
Entrei no quarto bem devagar. Que mulher para roncar! Nem se mexeu. Abri a gaveta e peguei as jóias. Parecia ter menos do que eu me lembrava.
Quando desci, Jurandir estava pegando o aparelho de DVD: “sempre quis ter um”.
Abri a porta na mesma hora em que a luz acendeu. Olhei para dona Lurdes e ela olhou para mim. Reconheceu-me, percebi. Jurandir correu até a escada e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, enfiou a faca na barriga da dona, tirou e enfiou de novo. Ela não desgrudou os olhos de mim. Não queria isso, mas ainda bem que ele estava ali, eu não teria coragem e acabaria preso.
Ela ainda se mexia quando ele deu a terceira facada. Fiquei com pena de dona Lurdes, mas era ela ou eu.
Tenho que ser rápido e colocar a chave da casa na bolsa de mãe, antes que ela acorde.
Da próxima vez serei mais cuidadoso.
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Candida Albernaz
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