Oi linda!
candida 22/03/2012 12:27
Oi linda!   Cândida Albernaz Ele olhou de um lado para o outro. Levou o pé à frente para atravessar a rua. Em seguida girou sobre o próprio corpo e refez o caminho por onde viera. Passava as mãos no cabelo preto e cheio. Se alguém parasse para observá-lo, notaria que o rosto estava contraído, formando duas rugas entre os olhos pretos. De estatura baixa, com um corpo definido e andar firme, transmitia segurança. No percurso de volta pensava que talvez ainda houvesse tempo. Queria isso. Conheceu Paloma no aniversário de um amigo. Conversaram, dançaram e trocaram números de telefone. Ela ligou para ele no dia seguinte. Sorriu quando viu o nome que gravara na noite anterior aparecer no visor do celular. Paloma o convidou para sair e continuou achando graça naquela vontade de vê-lo que a garota não disfarçava. Não dormiram juntos naquela noite, mas ela prometeu que seria na próxima. Saiu com uma, com duas... e deixou que os dias corressem. Ela não ligou mais e ele perdeu a curiosidade. Um mês depois, em um bar, sentiu a mão em seu ombro. Recebeu um beijo no rosto e um tchau. Estava indo embora com as amigas. Chegaram cedo ali. - Ei! Espere aí. Deixe elas irem e vamos conversar um pouco. - Você está com seus amigos. - Estava. Agora estou com você. Tem uma mesa vazia. Vamos sentar. Riram, descobriram afinidades, beberam e quando foi deixá-la sugeriu que fossem para a casa dele. Ela concordou. Ficaram juntos aquela e várias noites nos próximos onze meses. Aprendeu a querer e mais do que isso, a precisar do cheiro, da voz, do gosto e do sorriso que via nos olhos dela. Há três dias brigaram. Idiotice. Ela percebeu, coisas de mulher, que ele conversava com uma garota na internet. Esse bendito mundo virtual. Não perguntou. Afirmou o que estava acontecendo. Uma mudança aqui, uma mudança ali na maneira de teclar, o horário em frente ao computador que se estendia na noite... Talvez estivesse tão seguro que não disfarçou como deveria. A conversa sobre o assunto entre eles chegara a soar ridícula, já que não havia um encontro real. Avisou a ele que não importava. Entregara-se e queria entrega igual. Mostrou a ela que os dois jamais se veriam pessoalmente, mas Paloma se lembrou de uma viagem que ele fizera durante a semana há pouco. Ela acertara de novo! Mulheres e suas intuições. Não confirmou porque não era louco. Ela foi juntando peças e como um quebra cabeças, montou inteiro na sua cara. Negou e negaria ainda todas as vezes. Com as palavras ditas entre os dentes, avisou que precisava de um tempo. Viajaria no final de semana com amigas. Não gostou do que viu refletido nos olhos dela. Tristeza carregada de decepção. Tentaria convencê-la que precisavam estar lado a lado. Prometeria o que quisesse. Quando chegou diante da casa, notou que ela segurava uma bolsa de viagem. Insistiu que conversassem. Não faria de novo. Amava essa mulher. Uma bobagem o que estava acontecendo. Recebeu um sorriso de quem não acredita. Era a segunda vez. Ele se esquecera? Uma garota diferente, de uma cidade diferente e num mês diferente. Sabia o que não queria para si própria. O mesmo que não faria a ele. Pediu um beijo e avisou que estaria esperando por ela na segunda feira. Nem mesmo um sorriso de volta. Parecia cansada. Entrou no carro que a aguardava e saiu em seguida. Não adiantava ficar ali. Iria para casa tomar um banho, relaxar e esperar. Sentia-se tenso. Quando entrou, percebeu que deixara o computador ligado. Abriu a tela e viu no canto direito o rosto de uma morena. Sorriu. Acomodou-se na cadeira e respondeu: Oi linda! 20-03-2012.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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