Seguir em frente
Seguir em frente
Cândida Albernaz
Ela andava na rua e não percebia os rostos que se viravam para acompanhar seus movimentos. Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos. Pensava e quanto mais o fazia, percebia a proximidade cada vez maior de uma solução.
Tropeçou num desnível da calçada que não notara. Soltou um palavrão baixinho. Hábito antigo que não conseguira mudar. Xingava quando algo a irritava.
Queria chegar logo à casa. Infeliz idéia a sua quando resolveu caminhar até lá. O salto alto a cansava e o sol resolveu aparecer com força. Sentiu um fio de suor escorrendo entre os seios. Estava perto agora. Mais duas quadras e o ar condicionado a esperava depois de um banho.
Entrando em casa, tirou as sandálias e as deixou no corredor. O vestido que usava também ficou pelo caminho. Não gostava de bagunça, mas ansiava por uma ducha. Deixou que a água fria escorresse por seus cabelos e corpo. Precisava por ordem em seus pensamentos e no que queria.
Sabia que não havia outra decisão. Estavam juntos há dois anos, muito de suas coisas na casa dele e outras tantas dele na dela.
O início sempre é divertido, instigante no querer conhecer o outro e tranqüilo. Aliás, prezava demais esta palavra: tranquilidade. Precisava disso para viver, e não possuía mais. Chegaram a um ponto em que estar junto se resumia a cobranças que ela fazia, e ironia, como ele respondia.
Soubera há dois meses que ele saíra com outra mulher. Conversaram e garantiu ter sido companhia para um jantar enquanto ela não estava na cidade. O peito doía de forma insuportável. Não imaginava que o amasse tanto e por isso, fingiu engolir. Claro que depois de uma discussão em que se ofenderam, ela chorou, gritou, e ele pediu “desculpa, não vai se repetir”.
Não foi o que aconteceu. Uma de suas amigas alertou “fez uma vez querida, e você perdoou tão fácil... Sinto dizer, vai repetir”. Ela tinha razão. Hoje viu os dois por acaso, quando foi deixar o carro para lavar. O idiota, porque na hora era o que ele parecia ser, estava saindo com o carro brilhando e a mesma mulher no banco do carona. Com certeza agora já a conhecia, porque procurou saber quem era, onde trabalhava, o salão que frequentava, o lugar onde morava. Ficha quase completa. Quase porque não tinha certeza de que estavam juntos ainda.
Tomou a resolução de não discutir mais nada.
Sairia de sua vida e o retiraria de dentro dela. Não sabia o tempo que ia precisar para isso, mas nada que a fizesse sentir tão mal poderia estar ao seu lado.
Era capaz de passar por cima dele, dela própria, ou de qualquer coisa para conseguir sobreviver longe do que não a fazia bem.
Fácil não seria, mas e daí? Também não estava sendo agora.
Não costumava voltar atrás em suas decisões, mesmo que doesse. Talvez ela não bastasse para ele, mas bastava-se para si mesma.
Olhou o relógio e viu que ainda era cedo. Ligou para uma de suas amigas. Pegariam juntas o carro e sairiam.
Precisava de olhos que a cercassem. Queria ver gente, ouvir música, rir. Lembrava agora... Há quanto tempo não ria com vontade?
5-12-2010.