A gente faz o que precisa
A gente faz o que precisa
Cândida Albernaz
A chuva caía há pelo menos duas horas. Conseguia ver de sua casa que o trânsito na estrada estava parado. Alguma desgraceira deve ter acontecido
Era sempre assim. Todo dia um acidente e alguns perto de onde morava.
Olhou o pacote de rosquinha em cima da pia. O dia havia sido ruim. Vendera pouco. Quando os carros ficavam mais tempo sem se mover no asfalto, sua chance de ganhar algum era maior. Pena que para isso acontecer, o pior ocorreu com alguém. A vida é assim e não adianta lamentar. Hoje são eles que morrem, amanhã pode ser ela ou o filho de fome.
Estavam só ela e a criança em casa, não tinha ninguém para ajudar. O sem-vergonha do marido, que era marido só no nome, porque não casaram de papel passado, se mandou com a caixa do supermercado. Quem criava o filho com o trabalho de faxineira e uns biscates era ela.
Hugo, que tinha o mesmo nome do pai, estava com três meses quando aconteceu. Passaram dois anos.
Olhou para a caminha onde estava enrolado no lençol, porque hoje o dia foi mais fresco. Pena de tirar ele dali com essa chuva... Mas não havia jeito. Precisava faturar um pouco mais e agora era a hora.
Se pudesse escolher, não faria isso. Ele saiu de uma gripe há duas semanas.
Observou de novo o lado de fora. Os carros continuavam parados e pelo que conhecia, demorariam a voltar a andar.
Colocou uma manta na cabeça dele e segurou-o no colo. Gemeu um pouco, resmungando pelo incômodo.
Afinal, onde deixou o raio do guarda-chuva? Embaixo da cadeira, claro. Foi Hugo quem brincou mais cedo e o colocou ali.
Chovia menos agora. Melhor ir logo se ainda queria trazer algum dinheiro para casa
Fechou a porta com cuidado sem fazer muito barulho. O pacote de rosquinha numa mão e o filho na outra. Ainda precisava equilibrar o guarda-chuva.
Andava tentando evitar a lama e os buracos. A última coisa que queria era cair e machucar seu menino.
Chegou ao asfalto e entre os carros oferecia o produto. Vendeu o primeiro, o segundo, venderia todos, tinha certeza.
Aquela gente trancada em seu automóvel por tanto tempo queria alguma coisa para se distrair. E ela fazia isso.
Ouviu alguns conselhos para voltar para casa e levar a criança, porque ele ia ficar doente. E outros comentários: essa aí traz o filho de propósito para a gente ficar com pena e comprar as porcarias que vende...
Não respondia nada. Levantava a cabeça e batia no vidro da janela do próximo.
Hugo começou um choramingo. Com dificuldade conseguiu desabotoar a blusa e dar o peito a ele. Leite não tinha mais, mas servia para acalmar. Pronto, ficou quieto.
Não gostava de deixar o filho sozinho. Tinha medo de algum maldoso roubar. E havia motivos para pensar isso. No ano passado, uma vizinha foi ao mercadinho e deixou as duas filhas dormindo. Quando voltou, só encontrou uma. Está até hoje procurando. Todo mundo sabe que não vai achar, mas continuam rezando e pedindo.
Faltavam quatro pacotes para terminar. Resolveu ir embora, já se afastara demais. Quem sabe voltando vendia esses...
Em casa, percebeu que Hugo ainda sugava o peito. Beijou sua testa e o colocou na cama.
Tirou a roupa molhada e pôs sobre a cadeira. Sentou e contou o dinheiro. Não era muito, mas seria uma ajuda para o dia seguinte. Precisava de leite e feijão. Daria para comprar.
Puxou a coberta sobre o corpo e virou o rosto quase encostando ao do filho. Gostava de ficar olhando-o até que seus próprios olhos se fechassem
Tão bonito seu menino. E se dependesse dela, cresceria forte...
15-12-2010.