Uma pequena lembrança
21/01/2017 | 18h47
Uma pequena lembrança Cândida Albernaz   Eu a segurava com cuidado no caminho do banheiro até o quarto. O corpo muito branco e macio era pesado, porque simplesmente não conseguia sustentá-lo sozinha. Membros inchados e frágeis. Colocava-a sentada na beirada da cama enquanto enxugava suas pernas. Os pés precisavam de um cuidado especial. Dedo por dedo até que não sobrasse qualquer umidade, caso contrário dizia que ficavam feridos. Como eu. Como minha filha. Costumava colocar a mão em minha cabeça para se apoiar. Ajoelhada à sua frente cuidava de secar cada parte de seu corpo enfraquecido. Nunca comentei que aquele gesto, jogando um tanto de seu peso, me incomodava. Manias antigas com um cabelo que nunca obedecia a desejos. Durante o banho avisava como em outras vezes, que era necessário tirar todo o sabonete. Está bom?, nunca estava. Ainda preciso de mais água no pescoço, ou embaixo do braço, ou. Sabia que o momento de lavar a cabeça era o que mais gostava. Levantava o rosto em direção ao chuveiro e deixava que encharcasse com vontade, retirando o cabelo de sobre a testa. Acho que acabamos, eu tentava. Não seja impaciente. Esfregue minhas costas um pouco mais acima. Então buscava a calma que nunca tive e ria satisfazendo todas as suas poucas vontades. Quando já perfumada e vestida, me pedia o batom que fazia questão de usar nos lábios finos e rosados.  Dirigia-se novamente a mim e indagava se estava correto. Não enxergava o suficiente para confiar no espelho que eu segurava. Ajeitava os travesseiros para que se recostasse e puxava o lençol branco estampado com pequenas flores, até a cintura. Sentia mais frio do que a temperatura exigia. Em alguns dias melhores, segurava o prato na direção de seu colo, para que ela mesma pudesse colocar cada garfada de comida na boca. Não havia uma vez em que deixasse de reclamar da falta de sal e gosto do alimento que lhe era oferecido. A apresentação do prato, com legumes coloridos, não condizia com o sabor. Ruim, eu provara. Pedia cachorro quente quando estava mais animada. Adorava. Mas não pode comer carne!, e então satisfazia-se com o pão francês e o molho de tomate cheio de cebola e pimentão cortados em grandes pedaços. A refeição da tarde que mais apreciava. Os olhos entre o mel e o verde, estes obedeciam na cor, ao humor que vivia no momento, permaneciam opacos na maior parte do tempo. Brilhavam quando conseguia reunir os filhos ou parte deles à sua volta. Então ouvia cada um como se bebesse as palavras. Ria nossos risos como se fossem seus. Para ela, bastava o que sentíamos. Abdicava de qualquer sentimento próprio para viver o nosso. Lembro quando, me olhando nos olhos, meses depois, avisou que não aguentava mais. Pediu que a internássemos, o que sempre lutara contra. Nem mesmo assim consegui ver fraqueza ou desistência. Firme, demonstrava uma força que parecia não possuir. Naquele instante, soube que estava indo. 8/5/2012.
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Lembranças que vêm da alma
21/01/2017 | 18h47
Lembranças que vêm da alma Cândida Albernaz   Lembra quando ainda jovens gostávamos de andar de mãos dadas, pressionando os dedos com força a cada vez que nos olhávamos? Hoje ainda sinto o cheiro da loção que usava. Basta que feche os olhos trazendo sua imagem de quando, ao passar as mãos nos cabelos, me fazia desejar que elas estivessem em meu corpo. Na gaveta de papéis onde se misturam fotos, cartas, documentos, receitas médicas e bulas, é que se encontra o meu bem mais precioso: a foto que tiramos num entardecer na praia em que seu braço enlaçava meu ombro. Nos olhos vinha refletido o instante em que eu sentia que ser feliz podia ser só aquele momento. Nada mais era preciso. No verso da foto, com minha letra e datado, o resumo do que sentia “Um instante, mesmo que perdido no tempo, guardado na alma para sempre”. Não chegou a ver esta foto revelada. Foi embora no dia seguinte em que a tiramos. Posso guardá-la ao lado da cama, pois Miguel se foi há alguns anos. Vivia dizendo que “há alguma coisa em você que me foge, mas sei que me ama e eu a amo também, querida”. O que lhe fugia era minha alma que nunca entreguei, porque já estava presa a outro. Mas meu amor ele sempre teve. Até o final. Às vezes penso em como teria sido a vida se a tivesse vivido com você. Sei que a rotina costuma esfarelar o que sentimos, mas sei também que se soubermos aproveitar, a convivência pode nos trazer o prazer de ver no outro as experiências por nós vividas. Gostaria de ter tido um filho com você, para que através dele eu o visse outra vez. Miguel não pôde me dar filhos. Muitas vezes se culpou por isso, mas não dei importância de fato. Vivo sozinha, mas uma jovem, em dias alternados, vem ajudar. Tremo muito e nem sempre consigo fazer o que preciso. Talvez um dia ela chegue e me encontre dormindo para nunca mais. Não vai ser assim. Tenho certeza que ainda viverei muito tempo com a solidão carregada de você. Ainda bem. Agora que não preciso mais cuidar de Miguel e tentar fazê-lo feliz por todos os seus dias, posso me entregar à minha alma. Não sei se vive. Nem quero saber. Para mim, seus olhos ainda carregam os reflexos da juventude. Os cabelos são negros e cheios. O corpo ainda possui os músculos e a maciez de outrora. E sua boca... ah! sua boca ainda preenche a minha quando fecho os olhos fazendo querer mais e mais. Algumas vezes, lágrimas caem quando penso em você, mas não as troco por nada. Sinto até o gosto salgado, quando escorrem por minha face e entram nos lábios. As absorvo como se sua saliva fosse. Acho que foi melhor não nos termos visto de novo, assim posso imaginar que para você também eu fui importante. Quem sabe se tivéssemos nos encontrado depois de tanto tempo e enxergasse em seu olhar o vazio de quem não mais amava? Quando a garota chega, não consigo ter esta paz. Ela pensa que me sinto só e puxa conversa tentando agradar. Não sabe que a única coisa que espero ansiosa é a hora em que se vai, para que fique com as fotos, as cartas, seus beijos e seus braços que sinto me abraçar toda vez em que deito para dormir. Esta noite estou mais trêmula. Quase quebro a xícara que coloco ao lado da para que tomemos o café juntos antes de dormir. Vou deitar mais cedo. Sinto precisar que você me abrace forte para que pare de tremer.
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Ela seria sua garota
21/01/2017 | 18h47
Ela seria sua garota Cândida Albernaz   - Sabe o que Farinha disse? Vai dar um jeito em você. Limpava a moto e fingia não prestar atenção - Não tem medo? Viu o que ele fez com Bolão? O cara quase morreu com tanta comida que Farinha obrigou ele engolir. Agora sim, a máquina brilhava e parecia saída da loja. Estava doido para testar o motor que trocou. Tinha o maior carinho com a moto. - Foi engraçado. Aquela panela enorme de canjica e Bolão mal podendo respirar entre uma colherada e outra. Até que o Farinha tem senso de humor. Se Bolão gosta de comer, então que coma até morrer. Rimou, cara! Tô virando poeta. Pronto! Estava perfeita. Ia buscar Tayane e dar uma volta com ela. Queria ver a cara de satisfação quando chegasse para pegá-la. Fez pouco dele na frente de Antônio semana passada. O idiota estava tentando roubar sua garota. Quer dizer, ela ainda não era sua garota, mas seria e todo mundo sabe que ele é gamado nela há anos. - Vou embora porque você não quer me dar assunto. Não vá dizer que não avisei. Sou seu brother, mas com relação ao Farinha, nem te conheço. Quando olhou para trás viu que o amigo tinha saído. Sabia do que Farinha era capaz, e depois, ele não teve culpa, o cara tinha que entender. Não queria pensar nisso. Agora só a moto e Tayane, as duas coisas mais importantes de sua vida. Fechou a oficina mais cedo. Subiria para tomar banho e se encheria de perfume. Hoje ele definiria a vida. Pensava até em casar. Ela não sabia disso, mas no próximo mês compraria um anel. Anel de compromisso, porque ele queria fazer as coisas direito. Chegou a pensar nos nomes dos filhos, claro, com a aprovação dela. E a profissão do mais velho estava decidida, seria jogador de futebol. A da menina, Tayane escolheria. Esse chuveiro vive com problema, cai pouca água. No final de semana daria um jeito. Agora sim, limpo e cheiroso para ela. Desceu as escadas com orgulho. A moto estava ali, pronta para rodar em alta velocidade. Só havia um problema, Farinha estava sentado nela. - Passe a chave. - O que é isso, cara? Estou de saída. - Tá nada. Vamos ter uma conversinha. - Farinha, eu disse que não tenho nada com sua mulher. - Não foi o que eu soube. - Gosto da minha e depois, não ia mexer com o que é dos outros. - E o que ela estava fazendo aqui no outro dia? - Pergunte a ela. Não convidei ninguém pra entrar. Inclusive mandei que fosse embora. - Com ela já me entendi e tenho certeza de que nunca mais dá corda pra nenhum mané. - Estou de saída e nunca olhei duas vezes pra sua mulher. - Pra mim, basta uma. - Ei! O que você está fazendo? Porra, cara, rasgou o pneu com a faca? Acabei de reformar a moto toda. - E que tal isso? A pintura agora possuía riscos, enquanto o pneu arriava. Avançou para cima de Farinha. - Quer a faca? Então, toma. Sentiu a estocada na barriga. Quando tentou segurar a mão dele, percebeu que o peito era atingido. Olhou para baixo, a camisa branca estava manchada. Caiu no chão enquanto ouviu um motor ser ligado e o barulho da moto batendo na parede. Tanto trabalho para nada. Demoraria a conseguir reformá-la de novo. Os olhos estavam ficando pesados. Na esquina, Antônio parou a bicicleta e Tayana subiu atrás. Enlaçava a cintura dele com força, enquanto encostava a cabeça em suas costas, sentindo o cheiro daquele homem que a deixava louca.  
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Foi na virada do ano
21/01/2017 | 18h47
    Foi na virada do ano Cândida Albernaz Ontem pensei em desistir. Carolina segurava com as duas mãos a rede em que eu estava e puxava para bem perto dela, até que soltava. O balanço me fazia rir e pedia que ela empurrasse mais e mais rápido. Quando cansava, fixava em mim os olhos imensos como duas jabuticabas brilhantes. Eu tentava apertar sua mão com um olhar sério e diferente do garoto brincalhão. Ela se encolhia e puxando a mão, corria gritando para que a pegasse. Voltava à criança que realmente era até que, se tivesse sorte, conseguia jogá-la no chão e cobrir seu corpo com o meu. Carolina então parava de rir e dizia que a brincadeira havia terminado. Obediente, me levantava e deixava que fosse para casa. No dia seguinte, sabia que esqueceria e voltaria a me procurar.   Ontem pensei em desistir. O tempo das brincadeiras infantis havia passado. Às voltas com livros e cadernos, sempre que podia, pedia que Carolina me ajudasse. Tinha dificuldade em algumas matérias e ela era ótima em todas. Às vezes, sua mãe entrava na sala trazendo uns sanduíches para comermos. Então rapidamente eu retirava minha perna, que fazia pressão na dela. Quando dona Cecília saía, me mexia na cadeira, até que encontrava o melhor jeito de voltar à posição anterior. Carolina fingia não perceber, mas quando pressionava mais forte, a caneta tremia em suas mãos. Eu abaixava a cabeça e sorria.   Ontem pensei em desistir. Durante o período da faculdade, saí com algumas garotas enquanto Carolina namorava firme um amigo meu. Eu os apresentei e dei força para que ficassem juntos. Todos diziam que os dois haviam sido feitos um para o outro. Dona Cecília mimava o rapaz e o tratava como filho. Ninguém entendeu quando durante as festas de fim de ano, ela acabou com aquele namoro. Meu amigo chorava como criança ao meu lado, perguntando o que poderia ter acontecido para que sua garota mudasse de idéia de repente. Eu o consolei como pude. Na mesma noite procurei Carolina e antes que falasse qualquer coisa, num canto da varanda, a beijei. Da mesma forma que fizera dois dias atrás, cinco minutos antes da virada do ano, sem que ninguém, menos ainda meu amigo, pudesse ver.   Ontem pensei em desistir. Do carro, não sobrou nada. Disseram que tive sorte por escapar vivo. Não sei bem o sentido da palavra sorte. Fiquei em coma por muitos dias e quando me deram alta, voltei para casa numa cadeira de rodas. Não sabem quando volto a andar. Não sabem se volto a andar. Passou um ano desde o dia do acidente. Ainda sinto fortes dores e uso a cadeira. “Não houve muito progresso no seu quadro, tem que ser esforçar mais”. Carolina entra na sala e pergunta se preciso de alguma coisa. Digo que preciso dela. Aproxima-se e senta sobre minhas pernas. Pena não sentir seu corpo. Passa as mãos em meus cabelos e brinca que estou ficando careca. Olho em seus olhos de jabuticaba e vejo que ainda me ama. Começa a falar de nossos filhos e da dificuldade do mais novo com seus relacionamentos com as garotas. Damos risada e antes de se levantar, me beija. Sinto o gosto daquele reveillon de trinta anos atrás. Pede que faça os exercícios de que preciso e deixe de ser malandro, porque a recuperação depende de mim. Mais um beijo e se levanta. Vai verificar se o almoço está pronto para ser servido.   Não vou desistir nunca. 5/10/2008.
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E se não mudasse?
21/01/2017 | 18h47
E se não mudasse? Cândida Albernaz A blusa vermelha de mangas curtas marcava em seu corpo o que preferia que não notassem. O movimento estava fraco. Culpa da greve que deixou os ônibus parados. Foi difícil ir para o serviço. E mais caro também. Todos se aproveitam de alguma forma. O chefe reclamou porque chegou quinze minutos atrasada. Teve vontade de apertar o pescoço dele. Não era para matar não. Só para aliviar um pouco a raiva. Saiu na noite anterior e voltou tarde. Brigou com Jorge Luis e foi dormir chorando. Resultado: cara inchada. Já não tem se sentido a mais linda das mulheres ultimamente, e ainda por cima chora até ficar deformada? Nem era tanto por ele, que não merece faz tempo. O desabafo foi por si mesma. Enjoada da vida, com o trabalho de caixa do supermercado, sem esperança de melhorar. Estava estudando, é verdade. Faculdade de enfermagem, mas sabia que era difícil conseguir emprego depois. Mais dois períodos e estaria formada. E sem pistolão algum. Ô vida! Engordara no último ano e nenhuma roupa parecia ficar bem. Aliás, Jorge Luis também. A barriga chegava antes dele nos lugares. Enchia-se de cerveja quase todo dia. Ela não bebia. Nada. Mas comia com gosto. Ansiedade, as amigas falavam. Pura verdade. Queria terminar aquele namoro que já durava seis anos e não conseguia. Tinha medo. De ficar sozinha, de nenhum homem gostar dela, de não ter ninguém para consertar a torneira da pia que vivia vazando... Sabia que podia se esforçar um tantinho e emagrecer também. Quem sabe acordar uma hora mais cedo e caminhar? Que preguiça sentia... Há dois anos fez aulas de dança. Adorava. Mas Jorge Luis invocou com seu parceiro e teve que parar. Chamou para que fosse com ela e respondeu que não levava jeito para a coisa. Sabia bem para o que ele tinha jeito! Encostar-se num bar, beber todas e olhar as garotas que desfilavam por lá. Cansada, cansada, cansada. De Jorge Luis, do supermercado, do chefe, do excesso de gordura, dela própria, do que via em frente ao espelho e dessa vontade de nada que sentia. Precisava de mudanças ou ficaria velha muito cedo. Tomou uma decisão. Aliás, algumas. Em casa, esvaziaria a geladeira de tudo o que não fizesse bem. Alimentação saudável a partir de hoje. Ou amanhã. O que sobrou da torta de morango não jogaria fora nem daria a ninguém. Foi tão caro naquela loja de doces... A caixa de bombons que o namorado deu a ela antes de brigarem entregaria nas mãos da vizinha para a filha dela. Tiraria alguns antes.  Aqueles de que gostava mais. Afinal de contas, nada de radicalismo, porque não seria bom. E quanto ao Jorge Luis, teria uma conversa definitiva com ele. Aceitaria suas aulas de dança... Ou aceitaria. Sem negociação. Talvez fosse melhor que se vissem menos. Brigavam por tudo. Ele não era um cara ruim. Só bebia demais, gostava dos amigos demais, se engraçava para mulheres demais, saía com ela de menos, e pensando bem, estavam fazendo amor de menos também. Não sabia se haveria solução para os dois. Falaria seriamente com ele. A última vez. Penúltima? Para que ele tivesse tempo de se adaptar às suas exigências. Dia exaustivo esse. Tanta gente disputando vans. Mesmo assim, conseguiu chegar à casa. Tomaria uma ducha rezando para que a água se mantivesse morna. O chuveiro estava com problemas. No meio do banho, a água ficava gelada. Sempre dá um grito quando acontece. Precisa pedir a Jorge Luis para dar uma olhada. Pegou logo os bombons para entregar ao lado. Tocou a campainha da casa. Uma, duas, três vezes. Nada. Acho que devo experimentar um. - Nem acredito como é bom! Vou esperar, porque elas devem estar chegando. Mais unzinho. - Bom! Não sei se é uma boa idéia dar esse presente para uma criança. Doce estraga os dentes. Só mais um... Estão demorando. Foi para o banheiro e até que acabasse decidiria o que fazer. Enquanto tirava a roupa, resolveu provar  outro. Louca por chocolate... 17-04-2012  
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O colecionador
21/01/2017 | 18h47
  O Colecionador Cândida Albernaz   Costumava chegar a casa no mesmo horário todos os dias. Almoçava com os filhos e a mulher a comida que fazia questão ser saudável. No escritório, um café bem forte e um copo de água gelada eram depositados em sua mesa cinco minutos depois que entrava. A secretária, desde o dia em que começara a trabalhar com ele fora orientada sobre hábitos e horários. Não gostava de mudá-los nem admitia que alguém o fizesse. Com uma pasta, onde guardava tesouros que imaginava possuir, caminhava pelo corredor da empresa cumprimentando funcionários com um movimento da cabeça. Todos o respeitavam e estranhavam. Com estatura alta e corpo magro, mantinha os ombros encurvados, como se o peso do objeto que carregava fosse muito grande. Não era de muita conversa e se alguém viesse com um assunto que não o interessava, olhava com tamanho desdém que o outro se sentia constrangido, desistindo de levar a conversa adiante. Em casa não era muito diferente disso. Deixava a mulher dormindo, e quando esta levantava, a mesa estava arrumada, o jornal ao lado da xícara e a televisão ligada, pois gostava de saber sobre o tempo antes de sair de casa. Acordava-a quinze minutos antes de ir para o trabalho para que tomassem café juntos. Mal tirava os olhos das notícias que lia rapidamente. Ao sair, encostava a boca em sua testa e dizia que estaria de volta para o almoço que era servido invariavelmente à uma hora. Sentado à mesa na firma, separava o que seria importante resolver pela manhã. Trabalhava em uma construtora bem sucedida. Apesar de reservado e ter dificuldade em se comunicar, mente e mãos criavam prédios de fácil aceitação para venda. O que mais chamava atenção em sua figura, era a pasta que segurava todo o tempo e da qual não desgrudava para nada. Os comentários eram diversos, desde que ali havia dinheiro, jóias, documentos, até fotos comprometedoras. Depois do jantar servido às dezenove horas, tinha o costume de sair para dar uma volta. A mulher desfazia a mesa onde jantavam e olhava-o ir para a rua. Voltava meia hora depois quando então assistiam algum programa na televisão juntos. Pelo menos duas vezes ao mês, ele se demorava mais no seu passeio, só voltando às 22 horas. Nesses dias depois de apanhar a pasta, ele caminhava ao longo da rua, entrava em um ônibus, descia em algum ponto, onde pegava outro. Gostava de fazer sempre percursos diferentes. Pensava que era sorte morar numa cidade grande onde poderia variar os lugares que frequentava.   *                                                        *                         * Entrou por uma porta estreita, de onde se via a escada, que uma lâmpada mal iluminava. Enquanto subia, reparava na sujeira à volta. As paredes eram marcadas por mãos e o chão, todo arranhado. Diante de uma nova porta, bateu com os nós dos dedos, retirando em seguida um lenço do bolso onde limpou as mãos. A mulher que apareceu não era tão jovem como anunciara no jornal, nem tão morena também. Alguns fios brancos podiam ser vistos através da tintura malfeita. Entrou e olhou-a de cima abaixo. Vestia uma camisola já gasta, e segurando sua mão, levou-o para a cama. Morava sozinha naquele quarto e sala. Verificara antes. Pediu para ir ao banheiro, e ela o indicou sorrindo. Com um movimento deixou um dos seios à mostra. Ao entrar no minúsculo espaço, depositou o que trazia em cima da tampa do vaso, não sem antes limpá-lo com um enorme pedaço de papel higiênico. Dali retirou o pote de vidro com um líquido transparente e uma pequena bolsa. Abriu-a e colocou parte do conteúdo no bolso da calça. Deixou todo o resto ali mesmo e foi para o quarto. A mulher aproximou-se tentando lamber a sua orelha. O contato da língua gelada provocou nele sensação de nojo. Virou-a com rapidez fazendo com que seu corpo, de costas para ele, não visse os movimentos. Ela falou estar sentindo um cheiro estranho. Sem que houvesse tempo para qualquer reação, colocou um lenço com amônia obstruindo nariz e boca até que ela perdesse os sentidos. Jogou o corpo sobre a cama e tirando do bolso uma fina lâmina, cortou-lhe o pescoço, que imediatamente passou a jorrar sangue. Cobriu então com toalhas que não demoraram a ficar encharcadas. Pegou a mão da mulher e levantando seu dedo, colocou um anel que trazia, para em seguida decepá-lo. Voltando ao banheiro guardou o dedo enfeitado dentro do pote. Arrumou o que levara e limpou o que precisava para não deixar rastros. Saiu do prédio sem que ninguém o visse. Andou três quadras e de um ponto de ônibus seguiu para casa. Ao chegar, a mulher esperava por ele. Sorriu e dando-lhe um beijo na boca chamou para que subissem. Ela olhou maliciosamente. Sabia que quando a beijava dessa forma, fariam amor. Depois de vestir o pijama, dirigiu-se a ela enlaçando seu corpo. Enquanto a segurava com vontade, os olhos procuravam pela pasta. Tranquilizando-se, viu que  estava sobre a cadeira onde a colocara. Fechou os olhos sentindo o gozo que o dominava.                                                           04/10/06
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Histórias e histórias
21/01/2017 | 18h47
Histórias e histórias Cândida Albernaz Quase todas as noites ele podia ser visto ocupando a mesma mesa no lado esquerdo do bar. O chapéu preto de abas não muito largas, adornava o rosto fino sem barba. Uma  suéter vinho, que cobria boa parte da camisa e uma calça escura, completavam a indumentária habitual. Atrás dos olhos pretos a dor do não esquecimento o acompanhava. Depois da terceira ou quarta cachaça conversava e contava casos que viu ou ouviu falar. A cidade era pequena onde poucos moradores viviam, mas nos fins de semana recebia muitos visitantes. Era conhecida por suas grutas encravadas na terra e pela montanha alta que os turistas escalavam. Para ver o nascer e por do sol, e a lua crescendo no céu. Segundo eles, naquele lugar, ela parecia ser maior e mais bonita do que em qualquer outro. Havia ainda os que o faziam pelo prazer do esporte. Mudou-se para ali há muitos anos. Não sabiam de onde vinha o homem magro, quieto, educado com todos e que sorria apenas com a boca. Não falava de si mesmo. Com o tempo adquiriu a confiança de todos. Marceneiro, sempre tinha algo para consertar ou encomendas dos lugarejos vizinhos. Sem a bebida, mal se ouvia sua voz, mas no bar, contava histórias onde frequentadores habituais ou não, sentavam às mesas próximas para escutar. Entre elas a de uma senhora, muito prezada e querida por todos. Miúda, com passos curtos, cabelo branco preso num coque e que morava com a filha e dois netos. Cuidava deles e sempre tinha uma palavra de compreensão para quem a procurava, ou um conselho que ajudava a resolver o problema contado. Num determinado dia, a policia parou em frente à casa dela e a levou. Afirmaram que em seus passeios semanais para cidades ali perto, buscava e levava drogas que eram vendidas nas escolas. Havia ainda o homem que chegara ali há alguns anos, com olhos perdidos e repetindo que a mulher com quem casara, seguiu a vida com o irmão dele. Traidores. Queria matar os dois, mas os covardes fugiram. Depois disso só fez chorar e andar sem rumo. No início, tinham pena dele, mas foram cansando daquela ladainha dita e repetida tantas vezes. Um dia, um garoto viu quando ele subia a montanha. Estava muito frio e anoitecendo. Avisou a ele que voltasse, era perigoso, mas com um resmungo e abanar das mãos, continuou. Meses se passaram e alguns turistas quando desciam, diziam ter visto um homem esquisito, com uma barba longa, dentro de alguns daqueles buracos na pedra. Nunca identificavam o mesmo lugar. Hoje não ouvem mais nada sobre ele. Talvez tenha ido embora. Ou virado terra. Tem também a do menino que chegou numa cadeira de rodas, e tinha o sonho de subir a montanha para que do alto pudesse ver o céu em toda a extensão. Porque dizia, quando estivesse lá em cima, Deus poderia ouvi-lo melhor e quem sabe, conceder que ele voltasse a andar, já que não nascera assim. A queda de uma árvore provocou a lesão, irreversível, segundo alguns médicos. De manhã, muito cedo, o pai colocou-o nas costas, com a segurança necessária e iniciou a caminhada. Ficaram dois dias e duas noites com o guia. Este relatou que ouvia de certa distância, orações que os dois faziam juntos em voz alta, pedindo e agradecendo. Desceram no terceiro dia, o pai com o filho ainda nas costas, e quando chegaram à base da montanha, o garoto pediu que o colocasse no chão. A cadeira estava ao lado, mas ele em pé, andou devagar e com dificuldade até ela. Contam que todos choraram e se ajoelharam naquele momento. E mais turistas passaram a visitar aquele lugar. Hora de voltar para casa. Alguns pediam que ficasse mais um pouco. Narrasse mais alguma história. Não adiantava. Meia noite se levantava, pagava a conta e saía. Entrando na sala, não acendeu a luz. Na cozinha, pegou a garrafa de café e despejou o líquido quente e preto no copo. Sem açúcar. Sentiu queimar o interior da boca. Os olhos ficaram úmidos e com o dorso da mão secou uma lágrima que talvez tenha descido. Lavou o copo e colocou sobre a pia. No quarto apenas uma cama com lençóis bem esticados e uma mesinha de cabeceira. Deitou, os olhos vidrados no teto, esperando que o sono os fechasse. Na mente a imagem da mulher e do filho pequeno sendo arrastados por um caminhão. Não pôde fazer nada. Não houve tempo. Vinha em outra bicicleta atrás deles. Às vezes sonha com os dois sorrindo para ele envoltos numa nuvem clara. Então sabe que o sono chegou. 3-4-2012  
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Amigos e futebol são sagrados
21/01/2017 | 18h47
Amigos e futebol são sagrados Cândida Albernaz - Você vive repetindo isso. - E acha que não tenho coragem? - Não sei se tem ou não. Mas qualquer hora eu também desisto. - Demorou! - Sei que fala da boca para fora. Não é o que realmente quer. - Do jeito que está não dá. - Que jeito? - Brigamos o tempo todo. - Brigamos, não. Você reclama o tempo todo. E mesmo que tente agradar, não consigo. - Tá... Jogando futebol toda quarta-feira, assistindo futebol toda semana, saindo com os amigos para encher a cara... - Então não posso mais sair com os amigos nem torcer pelo meu time. - Claro que pode, mas não no fim de semana, quando podemos ficar mais tempo juntos. - E você, que aos domingos quer ir para a casa de sua mãe? Sabe que ela não vai com a minha cara. - Que é isso? Minha mãe sempre tenta agradar você. - Me serve cerveja quente... - Coitada, é que não bebe e não entende da temperatura ideal. - ... fala mal do Flamengo... - Só para implicar, é uma forma de brincar. - ... e quando tem jogo e estamos na casa dela, sempre arruma um jeito de pedir para consertar algo. - Poxa  José Antônio, ela é sozinha... - Mas tem que ser na hora em que sento em frente à televisão? - Precisa de nós. - Pensa que não vi da última vez o sorrisinho dela quando o time perdeu? - Não entende do assunto... - E ofereceu uma cervejinha para brindar o jogo. Brindar o quê? - Quis agradar. - Não volto lá tão cedo. - Tá vendo como você é? Só tenho minha mãe e não tem paciência nenhuma com ela. - Está certo, mas ela não-é-minha-mãe-é-minha-sogra-que-me-sacaneia. - Seu grosso! - Você tem que estar com ela, não eu. - Não vou abandonar mamãe por sua causa. - Não estou pedindo isso. Só não quero passar meu domingo tentando fingir que não vejo o que ela faz comigo. - Viu só? - Então você quer me deixar porque não quero ir à casa de sua mãe. - Não é só isso. - O que mais eu fiz? - Quase não saímos. Quer dizer, eu não saio, porque você todas as sextas vai para a rua com seus amiguinhos. - Quer que pare de ver meus amigos também? - Quero que saia comigo. - E você não pode escolher outro dia da semana? - Posso, mas sempre diz que está cansado. - Trabalho como um condenado! - Tem que ter um tempo para mim. - E eu não tenho? Sábado mesmo trouxe umas iscas e umas bebidinhas para nós dois ficarmos vendo televisão abraçadinhos. - Futebol, José Antônio! Fu-te-bol! - Era uma partida importante. - Não quero mais conversar. - Não faz isso, senta aqui pertinho de mim. - ... - Vivo trazendo presentes para você e nem dá valor. - Que presentes? A geladeira que comprou porque a nossa deu defeito? - E o ar condicionado da sala também, você queria tanto. - E isso é presente? - Não é? - Não banque o espertinho, José Antônio. - Custou uma grana! O que queria? - Poderia ser um anel? Um vestido novo? Um perfume? - Vamos fazer as pazes, sabe que não vivo sem você. E não faz essa cara de brava porque também me ama. - Amo, mas não devia. - Vem cá, vamos sair no sábado para jantar e levo aonde quiser. - Promete? - Prometo tudo. Gosto desse seu cheiro... Mais pertinho, vem. - E vai me dar um presente direito? - O que escolher. Esse seu beijo me mata. Ô boca gostosa! - José Antônio... - Vamos conversar mais tarde... - Domingo vai à casa de mamãe? - Começando a pedir demais. - Então chega desse chamego comigo. - Ei! Agora não. Vem aqui, vou no domingo, na segunda, na terça, todos os dias à casa de sua mãe... - Ai, amor... - Mas na hora do jogo leva minha sogra para o quarto, combinado? - Jogo, amor? - É, vai ter um jogão nesse domingo, não quero perder. - Tem um probleminha. - Deixa para depois, faz aquele amorzinho que eu gosto, faz... - A televisão de mamãe... - O que tem? - Não está funcionando. - Manda consertar. - Já tentou. Só comprando outra. - Então compra! Mais um beijinho... - Está sem dinheiro. - E... - Falou que a gente podia dar uma de presente para ela. - Mas foi você quem falou que geladeira, fogão, televisão, ar, não é presente. - Mas para a mãe... - Vamos fazer uma coisa. Você vai para a casa de sua mãe, eu assisto ao jogo aqui e segunda conversamos de novo. Agora não dá mais tempo de nada... - Como assim? - Esqueceu que hoje é sexta? - José Antônio!  
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Oi linda!
21/01/2017 | 18h47
Oi linda!   Cândida Albernaz Ele olhou de um lado para o outro. Levou o pé à frente para atravessar a rua. Em seguida girou sobre o próprio corpo e refez o caminho por onde viera. Passava as mãos no cabelo preto e cheio. Se alguém parasse para observá-lo, notaria que o rosto estava contraído, formando duas rugas entre os olhos pretos. De estatura baixa, com um corpo definido e andar firme, transmitia segurança. No percurso de volta pensava que talvez ainda houvesse tempo. Queria isso. Conheceu Paloma no aniversário de um amigo. Conversaram, dançaram e trocaram números de telefone. Ela ligou para ele no dia seguinte. Sorriu quando viu o nome que gravara na noite anterior aparecer no visor do celular. Paloma o convidou para sair e continuou achando graça naquela vontade de vê-lo que a garota não disfarçava. Não dormiram juntos naquela noite, mas ela prometeu que seria na próxima. Saiu com uma, com duas... e deixou que os dias corressem. Ela não ligou mais e ele perdeu a curiosidade. Um mês depois, em um bar, sentiu a mão em seu ombro. Recebeu um beijo no rosto e um tchau. Estava indo embora com as amigas. Chegaram cedo ali. - Ei! Espere aí. Deixe elas irem e vamos conversar um pouco. - Você está com seus amigos. - Estava. Agora estou com você. Tem uma mesa vazia. Vamos sentar. Riram, descobriram afinidades, beberam e quando foi deixá-la sugeriu que fossem para a casa dele. Ela concordou. Ficaram juntos aquela e várias noites nos próximos onze meses. Aprendeu a querer e mais do que isso, a precisar do cheiro, da voz, do gosto e do sorriso que via nos olhos dela. Há três dias brigaram. Idiotice. Ela percebeu, coisas de mulher, que ele conversava com uma garota na internet. Esse bendito mundo virtual. Não perguntou. Afirmou o que estava acontecendo. Uma mudança aqui, uma mudança ali na maneira de teclar, o horário em frente ao computador que se estendia na noite... Talvez estivesse tão seguro que não disfarçou como deveria. A conversa sobre o assunto entre eles chegara a soar ridícula, já que não havia um encontro real. Avisou a ele que não importava. Entregara-se e queria entrega igual. Mostrou a ela que os dois jamais se veriam pessoalmente, mas Paloma se lembrou de uma viagem que ele fizera durante a semana há pouco. Ela acertara de novo! Mulheres e suas intuições. Não confirmou porque não era louco. Ela foi juntando peças e como um quebra cabeças, montou inteiro na sua cara. Negou e negaria ainda todas as vezes. Com as palavras ditas entre os dentes, avisou que precisava de um tempo. Viajaria no final de semana com amigas. Não gostou do que viu refletido nos olhos dela. Tristeza carregada de decepção. Tentaria convencê-la que precisavam estar lado a lado. Prometeria o que quisesse. Quando chegou diante da casa, notou que ela segurava uma bolsa de viagem. Insistiu que conversassem. Não faria de novo. Amava essa mulher. Uma bobagem o que estava acontecendo. Recebeu um sorriso de quem não acredita. Era a segunda vez. Ele se esquecera? Uma garota diferente, de uma cidade diferente e num mês diferente. Sabia o que não queria para si própria. O mesmo que não faria a ele. Pediu um beijo e avisou que estaria esperando por ela na segunda feira. Nem mesmo um sorriso de volta. Parecia cansada. Entrou no carro que a aguardava e saiu em seguida. Não adiantava ficar ali. Iria para casa tomar um banho, relaxar e esperar. Sentia-se tenso. Quando entrou, percebeu que deixara o computador ligado. Abriu a tela e viu no canto direito o rosto de uma morena. Sorriu. Acomodou-se na cadeira e respondeu: Oi linda! 20-03-2012.
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Confissão
21/01/2017 | 18h47
Confissão Cândida Albernaz Faz ano não venho aqui. Sabe como é, seu padre, com três filhos e um marido na cadeira de rodas não me sobra muito tempo. Ontem mesmo tinha pensado em vir, mas Antônio meu marido, o senhor se lembra? Já falei dele outras vezes. Pois é, como ia dizendo, o Antônio ontem me deu um trabalhão. Botou na cabeça que ia dar cabo da vida. Fiquei igual a uma doida. Não é que conseguiu pedir que comprassem chumbinho para ele? Disse para o menino que queria matar um rato que havia aparecido em nossa casa. Se com os dois gatos que tenho, algum rato ia folgar por lá. Tive que vigiar o Antônio o dia inteiro, até que consegui pegar o pacote da mão dele. Sentou em cima só para me botar dificuldade. Em casa é assim, cada dia tem uma novidade. Semana passada foi o Andrezinho quem me deu trabalho com uma catarreira danada. Esse é o meu menino mais novo. Já falei dele para o senhor também. Foi por causa do André que o Antônio foi parar numa cadeira de rodas. Quando tinha três anos, viu o portão aberto e disparou para a rua. Vinha um ônibus e o pai correu tentando tirar ele. Conseguiu empurrar o filho, mas o ônibus pegou meu marido de jeito. Resultado: ficou aleijado. Aleijado e mal humorado. Tomou implicância com o menino, coitadinho. Nem teve culpa, era muito pequeno. E o senhor pensa que adianta eu dizer alguma coisa? Vivia explicando que o filho tem amor por ele, que foi um gesto bonito e que Deus não gosta que a gente guarde raiva no coração. Já nem falo mais, desisti. Só tiro o menino de perto, pois tenho medo que faça algo. Ás vezes pego os olhos dele fitando o Andrezinho com tanto ódio, que chega a brilhar. É pena ter ficado assim, era tão divertido o meu marido! Mas olha só eu enrolando o senhor. Vim mesmo me confessar. Tem dois anos que quero falar sobre o que aconteceu. Seu padre tem que me dar o perdão. Faço a penitência que mandar, mas não quero ir para o inferno. Lembra da Matilde? Vinha confessar aqui todo mês. Fingida que só ela. Metida a santa com a blusa fechada até o pescoço e aquela saia abaixo do joelho. Tudo falsidade, seu padre. Até gostava daquela menina. Deixava as crianças na casa dela quando precisava sair porque com o Antônio não podia contar mesmo. Pois é, a Matilde parecia tão boazinha, prestativa, em alguns dias, quando eu ia pegar meus filhos, eles já estavam lá em casa de banho tomado e a janta na mesa. Mesmo o Antônio arriscava uns sorrisos. Ela alegrava a casa com as histórias que contava. Fiquei só reparando. Começou a visitar a gente mais vezes. Sempre que eu chegava do trabalho, estava lá, com as crianças e o Antônio com aquela cara de bobo escutando o que ela falava. No começo, disse para a Matilde que não precisava mais se preocupar com meus meninos porque eu passaria a chegar mais cedo. Não adiantou muito, não. Chegava a casa e ela estava. Desculpe eu estar me alongando, seu padre, é que espero que o senhor entenda tudo direitinho, para ver se não tive razão e me perdoar. Mas como estava dizendo, a disfarçada da Matilde foi se enfiando cada vez mais na vida da minha família. E eu ali, sem paciência nenhuma. Até o dia em que cheguei e ela estava fazendo a barba do meu Antônio. Que ele é aleijado, eu sei, mas das pernas. Os braços sempre foram bons e se barbear, o safado podia fazer sozinho. Desculpe pelo safado, seu padre, mas é que me dá nos nervos só de lembrar. Olhei para ela e perguntei o que estava fazendo. Com a cara mais limpa do mundo, me respondeu. Como se eu precisasse de resposta, já estava vendo. Ah! Perdi a noção e avancei na direção da folgada. Agarrei o barbeador e parti para o rosto dela. Se queria fazer a barba de alguém, ia fazer a dela. O Antônio ainda tentou me segurar, mas a cadeira virou e ele foi parar no chão. Com um corte no meio da bochecha, a sirigaita conseguiu tirar a lâmina da minha mão. O senhor lembra daqueles dentes branquinhos da Matilde? Quebrei os dois da frente com um pote de vidro que estava em cima da pia. Ela saiu correndo e chorando. Graças a Deus não deu parte na polícia, porque o Antônio me disse que ela podia fazer isso e eu ia me dar mal. Depois de um tempo soube que ela só dava risada com a mão na boca e que o rosto da infeliz ficou com uma cicatriz feia. Olha seu padre, preciso do seu perdão, pois eu só defendia o que era meu. Não vou dizer que me arrependo, mas depois fiquei até com pena dela. Hoje se me vê na rua, atravessa para o outro lado. É bom mesmo, porque se pensar a se meter a besta comigo de novo, arrebento os outros dentes dela. O senhor pede para Deus me perdoar, seu padre?
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Candida Albernaz

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