Coleção
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Cândida Albernaz
- Sente o meu coração?
- Hum- hum.
- O que você acha?
- Normal.
- Normal, como? Não vê que está acelerado?
- Pode ser.
- Pode ser? Estou aqui me desmanchando por dentro e não percebe?
- Não seja boba, também estou feliz por estarmos aqui.
- Verdade?
- Hum-hum.
- Odeio quando faz isso.
- Isso o quê?
- Hum-hum. Tenho certeza de que não está prestando atenção no que estou falando.
- Claro que não. Agora só estou pensando em você. Não quer tirar a blusa?
- Agora por quê? Penso em você o tempo todo. Vê como é diferente?
- Ora, não seja boba. É só maneira de falar.
- Tá bom. Então diz que me ama.
- Te amo.
- Assim rápido não vale. Tem que falar direito.
- Te amoooo.
- Eu também te amo. Você me acha boba mesmo?
- Como assim? Não te acho boba coisa nenhuma. Venha cá, deite aqui ao meu lado e tire essa blusa. Está quente.
- Você falou duas vezes para eu parar de ser boba.
- Não foi com intenção. Deixe te abraçar, vai sentir como meu coração também está acelerado.
- Gosta de criança?
- Como?
- Quero saber se gosta de criança, se quer ter filhos um dia.
- Adoro criança, de preferência desligada, dormindo.
- Não pensa em ter filhos?
- Que conversa é essa? Vamos falar menos, quero sentir você. Nossa, que cheiro bom! Se pudesse não parava de te beijar.
- Ora, bobinho. É só querer me ver todo dia. Minha boca é só sua.
- Só a boca? Não percebe que quero você todinha?
- Não seja apressado.
- Deite aqui. Vê como é gostoso nós dois assim, coladinhos? Percebe como está o meu coração?
- Devagar, assim fico sufocada.
- Quero sufocar você, te deixar molinha e sem ar.
- Deus me livre!
- O que foi agora? Por que se levantou?
- Claro, está dizendo que quer me ver morta.
- Como assim morta?
- Sem ar, sufocada, molinha. Eu hein?
- Cansei. Acho melhor irmos embora.
- Ficou zangado comigo?
- Zangado? Não. Só acho melhor deixar para outro dia.
- Está zangado sim. Falou que íamos passar a tarde aqui para depois jantarmos.
- Você quer jantar?
- Claro, não foi o que combinamos?
- Você não me deixa chegar perto, não fica nem mesmo sentada, quanto mais deitada e agora quer jantar? Tá me achando com cara de otário?
- Se me convidou...
- Mas não te convidei apenas para jantar. E depois, não pára de falar um segundo. Nem gosto de mulher que fala tanto.
- Não gosta mais de mim.
- Gostar? Acho você muito gostosinha. Aliás, achava.
- Minha mãe tinha razão.
- O que sua mãe tem a ver com isso?
- Ela disse que você não era um cara para casar.
- Casar? Quem falou em casamento? Conheci você ontem.
- Faz um mês.
- Um mês, um ano, um dia. Dá no mesmo. E abotoe sua blusa direito, porque os botões estão trocados.
- Não quer mais me ver?
- Depende.
- De quê?
- Se você deitar aqui agora e fechar sua boquinha, vou pensar no assunto.
- Seu grosso!
- Vamos embora. Já paguei a conta e nem usei. Estou indo para o carro.
- Amor?
- O que é agora?!
- Posso levar o xampu e o sabonete que está no banheiro? É para minha coleção.
- ?!