Futebol e amigos são sagrados
candida 17/12/2010 02:36
Amigos e futebol são sagrados Cândida Albernaz - Você vive repetindo isso. - E acha que não tenho coragem? - Não sei se tem ou não. Mas qualquer hora dessas eu também desisto. - Demorou! - Sei que fala da boca para fora. Não é o que realmente quer. - Do jeito que está não dá. - Que jeito? - Brigamos o tempo todo. - Brigamos, não. Você reclama o tempo todo. E mesmo que tente agradar, não consigo. - Tá... Jogando futebol toda quarta-feira, assistindo futebol toda semana, saindo com os amigos para encher a cara... - Então não posso mais sair com os amigos nem torcer pelo meu time. - Claro que pode, mas não no fim de semana, quando podemos ficar mais tempo juntos. - E você, que aos domingos quer ir para a casa de sua mãe? Sabe que ela não vai com a minha cara. - Que é isso? Minha mãe sempre tenta agradar você. - Me serve cerveja quente... - Coitada, é que não bebe e não entende da temperatura ideal. - ... fala mal do Flamengo... - Só para implicar, é uma forma de brincar. - ... e quando tem jogo e estamos na casa dela, sempre arruma um jeito de pedir para consertar algo. - Poxa, José Antônio, ela é sózinha... - Mas tem que ser na hora em que sento em frente à televisão? - Precisa de nós. - Pensa que não vi da última vez o sorrisinho dela quando o time perdeu? - Não entende do assunto... - E ofereceu uma cervejinha para brindar o jogo. Brindar o quê? - Quis agradar. - Não volto lá tão cedo. - Tá vendo como você é? Só tenho minha mãe e não tem paciência nenhuma com ela. - Está certo, mas ela não-é-minha-mãe-é-minha-sogra-que-me-sacaneia. - Seu grosso! - Você tem que estar com ela, não eu. - Não vou abandonar mãe por sua causa. - Não estou pedindo isso. Só não quero passar meu domingo tentando fingir que não vejo o que ela faz comigo. - Viu só? - Então você quer me deixar porque não quero ir à casa de sua mãe. - Não é só isso. - O que mais eu fiz? - Quase não saímos. Quer dizer, eu não saio, porque você todas as sextas vai para a rua com seus amiguinhos. - Quer que pare de ver meus amigos também? - Quero que saia comigo. - E você não pode escolher outro dia da semana? - Posso, mas sempre diz que está cansado. - Trabalho como um condenado! - Tem que ter um tempo para mim. - E eu não tenho? Sábado mesmo trouxe umas iscas e umas bebidinhas para nós dois ficarmos vendo tv abraçadinhos. - Futebol, João Antônio! Fu-te-bol! - Era uma partida importante. - Não quero mais conversar. - Não faz isso, vem cá. - ... - Vivo trazendo presentes para você e nem dá valor. - Que presentes? A geladeira que comprou porque a nossa deu defeito? - E o ar condicionado da sala também, você queria tanto. - E isso é presente? - Não é? - Não banque o espertinho, João Antônio. - Custou uma grana! O que queria? - Poderia ser um anel? Um vestido novo? Um perfume? - Vamos fazer as pazes, sabe que não vivo sem você. E não faz essa cara de brava porque também me ama. - Amo, mas não devia. - Vem cá, vamos sair no sábado para jantar e levo aonde quiser. - Promete? - Prometo tudo. Gosto desse seu cheiro... Mais pertinho, vem. - E vai me dar um presente direito? - O que escolher. Esse seu beijo me mata. Ô boca gostosa! - João Antônio... - Vamos conversar mais tarde... - Domingo vai à casa de mamãe? - Começando a pedir demais. - Então chega desse chamego comigo. - Ei! Agora não. Vem aqui, vou no domingo, na segunda, na terça, todos os dias à casa de sua mãe... - Ai, amor... - Mas na hora do jogo a leva para o quarto, combinado? - Jogo, amor? - É, vai ter um jogão nesse domingo, não quero perder. - Tem um probleminha. - Deixa para depois, faz aquele amorzinho que eu gosto, faz... - A televisão de mamãe... - O que tem? - Não está funcionando. - Manda consertar. - Já tentou. Só comprando outra. - Então compra! Mais um beijinho... - Está sem dinheiro. - E... - Falou que a gente podia dar uma de presente para ela. - Mas foi você quem falou que geladeira, fogão, televisão, ar, não é presente. - Mas para a mãe... - Vamos fazer uma coisa. Você vai para a casa de sua mãe, eu assisto ao jogo aqui e segunda conversamos de novo. Agora não dá mais tempo de nada... - Como assim? - Esqueceu que hoje é sexta? - João Antônio!         14/12/2010.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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