Confissão
Confissão
Cândida Albernaz
Faz ano não venho aqui. Sabe como é, seu padre, com três filhos e um marido na cadeira de rodas não me sobra muito tempo.
Ontem mesmo tinha pensado em vir, mas Antônio meu marido, o senhor se lembra? Já falei dele outras vezes. Pois é, como ia dizendo, o Antônio ontem me deu um trabalhão. Botou na cabeça que ia dar cabo da vida. Fiquei igual a uma doida.
Não é que conseguiu pedir que comprassem chumbinho para ele? Disse para o menino que queria matar um rato que havia aparecido em nossa casa. Se com os dois gatos que tenho, algum rato ia folgar por lá. Tive que vigiar o Antônio o dia inteiro, até que consegui pegar o pacote da mão dele. Sentou em cima só para me botar dificuldade. Em casa é assim, cada dia tem uma novidade. Semana passada foi o Andrezinho quem me deu trabalho com uma catarreira danada. Esse é o meu menino mais novo. Já falei dele para o senhor também.
Foi por causa do André que o Antônio foi parar numa cadeira de rodas. Quando tinha três anos, viu o portão aberto e disparou para a rua. Vinha um ônibus e o pai correu tentando tirar ele. Conseguiu empurrar o filho, mas o ônibus pegou meu marido de jeito. Resultado: ficou aleijado. Aleijado e mal humorado. Tomou implicância com o menino, coitadinho. Nem teve culpa, era muito pequeno.
E o senhor pensa que adianta eu dizer alguma coisa? Vivia explicando que o filho tem amor por ele, que foi um gesto bonito e que Deus não gosta que a gente guarde raiva no coração. Já nem falo mais, desisti. Só tiro o menino de perto, pois tenho medo que faça algo. Ás vezes pego os olhos dele fitando o Andrezinho com tanto ódio, que chega a brilhar.
É pena ter ficado assim, era tão divertido o meu marido!
Mas olha só eu enrolando o senhor. Vim mesmo me confessar. Tem dois anos que quero falar sobre o que aconteceu. Seu padre tem que me dar o perdão. Faço a penitência que mandar, mas não quero ir para o inferno.
Lembra da Matilde? Vinha confessar aqui todo mês. Fingida que só ela. Metida a santa com a blusa fechada até o pescoço e aquela saia abaixo do joelho. Tudo falsidade, seu padre.
Até gostava daquela menina. Deixava as crianças na casa dela quando precisava sair porque com o Antônio não podia contar mesmo. Pois é, a Matilde parecia tão boazinha, prestativa, em alguns dias, quando eu ia pegar meus filhos, eles já estavam lá em casa de banho tomado e a janta na mesa. Mesmo o Antônio arriscava uns sorrisos. Ela alegrava a casa com as histórias que contava. Fiquei só reparando.
Começou a visitar a gente mais vezes. Sempre que eu chegava do trabalho, estava lá, com as crianças e o Antônio com aquela cara de bobo escutando o que ela falava.
No começo, disse para a Matilde que não precisava mais se preocupar com meus meninos porque eu passaria a chegar mais cedo. Não adiantou muito, não. Chegava a casa e ela estava.
Desculpe eu estar me alongando, seu padre, é que espero que o senhor entenda tudo direitinho, para ver se não tive razão e me perdoar.
Mas como estava dizendo, a disfarçada da Matilde foi se enfiando cada vez mais na vida da minha família. E eu ali, sem paciência nenhuma.
Até o dia em que cheguei e ela estava fazendo a barba do meu Antônio. Que ele é aleijado, eu sei, mas das pernas. Os braços sempre foram bons e se barbear, o safado podia fazer sozinho. Desculpe pelo safado, seu padre, mas é que me dá nos nervos só de lembrar. Olhei para ela e perguntei o que estava fazendo. Com a cara mais limpa do mundo, me respondeu. Como se eu precisasse de resposta, já estava vendo.
Ah! Perdi a noção e avancei na direção da folgada. Agarrei o barbeador e parti para o rosto dela. Se queria fazer a barba de alguém, ia fazer a dela. O Antônio ainda tentou me segurar, mas a cadeira virou e ele foi parar no chão.
Com um corte no meio da bochecha, a sirigaita conseguiu tirar a lâmina da minha mão.
O senhor lembra daqueles dentes branquinhos da Matilde? Quebrei os dois da frente com um pote de vidro que estava em cima da pia. Ela saiu correndo e chorando.
Graças a Deus não deu parte na polícia, porque o Antônio me disse que ela podia fazer isso e eu ia me dar mal.
Depois de um tempo soube que ela só dava risada com a mão na boca e que o rosto da infeliz ficou com uma cicatriz feia.
Olha seu padre, preciso do seu perdão, pois eu só defendia o que era meu. Não vou dizer que me arrependo, mas depois fiquei até com pena dela.
Hoje se me vê na rua, atravessa para o outro lado. É bom mesmo, porque se pensar a se meter a besta comigo de novo, arrebento os outros dentes dela.
O senhor pede para Deus me perdoar, seu padre?