Histórias e histórias
candida 05/04/2012 01:38
Histórias e histórias Cândida Albernaz Quase todas as noites ele podia ser visto ocupando a mesma mesa no lado esquerdo do bar. O chapéu preto de abas não muito largas, adornava o rosto fino sem barba. Uma  suéter vinho, que cobria boa parte da camisa e uma calça escura, completavam a indumentária habitual. Atrás dos olhos pretos a dor do não esquecimento o acompanhava. Depois da terceira ou quarta cachaça conversava e contava casos que viu ou ouviu falar. A cidade era pequena onde poucos moradores viviam, mas nos fins de semana recebia muitos visitantes. Era conhecida por suas grutas encravadas na terra e pela montanha alta que os turistas escalavam. Para ver o nascer e por do sol, e a lua crescendo no céu. Segundo eles, naquele lugar, ela parecia ser maior e mais bonita do que em qualquer outro. Havia ainda os que o faziam pelo prazer do esporte. Mudou-se para ali há muitos anos. Não sabiam de onde vinha o homem magro, quieto, educado com todos e que sorria apenas com a boca. Não falava de si mesmo. Com o tempo adquiriu a confiança de todos. Marceneiro, sempre tinha algo para consertar ou encomendas dos lugarejos vizinhos. Sem a bebida, mal se ouvia sua voz, mas no bar, contava histórias onde frequentadores habituais ou não, sentavam às mesas próximas para escutar. Entre elas a de uma senhora, muito prezada e querida por todos. Miúda, com passos curtos, cabelo branco preso num coque e que morava com a filha e dois netos. Cuidava deles e sempre tinha uma palavra de compreensão para quem a procurava, ou um conselho que ajudava a resolver o problema contado. Num determinado dia, a policia parou em frente à casa dela e a levou. Afirmaram que em seus passeios semanais para cidades ali perto, buscava e levava drogas que eram vendidas nas escolas. Havia ainda o homem que chegara ali há alguns anos, com olhos perdidos e repetindo que a mulher com quem casara, seguiu a vida com o irmão dele. Traidores. Queria matar os dois, mas os covardes fugiram. Depois disso só fez chorar e andar sem rumo. No início, tinham pena dele, mas foram cansando daquela ladainha dita e repetida tantas vezes. Um dia, um garoto viu quando ele subia a montanha. Estava muito frio e anoitecendo. Avisou a ele que voltasse, era perigoso, mas com um resmungo e abanar das mãos, continuou. Meses se passaram e alguns turistas quando desciam, diziam ter visto um homem esquisito, com uma barba longa, dentro de alguns daqueles buracos na pedra. Nunca identificavam o mesmo lugar. Hoje não ouvem mais nada sobre ele. Talvez tenha ido embora. Ou virado terra. Tem também a do menino que chegou numa cadeira de rodas, e tinha o sonho de subir a montanha para que do alto pudesse ver o céu em toda a extensão. Porque dizia, quando estivesse lá em cima, Deus poderia ouvi-lo melhor e quem sabe, conceder que ele voltasse a andar, já que não nascera assim. A queda de uma árvore provocou a lesão, irreversível, segundo alguns médicos. De manhã, muito cedo, o pai colocou-o nas costas, com a segurança necessária e iniciou a caminhada. Ficaram dois dias e duas noites com o guia. Este relatou que ouvia de certa distância, orações que os dois faziam juntos em voz alta, pedindo e agradecendo. Desceram no terceiro dia, o pai com o filho ainda nas costas, e quando chegaram à base da montanha, o garoto pediu que o colocasse no chão. A cadeira estava ao lado, mas ele em pé, andou devagar e com dificuldade até ela. Contam que todos choraram e se ajoelharam naquele momento. E mais turistas passaram a visitar aquele lugar. Hora de voltar para casa. Alguns pediam que ficasse mais um pouco. Narrasse mais alguma história. Não adiantava. Meia noite se levantava, pagava a conta e saía. Entrando na sala, não acendeu a luz. Na cozinha, pegou a garrafa de café e despejou o líquido quente e preto no copo. Sem açúcar. Sentiu queimar o interior da boca. Os olhos ficaram úmidos e com o dorso da mão secou uma lágrima que talvez tenha descido. Lavou o copo e colocou sobre a pia. No quarto apenas uma cama com lençóis bem esticados e uma mesinha de cabeceira. Deitou, os olhos vidrados no teto, esperando que o sono os fechasse. Na mente a imagem da mulher e do filho pequeno sendo arrastados por um caminhão. Não pôde fazer nada. Não houve tempo. Vinha em outra bicicleta atrás deles. Às vezes sonha com os dois sorrindo para ele envoltos numa nuvem clara. Então sabe que o sono chegou. 3-4-2012  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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