Confissão
candida 15/03/2012 01:08
Confissão Cândida Albernaz Faz ano não venho aqui. Sabe como é, seu padre, com três filhos e um marido na cadeira de rodas não me sobra muito tempo. Ontem mesmo tinha pensado em vir, mas Antônio meu marido, o senhor se lembra? Já falei dele outras vezes. Pois é, como ia dizendo, o Antônio ontem me deu um trabalhão. Botou na cabeça que ia dar cabo da vida. Fiquei igual a uma doida. Não é que conseguiu pedir que comprassem chumbinho para ele? Disse para o menino que queria matar um rato que havia aparecido em nossa casa. Se com os dois gatos que tenho, algum rato ia folgar por lá. Tive que vigiar o Antônio o dia inteiro, até que consegui pegar o pacote da mão dele. Sentou em cima só para me botar dificuldade. Em casa é assim, cada dia tem uma novidade. Semana passada foi o Andrezinho quem me deu trabalho com uma catarreira danada. Esse é o meu menino mais novo. Já falei dele para o senhor também. Foi por causa do André que o Antônio foi parar numa cadeira de rodas. Quando tinha três anos, viu o portão aberto e disparou para a rua. Vinha um ônibus e o pai correu tentando tirar ele. Conseguiu empurrar o filho, mas o ônibus pegou meu marido de jeito. Resultado: ficou aleijado. Aleijado e mal humorado. Tomou implicância com o menino, coitadinho. Nem teve culpa, era muito pequeno. E o senhor pensa que adianta eu dizer alguma coisa? Vivia explicando que o filho tem amor por ele, que foi um gesto bonito e que Deus não gosta que a gente guarde raiva no coração. Já nem falo mais, desisti. Só tiro o menino de perto, pois tenho medo que faça algo. Ás vezes pego os olhos dele fitando o Andrezinho com tanto ódio, que chega a brilhar. É pena ter ficado assim, era tão divertido o meu marido! Mas olha só eu enrolando o senhor. Vim mesmo me confessar. Tem dois anos que quero falar sobre o que aconteceu. Seu padre tem que me dar o perdão. Faço a penitência que mandar, mas não quero ir para o inferno. Lembra da Matilde? Vinha confessar aqui todo mês. Fingida que só ela. Metida a santa com a blusa fechada até o pescoço e aquela saia abaixo do joelho. Tudo falsidade, seu padre. Até gostava daquela menina. Deixava as crianças na casa dela quando precisava sair porque com o Antônio não podia contar mesmo. Pois é, a Matilde parecia tão boazinha, prestativa, em alguns dias, quando eu ia pegar meus filhos, eles já estavam lá em casa de banho tomado e a janta na mesa. Mesmo o Antônio arriscava uns sorrisos. Ela alegrava a casa com as histórias que contava. Fiquei só reparando. Começou a visitar a gente mais vezes. Sempre que eu chegava do trabalho, estava lá, com as crianças e o Antônio com aquela cara de bobo escutando o que ela falava. No começo, disse para a Matilde que não precisava mais se preocupar com meus meninos porque eu passaria a chegar mais cedo. Não adiantou muito, não. Chegava a casa e ela estava. Desculpe eu estar me alongando, seu padre, é que espero que o senhor entenda tudo direitinho, para ver se não tive razão e me perdoar. Mas como estava dizendo, a disfarçada da Matilde foi se enfiando cada vez mais na vida da minha família. E eu ali, sem paciência nenhuma. Até o dia em que cheguei e ela estava fazendo a barba do meu Antônio. Que ele é aleijado, eu sei, mas das pernas. Os braços sempre foram bons e se barbear, o safado podia fazer sozinho. Desculpe pelo safado, seu padre, mas é que me dá nos nervos só de lembrar. Olhei para ela e perguntei o que estava fazendo. Com a cara mais limpa do mundo, me respondeu. Como se eu precisasse de resposta, já estava vendo. Ah! Perdi a noção e avancei na direção da folgada. Agarrei o barbeador e parti para o rosto dela. Se queria fazer a barba de alguém, ia fazer a dela. O Antônio ainda tentou me segurar, mas a cadeira virou e ele foi parar no chão. Com um corte no meio da bochecha, a sirigaita conseguiu tirar a lâmina da minha mão. O senhor lembra daqueles dentes branquinhos da Matilde? Quebrei os dois da frente com um pote de vidro que estava em cima da pia. Ela saiu correndo e chorando. Graças a Deus não deu parte na polícia, porque o Antônio me disse que ela podia fazer isso e eu ia me dar mal. Depois de um tempo soube que ela só dava risada com a mão na boca e que o rosto da infeliz ficou com uma cicatriz feia. Olha seu padre, preciso do seu perdão, pois eu só defendia o que era meu. Não vou dizer que me arrependo, mas depois fiquei até com pena dela. Hoje se me vê na rua, atravessa para o outro lado. É bom mesmo, porque se pensar a se meter a besta comigo de novo, arrebento os outros dentes dela. O senhor pede para Deus me perdoar, seu padre?

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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