Seguir em frente
candida 09/12/2010 04:02
Seguir em frente          Cândida Albernaz  Ela andava na rua e não percebia os rostos que se viravam para acompanhar seus movimentos. Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos. Pensava e quanto mais o fazia, percebia a proximidade cada vez maior de uma solução.  Tropeçou num desnível da calçada que não notara. Soltou um palavrão baixinho. Hábito antigo que não conseguira mudar. Xingava quando algo a irritava.  Queria chegar logo à casa. Infeliz idéia a sua quando resolveu caminhar até lá. O salto alto a cansava e o sol resolveu aparecer com força. Sentiu um fio de suor escorrendo entre os seios. Estava perto agora. Mais duas quadras e o ar condicionado a esperava depois de um banho.  Entrando em casa, tirou as sandálias e as deixou no corredor. O vestido que usava também ficou pelo caminho. Não gostava de bagunça, mas ansiava por uma ducha. Deixou que a água fria escorresse por seus cabelos e corpo. Precisava por ordem em seus pensamentos e no que queria.  Sabia que não havia outra decisão. Estavam juntos há dois anos, muito de suas coisas na casa dele e outras tantas dele na dela.  O início sempre é divertido, instigante no querer conhecer o outro e tranqüilo. Aliás, prezava demais esta palavra: tranquilidade. Precisava disso para viver, e não  possuía mais. Chegaram a um ponto em que estar junto se resumia a cobranças que ela fazia, e ironia, como ele respondia.  Soubera há dois meses que ele saíra com outra mulher. Conversaram e garantiu ter sido companhia para um jantar enquanto ela não estava na cidade. O peito doía de forma insuportável. Não imaginava que o amasse tanto e por isso, fingiu engolir. Claro que depois de uma discussão em que se ofenderam, ela chorou, gritou, e ele pediu “desculpa, não vai se repetir”.  Não foi o que aconteceu. Uma de suas amigas alertou “fez uma vez querida, e você perdoou tão fácil... Sinto dizer, vai repetir”. Ela tinha razão. Hoje viu os dois por acaso, quando foi deixar o carro para lavar. O idiota, porque na hora era o que ele parecia ser, estava saindo com o carro brilhando e a mesma mulher no banco do carona. Com certeza agora já a conhecia, porque procurou saber quem era, onde trabalhava, o salão que frequentava, o lugar onde morava. Ficha quase completa. Quase porque não tinha certeza de que estavam juntos ainda.  Tomou a resolução de não discutir mais nada.  Sairia de sua vida e o retiraria de dentro dela. Não sabia o tempo que ia precisar para isso, mas nada que a fizesse sentir tão mal poderia estar ao seu lado.  Era capaz de passar por cima dele, dela própria, ou de qualquer coisa para conseguir sobreviver longe do que não a fazia bem.  Fácil não seria, mas e daí? Também não estava sendo agora.  Não costumava voltar atrás em suas decisões, mesmo que doesse. Talvez ela não bastasse para ele, mas bastava-se para si mesma.  Olhou o relógio e viu que ainda era cedo. Ligou para uma de suas amigas. Pegariam juntas o carro e sairiam.  Precisava de olhos que a cercassem. Queria ver gente, ouvir música, rir. Lembrava agora... Há quanto tempo não ria com vontade?           5-12-2010.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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