O colecionador
candida 12/04/2012 11:37
  O Colecionador Cândida Albernaz   Costumava chegar a casa no mesmo horário todos os dias. Almoçava com os filhos e a mulher a comida que fazia questão ser saudável. No escritório, um café bem forte e um copo de água gelada eram depositados em sua mesa cinco minutos depois que entrava. A secretária, desde o dia em que começara a trabalhar com ele fora orientada sobre hábitos e horários. Não gostava de mudá-los nem admitia que alguém o fizesse. Com uma pasta, onde guardava tesouros que imaginava possuir, caminhava pelo corredor da empresa cumprimentando funcionários com um movimento da cabeça. Todos o respeitavam e estranhavam. Com estatura alta e corpo magro, mantinha os ombros encurvados, como se o peso do objeto que carregava fosse muito grande. Não era de muita conversa e se alguém viesse com um assunto que não o interessava, olhava com tamanho desdém que o outro se sentia constrangido, desistindo de levar a conversa adiante. Em casa não era muito diferente disso. Deixava a mulher dormindo, e quando esta levantava, a mesa estava arrumada, o jornal ao lado da xícara e a televisão ligada, pois gostava de saber sobre o tempo antes de sair de casa. Acordava-a quinze minutos antes de ir para o trabalho para que tomassem café juntos. Mal tirava os olhos das notícias que lia rapidamente. Ao sair, encostava a boca em sua testa e dizia que estaria de volta para o almoço que era servido invariavelmente à uma hora. Sentado à mesa na firma, separava o que seria importante resolver pela manhã. Trabalhava em uma construtora bem sucedida. Apesar de reservado e ter dificuldade em se comunicar, mente e mãos criavam prédios de fácil aceitação para venda. O que mais chamava atenção em sua figura, era a pasta que segurava todo o tempo e da qual não desgrudava para nada. Os comentários eram diversos, desde que ali havia dinheiro, jóias, documentos, até fotos comprometedoras. Depois do jantar servido às dezenove horas, tinha o costume de sair para dar uma volta. A mulher desfazia a mesa onde jantavam e olhava-o ir para a rua. Voltava meia hora depois quando então assistiam algum programa na televisão juntos. Pelo menos duas vezes ao mês, ele se demorava mais no seu passeio, só voltando às 22 horas. Nesses dias depois de apanhar a pasta, ele caminhava ao longo da rua, entrava em um ônibus, descia em algum ponto, onde pegava outro. Gostava de fazer sempre percursos diferentes. Pensava que era sorte morar numa cidade grande onde poderia variar os lugares que frequentava.   *                                                        *                         * Entrou por uma porta estreita, de onde se via a escada, que uma lâmpada mal iluminava. Enquanto subia, reparava na sujeira à volta. As paredes eram marcadas por mãos e o chão, todo arranhado. Diante de uma nova porta, bateu com os nós dos dedos, retirando em seguida um lenço do bolso onde limpou as mãos. A mulher que apareceu não era tão jovem como anunciara no jornal, nem tão morena também. Alguns fios brancos podiam ser vistos através da tintura malfeita. Entrou e olhou-a de cima abaixo. Vestia uma camisola já gasta, e segurando sua mão, levou-o para a cama. Morava sozinha naquele quarto e sala. Verificara antes. Pediu para ir ao banheiro, e ela o indicou sorrindo. Com um movimento deixou um dos seios à mostra. Ao entrar no minúsculo espaço, depositou o que trazia em cima da tampa do vaso, não sem antes limpá-lo com um enorme pedaço de papel higiênico. Dali retirou o pote de vidro com um líquido transparente e uma pequena bolsa. Abriu-a e colocou parte do conteúdo no bolso da calça. Deixou todo o resto ali mesmo e foi para o quarto. A mulher aproximou-se tentando lamber a sua orelha. O contato da língua gelada provocou nele sensação de nojo. Virou-a com rapidez fazendo com que seu corpo, de costas para ele, não visse os movimentos. Ela falou estar sentindo um cheiro estranho. Sem que houvesse tempo para qualquer reação, colocou um lenço com amônia obstruindo nariz e boca até que ela perdesse os sentidos. Jogou o corpo sobre a cama e tirando do bolso uma fina lâmina, cortou-lhe o pescoço, que imediatamente passou a jorrar sangue. Cobriu então com toalhas que não demoraram a ficar encharcadas. Pegou a mão da mulher e levantando seu dedo, colocou um anel que trazia, para em seguida decepá-lo. Voltando ao banheiro guardou o dedo enfeitado dentro do pote. Arrumou o que levara e limpou o que precisava para não deixar rastros. Saiu do prédio sem que ninguém o visse. Andou três quadras e de um ponto de ônibus seguiu para casa. Ao chegar, a mulher esperava por ele. Sorriu e dando-lhe um beijo na boca chamou para que subissem. Ela olhou maliciosamente. Sabia que quando a beijava dessa forma, fariam amor. Depois de vestir o pijama, dirigiu-se a ela enlaçando seu corpo. Enquanto a segurava com vontade, os olhos procuravam pela pasta. Tranquilizando-se, viu que  estava sobre a cadeira onde a colocara. Fechou os olhos sentindo o gozo que o dominava.                                                           04/10/06

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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