E se não mudasse?
candida 25/04/2012 11:50
E se não mudasse? Cândida Albernaz A blusa vermelha de mangas curtas marcava em seu corpo o que preferia que não notassem. O movimento estava fraco. Culpa da greve que deixou os ônibus parados. Foi difícil ir para o serviço. E mais caro também. Todos se aproveitam de alguma forma. O chefe reclamou porque chegou quinze minutos atrasada. Teve vontade de apertar o pescoço dele. Não era para matar não. Só para aliviar um pouco a raiva. Saiu na noite anterior e voltou tarde. Brigou com Jorge Luis e foi dormir chorando. Resultado: cara inchada. Já não tem se sentido a mais linda das mulheres ultimamente, e ainda por cima chora até ficar deformada? Nem era tanto por ele, que não merece faz tempo. O desabafo foi por si mesma. Enjoada da vida, com o trabalho de caixa do supermercado, sem esperança de melhorar. Estava estudando, é verdade. Faculdade de enfermagem, mas sabia que era difícil conseguir emprego depois. Mais dois períodos e estaria formada. E sem pistolão algum. Ô vida! Engordara no último ano e nenhuma roupa parecia ficar bem. Aliás, Jorge Luis também. A barriga chegava antes dele nos lugares. Enchia-se de cerveja quase todo dia. Ela não bebia. Nada. Mas comia com gosto. Ansiedade, as amigas falavam. Pura verdade. Queria terminar aquele namoro que já durava seis anos e não conseguia. Tinha medo. De ficar sozinha, de nenhum homem gostar dela, de não ter ninguém para consertar a torneira da pia que vivia vazando... Sabia que podia se esforçar um tantinho e emagrecer também. Quem sabe acordar uma hora mais cedo e caminhar? Que preguiça sentia... Há dois anos fez aulas de dança. Adorava. Mas Jorge Luis invocou com seu parceiro e teve que parar. Chamou para que fosse com ela e respondeu que não levava jeito para a coisa. Sabia bem para o que ele tinha jeito! Encostar-se num bar, beber todas e olhar as garotas que desfilavam por lá. Cansada, cansada, cansada. De Jorge Luis, do supermercado, do chefe, do excesso de gordura, dela própria, do que via em frente ao espelho e dessa vontade de nada que sentia. Precisava de mudanças ou ficaria velha muito cedo. Tomou uma decisão. Aliás, algumas. Em casa, esvaziaria a geladeira de tudo o que não fizesse bem. Alimentação saudável a partir de hoje. Ou amanhã. O que sobrou da torta de morango não jogaria fora nem daria a ninguém. Foi tão caro naquela loja de doces... A caixa de bombons que o namorado deu a ela antes de brigarem entregaria nas mãos da vizinha para a filha dela. Tiraria alguns antes.  Aqueles de que gostava mais. Afinal de contas, nada de radicalismo, porque não seria bom. E quanto ao Jorge Luis, teria uma conversa definitiva com ele. Aceitaria suas aulas de dança... Ou aceitaria. Sem negociação. Talvez fosse melhor que se vissem menos. Brigavam por tudo. Ele não era um cara ruim. Só bebia demais, gostava dos amigos demais, se engraçava para mulheres demais, saía com ela de menos, e pensando bem, estavam fazendo amor de menos também. Não sabia se haveria solução para os dois. Falaria seriamente com ele. A última vez. Penúltima? Para que ele tivesse tempo de se adaptar às suas exigências. Dia exaustivo esse. Tanta gente disputando vans. Mesmo assim, conseguiu chegar à casa. Tomaria uma ducha rezando para que a água se mantivesse morna. O chuveiro estava com problemas. No meio do banho, a água ficava gelada. Sempre dá um grito quando acontece. Precisa pedir a Jorge Luis para dar uma olhada. Pegou logo os bombons para entregar ao lado. Tocou a campainha da casa. Uma, duas, três vezes. Nada. Acho que devo experimentar um. - Nem acredito como é bom! Vou esperar, porque elas devem estar chegando. Mais unzinho. - Bom! Não sei se é uma boa idéia dar esse presente para uma criança. Doce estraga os dentes. Só mais um... Estão demorando. Foi para o banheiro e até que acabasse decidiria o que fazer. Enquanto tirava a roupa, resolveu provar  outro. Louca por chocolate... 17-04-2012  

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS