Ela seria sua garota
Ela seria sua garota
Cândida Albernaz
- Sabe o que Farinha disse? Vai dar um jeito em você.
Limpava a moto e fingia não prestar atenção
- Não tem medo? Viu o que ele fez com Bolão? O cara quase morreu com tanta comida que Farinha obrigou ele engolir.
Agora sim, a máquina brilhava e parecia saída da loja. Estava doido para testar o motor que trocou. Tinha o maior carinho com a moto.
- Foi engraçado. Aquela panela enorme de canjica e Bolão mal podendo respirar entre uma colherada e outra. Até que o Farinha tem senso de humor. Se Bolão gosta de comer, então que coma até morrer. Rimou, cara! Tô virando poeta.
Pronto! Estava perfeita. Ia buscar Tayane e dar uma volta com ela. Queria ver a cara de satisfação quando chegasse para pegá-la. Fez pouco dele na frente de Antônio semana passada. O idiota estava tentando roubar sua garota. Quer dizer, ela ainda não era sua garota, mas seria e todo mundo sabe que ele é gamado nela há anos.
- Vou embora porque você não quer me dar assunto. Não vá dizer que não avisei. Sou seu brother, mas com relação ao Farinha, nem te conheço.
Quando olhou para trás viu que o amigo tinha saído. Sabia do que Farinha era capaz, e depois, ele não teve culpa, o cara tinha que entender. Não queria pensar nisso. Agora só a moto e Tayane, as duas coisas mais importantes de sua vida.
Fechou a oficina mais cedo. Subiria para tomar banho e se encheria de perfume.
Hoje ele definiria a vida. Pensava até em casar. Ela não sabia disso, mas no próximo mês compraria um anel. Anel de compromisso, porque ele queria fazer as coisas direito. Chegou a pensar nos nomes dos filhos, claro, com a aprovação dela. E a profissão do mais velho estava decidida, seria jogador de futebol. A da menina, Tayane escolheria.
Esse chuveiro vive com problema, cai pouca água. No final de semana daria um jeito.
Agora sim, limpo e cheiroso para ela.
Desceu as escadas com orgulho. A moto estava ali, pronta para rodar em alta velocidade. Só havia um problema, Farinha estava sentado nela.
- Passe a chave.
- O que é isso, cara? Estou de saída.
- Tá nada. Vamos ter uma conversinha.
- Farinha, eu disse que não tenho nada com sua mulher.
- Não foi o que eu soube.
- Gosto da minha e depois, não ia mexer com o que é dos outros.
- E o que ela estava fazendo aqui no outro dia?
- Pergunte a ela. Não convidei ninguém pra entrar. Inclusive mandei que fosse embora.
- Com ela já me entendi e tenho certeza de que nunca mais dá corda pra nenhum mané.
- Estou de saída e nunca olhei duas vezes pra sua mulher.
- Pra mim, basta uma.
- Ei! O que você está fazendo? Porra, cara, rasgou o pneu com a faca? Acabei de reformar a moto toda.
- E que tal isso?
A pintura agora possuía riscos, enquanto o pneu arriava.
Avançou para cima de Farinha.
- Quer a faca? Então, toma.
Sentiu a estocada na barriga. Quando tentou segurar a mão dele, percebeu que o peito era atingido.
Olhou para baixo, a camisa branca estava manchada. Caiu no chão enquanto ouviu um motor ser ligado e o barulho da moto batendo na parede.
Tanto trabalho para nada. Demoraria a conseguir reformá-la de novo. Os olhos estavam ficando pesados.
Na esquina, Antônio parou a bicicleta e Tayana subiu atrás. Enlaçava a cintura dele com força, enquanto encostava a cabeça em suas costas, sentindo o cheiro daquele homem que a deixava louca.