Retorno
Retorno
Cândida Albernaz
Quando abriu os olhos viu que o pai, debruçado sobre ela, a observava com preocupação. Tentou falar e ele sorriu vendo que estava bem.
Procurava colocar o pensamento em ordem, lembrar-se do que ocorrera.
Voltava para casa quando alguma coisa jogou-a longe.
Não estava muito certa sobre o que havia acontecido, mas recordava de uma moto.
Caminhava com pressa, queria chegar logo à casa. Chorava e a água em seus olhos atrapalhava sua visão.
Recordava de tudo agora. Olhou para o pai e pediu desculpas por deixá-lo apreensivo. Sentia-se bem, apenas um pouco de dor nos braços. Atravessou a rua sem reparar que vinha uma motocicleta e quando esta estava bem perto, jogou-se para o lado apoiando seu corpo com os braços na hora da queda. Ficaram arranhados e o peso em cima deles fez com permanecessem doloridos.
Em casa, deitou na cama do mesmo jeito que estava, sem mudar a roupa suja de terra ou limpar o sangue que escorrera. Precisava dormir, descansar a mente do pensar.
Deve ter apagado, porque não se lembrava de nada a partir dali.
O pai agora perguntava o que havia acontecido. Começou a falar sobre a moto, o asfalto onde caíra, e o sono pesado que a fizera dormir sem se trocar.
Não foi o suficiente para ele, mas pareceu se conformar. Pediu que deixasse ver o cotovelo sujo e sugeriu que tomasse um banho enquanto preparava um café para os dois.
Saiu do quarto deixando-a sozinha. No banheiro, em frente ao espelho, notou as pálpebras inchadas devido ao choro da noite anterior. No braço, sangue e poeira formaram uma casca em que não dava para medir o tamanho dos arranhões.
Ao reparar na mancha arroxeada no lado esquerdo da face, lágrimas começaram a escorrer novamente. Melhor mesmo entrar logo embaixo do chuveiro. O pai ainda não perguntara o que acontecera realmente e tinha certeza que o faria.
Os dois moravam sós desde que mãe se fora há dez anos. Ele sofreu muito lutando ao lado dela contra uma doença no coração que acabou vencendo-a. Viu o pai emagrecer, ganhar uma opacidade nos olhos que sumia apenas quando estavam juntos. Passaram a cuidar e proteger um ao outro.
Ela tinha treze anos na época e durante esse tempo foram ficando mais e mais unidos.
Quando conheceu Breno, o pai tentou alertá-la dizendo que não via na expressão daquele rapaz algo de bom. Insistiu e começou o namoro contra a vontade dele. Pensou que o ciúme por ver a filha com alguém falava mais alto.
O dia a dia mostrou que o humor de Breno oscilava nos extremos.
Ela quase perdera o emprego quando, alcoolizado, resolveu tirar satisfações com um colega de trabalho, que julgava estar interessado nela.
Saíam e quase sempre costumavam discutir no caminho de volta. Nesses momentos mandava que ela descesse do carro, deixando que fosse a pé para casa. Chegando, encontrava o pai desperto lendo ou assistindo a algum filme. Conversavam um pouco antes de dormir. Ele desistira de aconselhar. Passado algum tempo, beijava sua testa e ia para o quarto. Muitas vezes ela permanecia acordada imaginando que o pai deveria ter se casado de novo. Era muito sozinho.
Hoje teria que dar explicação. O lugar onde recebera a bofetada inchara um pouco. Não era a primeira, mas decidiu que seria a última.
Sentado à sua frente ele serviu o café quente e perguntou se queria leite também. Respondeu que sim e quando foi pegar um pedaço de bolo, ele estendeu a mão e acariciou o lado dolorido de sua face. Pediu com os olhos que ela se poupasse.
Desistira de opinar ou orientar. Tentara uma vez acertar as contas com Breno, mas a filha ficou sem falar com ele por dias. Disse então que aceitaria sua decisão, mostrou que ela era importante e pediu que pensasse o quanto não merecia o que aquele homem estava oferecendo.
Agora o choro molhava o rosto dos dois, abraçou o pai e avisou que não aconteceria mais. Decidira que Breno não chegaria perto dela novamente.
Aquele antigo brilho que surge dos olhos de seu pai, ao estarem juntos, voltou a aparecer.
Tomaram o resto do café em silêncio, experimentando apenas a sensação de paz que invadira aquela sala.
2-11-2010.