Retorno
candida 04/11/2010 00:05
Retorno          Cândida Albernaz  Quando abriu os olhos viu que o pai, debruçado sobre ela, a observava com preocupação. Tentou falar e ele sorriu vendo que estava bem.  Procurava colocar o pensamento em ordem, lembrar-se do que ocorrera.  Voltava para casa quando alguma coisa jogou-a longe.  Não estava muito certa sobre o que havia acontecido, mas recordava de uma moto.  Caminhava com pressa, queria chegar logo à casa. Chorava e a água em seus olhos atrapalhava sua visão.  Recordava de tudo agora. Olhou para o pai e pediu desculpas por deixá-lo apreensivo. Sentia-se bem, apenas um pouco de dor nos braços. Atravessou a rua sem reparar que vinha uma motocicleta e quando esta estava bem perto, jogou-se para o lado apoiando seu corpo com os braços na hora da queda. Ficaram arranhados e o peso em cima deles fez com permanecessem doloridos.  Em casa, deitou na cama do mesmo jeito que estava, sem mudar a roupa suja de terra ou limpar o sangue que escorrera. Precisava dormir, descansar a mente do pensar.  Deve ter apagado, porque não se lembrava de nada a partir dali.  O pai agora perguntava o que havia acontecido. Começou a falar sobre a moto, o asfalto onde caíra, e o sono pesado que a fizera dormir sem se trocar.  Não foi o suficiente para ele, mas pareceu se conformar. Pediu que deixasse ver o cotovelo sujo e sugeriu que tomasse um banho enquanto preparava um café para os dois.  Saiu do quarto deixando-a sozinha. No banheiro, em frente ao espelho, notou as pálpebras inchadas devido ao choro da noite anterior. No braço, sangue e poeira formaram uma casca em que não dava para medir o tamanho dos arranhões.  Ao reparar na mancha arroxeada no lado esquerdo da face, lágrimas começaram a escorrer novamente. Melhor mesmo entrar logo embaixo do chuveiro. O pai ainda não perguntara o que acontecera realmente e tinha certeza que o faria.  Os dois moravam sós desde que mãe se fora há dez anos. Ele sofreu muito lutando ao lado dela contra uma doença no coração que acabou vencendo-a. Viu o pai emagrecer, ganhar uma opacidade nos olhos que sumia apenas quando estavam juntos. Passaram a cuidar e proteger um ao outro.  Ela tinha treze anos na época e durante esse tempo foram ficando mais e mais unidos.  Quando conheceu Breno, o pai tentou alertá-la dizendo que não via na expressão daquele rapaz algo de bom. Insistiu e começou o namoro contra a vontade dele. Pensou que o ciúme por ver a filha com alguém falava mais alto.  O dia a dia mostrou que o humor de Breno oscilava nos extremos. Ela quase perdera o emprego quando, alcoolizado, resolveu tirar satisfações com um colega de trabalho, que julgava estar interessado nela.  Saíam e quase sempre costumavam discutir no caminho de volta. Nesses momentos mandava que ela descesse do carro, deixando que fosse a pé para casa. Chegando, encontrava o pai desperto lendo ou assistindo a algum filme. Conversavam um pouco antes de dormir. Ele desistira de aconselhar. Passado algum tempo, beijava sua testa e ia para o quarto. Muitas vezes ela permanecia acordada imaginando que o pai deveria ter se casado de novo. Era muito sozinho.  Hoje teria que dar explicação. O lugar onde recebera a bofetada inchara um pouco. Não era a primeira, mas decidiu que seria a última.  Sentado à sua frente ele serviu o café quente e perguntou se queria leite também. Respondeu que sim e quando foi pegar um pedaço de bolo, ele estendeu a mão e acariciou o lado dolorido de sua face. Pediu com os olhos que ela se poupasse. Desistira de opinar ou orientar. Tentara uma vez acertar as contas com Breno, mas a filha ficou sem falar com ele por dias. Disse então que aceitaria sua decisão, mostrou que ela era importante e pediu que pensasse o quanto  não merecia o que aquele homem estava oferecendo.  Agora o choro molhava o rosto dos dois, abraçou o pai e avisou que não aconteceria mais. Decidira que Breno não chegaria perto dela novamente.  Aquele antigo brilho que surge dos olhos de seu pai, ao estarem juntos, voltou a aparecer.  Tomaram o resto do café em silêncio, experimentando apenas a sensação de paz que invadira aquela sala.        2-11-2010.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS