Amava aquele lugar
candida 25/11/2010 02:29
   Amava aquele lugar                                                                        Cândida Albernaz             Sentado na beira da estrada sobre a mochila gasta, olhava o asfalto quente como se dali fosse obter respostas. A camisa laranja contrastava com o verde do mato no acostamento. Precisava de uma carona, mas não me animava a pedi-la. Andei bastante. Estava tonto por tudo o que havia acontecido e o sol forte me cegava com tamanha claridade.             Abaixei a cabeça até o joelho passando as mãos nos cabelos pretos e cheios. Se pudesse me ver agora, notaria que dos olhos antes tão frios escorriam lágrimas, mas a dormência que me dominava não deixava perceber as coisas com clareza.             A casa construída na fazenda ficou uma bagunça. Amava aquele lugar. Nasci, cresci e casei-me naquela terra, assim como meu pai e meu avô. Trabalhamos ali por toda a vida.             As coisas começaram a dar errado desde o dia em que Lourival, com ares de cowboy e um cabelo louro ensebado, chegou à fazenda.             A princípio não percebi nada. Tornamos-nos amigos. Gostava do jeito dele, achava até engraçado. Dizia saber tudo, não havia assunto que não conhecesse ou história ouvida que já não tivesse vivido igual. Também não era um cara muito respeitoso com as mulheres. Costumava contar detalhes do que fazia com as meninas nos outros lugares onde trabalhou e quando íamos ao bar aos sábados, tinha sempre um comentário maldoso para cada mulher que passava. Até isso eu relevava porque sabia que a metade do que dizia era mentira e o achava uma criança.             Com o tempo, a maioria dos companheiros foi se afastando dele e eu me sentia meio que responsável pelo cara. Era jovem e trabalhava sob minhas ordens.             Passou a almoçar na minha casa aos domingos, quando a Nicinha, minha mulher, sempre preparava uma comida caprichada. Ela sabia que eu adorava pernil de porco com tutu e todo domingo arrumava a mesa na varanda onde costumava tomar umas cachacinhas com limão antes de me fartar de tanta comida. Então pedia licença e ia me deitar. Ela ficava arrumando a cozinha e depois se deitava manhosa ao meu lado, esfregando seu corpo no meu até que me deixasse aceso.             À noite sentávamos na escada da varanda e fazíamos planos para o futuro, quando viessem os filhos.             No primeiro domingo em que acordei e não vi Nicinha ao meu lado, estranhei. Fui até a sala e de lá vi os dois conversando na varanda. Ela sentada na cadeira de palha e Lourival em pé na escada. Sorriram para mim e ela:  “Acordou? O Lourival estava me contando umas histórias de quando era criança e já ri muito com ele”.  Não gostei no início, mas depois sentei ao lado de Nicinha e comecei a rir das histórias dele também. Quando percebemos, era noite. Lourival foi embora e eu e Nicinha entramos abraçados no quarto.             Alguns meses depois, percebi que havia um zum zum zum à minha volta. Sempre que me aproximava, a conversa morria. Aos sábados, Nilton e Tonho eram os únicos que continuavam bebendo comigo. E não tinha mais a desculpa de Lourival, porque me falou que estava cansado das caras feias que o pessoal fazia para ele e resolveu não freqüentar mais aquele bar. Passou a ir num  lugar ali por perto, onde tinha umas mulheres bonitas. Até me chamou para ir junto, mas expliquei que isso eu não fazia. Respeitava a minha Nicinha.             Uma noite, cheguei mais cedo no bar. Tinha combinado de jogar sinuca com Tonho e ele já devia estar esperando. Mal entrei, ouvi o nome da Nicinha. Cheguei perto deles que se calaram na hora. Tonho que estava no grupo veio até mim. “E aí? Vamos jogar?”.             “O que houve? Ouvi vocês falarem o nome da minha mulher”.             “Impressão sua, meu irmão”.             “Não foi impressão. Você é meu amigo. O que o nome da Nicinha está fazendo na boca desses caras? ’.             Notei que Tonho ficou nervoso. Carlão que ainda estava por perto: “Cadê seu amigo Lourival?”.             “Tá falando comigo, Carlão?”.             “Claro. Você é o único otário aqui que dá corda para um tipo daqueles”.             “O que Lourival tem a ver com isso? Vocês estavam falando da minha mulher”.             “Soma dois mais dois, meu chapa. Ficou burro de repente?”.             Olhei para Tonho que abaixou os olhos. Segurei no braço dele e o puxei até a porta.             “Fala. Prefiro saber por você. O que essa gente está comentando?”.             “Não sei direito, amigo”.             “Fala!”             Olhando-me firme.  “Dizem que o Lourival anda visitando a Nicinha todo sábado. Mas eles falam demais, você sabe”.             Não precisava ouvir mais nada. Cheguei a casa em poucos minutos. Ainda do lado de fora, arranjei calma não sei onde e entrei sem fazer ruído.             O barulho que vinha lá de dentro não necessitava de explicação. Peguei o facão pendurado na parede e fui para a porta do quarto. Minha cabeça pegava fogo e eles nem perceberam quando entrei. A minha Nicinha estava nua embaixo daquele moleque safado.  O sangue dele espirrou na minha cara me cegando um pouco. Limpei os olhos com as mãos e vi que ela estava em pé olhando para mim e pedindo desculpas. Seu corpo caiu sobre a cama depois do primeiro golpe. Vieram outros.             Quando Tonho chegou, colocou umas roupas na mochila que estava sobre o armário e me ajudou a tomar um banho.             “Some amigo. Vai para bem longe porque a polícia vai demorar a aparecer aqui”,             Não falei nada. Olhei em volta e vi minha casa toda suja daquele vermelho horrível.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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