Futebol e amigos são sagrados
Amigos e futebol são sagrados
Cândida Albernaz
- Você vive repetindo isso.
- E acha que não tenho coragem?
- Não sei se tem ou não. Mas qualquer hora dessas eu também desisto.
- Demorou!
- Sei que fala da boca para fora. Não é o que realmente quer.
- Do jeito que está não dá.
- Que jeito?
- Brigamos o tempo todo.
- Brigamos, não. Você reclama o tempo todo. E mesmo que tente agradar, não consigo.
- Tá... Jogando futebol toda quarta-feira, assistindo futebol toda semana, saindo com os amigos para encher a cara...
- Então não posso mais sair com os amigos nem torcer pelo meu time.
- Claro que pode, mas não no fim de semana, quando podemos ficar mais tempo juntos.
- E você, que aos domingos quer ir para a casa de sua mãe? Sabe que ela não vai com a minha cara.
- Que é isso? Minha mãe sempre tenta agradar você.
- Me serve cerveja quente...
- Coitada, é que não bebe e não entende da temperatura ideal.
- ... fala mal do Flamengo...
- Só para implicar, é uma forma de brincar.
- ... e quando tem jogo e estamos na casa dela, sempre arruma um jeito de pedir para consertar algo.
- Poxa, José Antônio, ela é sózinha...
- Mas tem que ser na hora em que sento em frente à televisão?
- Precisa de nós.
- Pensa que não vi da última vez o sorrisinho dela quando o time perdeu?
- Não entende do assunto...
- E ofereceu uma cervejinha para brindar o jogo. Brindar o quê?
- Quis agradar.
- Não volto lá tão cedo.
- Tá vendo como você é? Só tenho minha mãe e não tem paciência nenhuma com ela.
- Está certo, mas ela não-é-minha-mãe-é-minha-sogra-que-me-sacaneia.
- Seu grosso!
- Você tem que estar com ela, não eu.
- Não vou abandonar mãe por sua causa.
- Não estou pedindo isso. Só não quero passar meu domingo tentando fingir que não vejo o que ela faz comigo.
- Viu só?
- Então você quer me deixar porque não quero ir à casa de sua mãe.
- Não é só isso.
- O que mais eu fiz?
- Quase não saímos. Quer dizer, eu não saio, porque você todas as sextas vai para a rua com seus amiguinhos.
- Quer que pare de ver meus amigos também?
- Quero que saia comigo.
- E você não pode escolher outro dia da semana?
- Posso, mas sempre diz que está cansado.
- Trabalho como um condenado!
- Tem que ter um tempo para mim.
- E eu não tenho? Sábado mesmo trouxe umas iscas e umas bebidinhas para nós dois ficarmos vendo tv abraçadinhos.
- Futebol, João Antônio! Fu-te-bol!
- Era uma partida importante.
- Não quero mais conversar.
- Não faz isso, vem cá.
- ...
- Vivo trazendo presentes para você e nem dá valor.
- Que presentes? A geladeira que comprou porque a nossa deu defeito?
- E o ar condicionado da sala também, você queria tanto.
- E isso é presente?
- Não é?
- Não banque o espertinho, João Antônio.
- Custou uma grana! O que queria?
- Poderia ser um anel? Um vestido novo? Um perfume?
- Vamos fazer as pazes, sabe que não vivo sem você. E não faz essa cara de brava porque também me ama.
- Amo, mas não devia.
- Vem cá, vamos sair no sábado para jantar e levo aonde quiser.
- Promete?
- Prometo tudo. Gosto desse seu cheiro... Mais pertinho, vem.
- E vai me dar um presente direito?
- O que escolher. Esse seu beijo me mata. Ô boca gostosa!
- João Antônio...
- Vamos conversar mais tarde...
- Domingo vai à casa de mamãe?
- Começando a pedir demais.
- Então chega desse chamego comigo.
- Ei! Agora não. Vem aqui, vou no domingo, na segunda, na terça, todos os dias à casa de sua mãe...
- Ai, amor...
- Mas na hora do jogo a leva para o quarto, combinado?
- Jogo, amor?
- É, vai ter um jogão nesse domingo, não quero perder.
- Tem um probleminha.
- Deixa para depois, faz aquele amorzinho que eu gosto, faz...
- A televisão de mamãe...
- O que tem?
- Não está funcionando.
- Manda consertar.
- Já tentou. Só comprando outra.
- Então compra! Mais um beijinho...
- Está sem dinheiro.
- E...
- Falou que a gente podia dar uma de presente para ela.
- Mas foi você quem falou que geladeira, fogão, televisão, ar, não é presente.
- Mas para a mãe...
- Vamos fazer uma coisa. Você vai para a casa de sua mãe, eu assisto ao jogo aqui e segunda conversamos de novo. Agora não dá mais tempo de nada...
- Como assim?
- Esqueceu que hoje é sexta?
- João Antônio!
14/12/2010.