A gente faz o que precisa
candida 23/12/2010 00:56
A gente faz o que precisa                                                    Cândida Albernaz  A chuva caía há pelo menos duas horas. Conseguia ver de sua casa que o trânsito na estrada estava parado. Alguma desgraceira deve ter acontecido  Era sempre assim. Todo dia um acidente e alguns perto de onde morava.  Olhou o pacote de rosquinha em cima da pia. O dia havia sido ruim. Vendera pouco. Quando os carros ficavam mais tempo sem se mover no asfalto, sua chance de ganhar algum era maior. Pena que para isso acontecer, o pior ocorreu com alguém. A vida é assim e não adianta lamentar. Hoje são eles que morrem, amanhã pode ser ela ou o filho de fome.  Estavam só ela e a criança em casa, não tinha ninguém para ajudar. O sem-vergonha do marido, que era marido só no nome, porque não casaram de papel passado, se mandou com a caixa do supermercado. Quem criava o filho com o trabalho de faxineira e uns biscates era ela.   Hugo, que tinha o mesmo nome do pai, estava com três meses quando aconteceu. Passaram dois anos.  Olhou para a caminha onde estava enrolado no lençol, porque hoje o dia foi mais fresco. Pena de tirar ele dali com essa chuva... Mas não havia jeito. Precisava faturar um pouco mais e agora era a hora.  Se pudesse escolher, não faria isso. Ele saiu de uma gripe há duas semanas.  Observou de novo o lado de fora. Os carros continuavam parados e pelo que conhecia, demorariam a voltar a andar.  Colocou uma manta na cabeça dele e segurou-o no colo. Gemeu um pouco, resmungando pelo incômodo.  Afinal, onde deixou o raio do guarda-chuva? Embaixo da cadeira, claro. Foi Hugo quem brincou mais cedo e o colocou ali.  Chovia menos agora. Melhor ir logo se ainda queria trazer algum dinheiro para casa  Fechou a porta com cuidado sem fazer muito barulho. O pacote de rosquinha numa mão e o filho na outra. Ainda precisava equilibrar o guarda-chuva.  Andava tentando evitar a lama e os buracos. A última coisa que queria era cair e machucar seu menino.  Chegou ao asfalto e entre os carros oferecia o produto. Vendeu o primeiro, o segundo, venderia todos, tinha certeza. Aquela gente trancada em seu automóvel por tanto tempo queria alguma coisa para se distrair. E ela fazia isso. Ouviu alguns conselhos para voltar para casa e levar a criança, porque ele ia ficar doente. E outros comentários: essa aí traz o filho de propósito para a gente ficar com pena e comprar as porcarias que vende... Não respondia nada. Levantava a cabeça e batia no vidro da janela do próximo. Hugo começou um choramingo. Com dificuldade conseguiu desabotoar a blusa e dar o peito a ele. Leite não tinha mais, mas servia para acalmar. Pronto, ficou quieto. Não gostava de deixar o filho sozinho. Tinha medo de algum maldoso roubar. E havia motivos para pensar isso. No ano passado, uma vizinha foi ao mercadinho e deixou as duas filhas dormindo. Quando voltou, só encontrou uma. Está até hoje procurando. Todo mundo sabe que não vai achar, mas continuam rezando e pedindo.  Faltavam quatro pacotes para terminar. Resolveu ir embora, já se afastara demais. Quem sabe voltando vendia esses...  Em casa, percebeu que Hugo ainda sugava o peito. Beijou sua testa e o colocou na cama.  Tirou a roupa molhada e pôs sobre a cadeira. Sentou e contou o dinheiro. Não era muito, mas seria uma ajuda para o dia seguinte. Precisava de leite e feijão. Daria para comprar.  Puxou a coberta sobre o corpo e virou o rosto quase encostando ao do filho. Gostava de ficar olhando-o até que seus próprios olhos se fechassem  Tão bonito seu menino. E se dependesse dela, cresceria forte...          15-12-2010.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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