Lembranças que vêm da alma
Lembranças que vêm da alma
Cândida Albernaz
Lembra quando ainda jovens gostávamos de andar de mãos dadas, pressionando os dedos com força a cada vez que nos olhávamos?
Hoje ainda sinto o cheiro da loção que usava. Basta que feche os olhos trazendo sua imagem de quando, ao passar as mãos nos cabelos, me fazia desejar que elas estivessem em meu corpo.
Na gaveta de papéis onde se misturam fotos, cartas, documentos, receitas médicas e bulas, é que se encontra o meu bem mais precioso: a foto que tiramos num entardecer na praia em que seu braço enlaçava meu ombro. Nos olhos vinha refletido o instante em que eu sentia que ser feliz podia ser só aquele momento. Nada mais era preciso. No verso da foto, com minha letra e datado, o resumo do que sentia “Um instante, mesmo que perdido no tempo, guardado na alma para sempre”. Não chegou a ver esta foto revelada. Foi embora no dia seguinte em que a tiramos.
Posso guardá-la ao lado da cama, pois Miguel se foi há alguns anos. Vivia dizendo que “há alguma coisa em você que me foge, mas sei que me ama e eu a amo também, querida”. O que lhe fugia era minha alma que nunca entreguei, porque já estava presa a outro. Mas meu amor ele sempre teve. Até o final.
Às vezes penso em como teria sido a vida se a tivesse vivido com você. Sei que a rotina costuma esfarelar o que sentimos, mas sei também que se soubermos aproveitar, a convivência pode nos trazer o prazer de ver no outro as experiências por nós vividas.
Gostaria de ter tido um filho com você, para que através dele eu o visse outra vez. Miguel não pôde me dar filhos. Muitas vezes se culpou por isso, mas não dei importância de fato.
Vivo sozinha, mas uma jovem, em dias alternados, vem ajudar. Tremo muito e nem sempre consigo fazer o que preciso. Talvez um dia ela chegue e me encontre dormindo para nunca mais. Não vai ser assim. Tenho certeza que ainda viverei muito tempo com a solidão carregada de você. Ainda bem. Agora que não preciso mais cuidar de Miguel e tentar fazê-lo feliz por todos os seus dias, posso me entregar à minha alma.
Não sei se vive. Nem quero saber. Para mim, seus olhos ainda carregam os reflexos da juventude. Os cabelos são negros e cheios. O corpo ainda possui os músculos e a maciez de outrora. E sua boca... ah! sua boca ainda preenche a minha quando fecho os olhos fazendo querer mais e mais.
Algumas vezes, lágrimas caem quando penso em você, mas não as troco por nada. Sinto até o gosto salgado, quando escorrem por minha face e entram nos lábios. As absorvo como se sua saliva fosse.
Acho que foi melhor não nos termos visto de novo, assim posso imaginar que para você também eu fui importante. Quem sabe se tivéssemos nos encontrado depois de tanto tempo e enxergasse em seu olhar o vazio de quem não mais amava?
Quando a garota chega, não consigo ter esta paz. Ela pensa que me sinto só e puxa conversa tentando agradar. Não sabe que a única coisa que espero ansiosa é a hora em que se vai, para que fique com as fotos, as cartas, seus beijos e seus braços que sinto me abraçar toda vez em que deito para dormir.
Esta noite estou mais trêmula. Quase quebro a xícara que coloco ao lado da para que tomemos o café juntos antes de dormir. Vou deitar mais cedo. Sinto precisar que você me abrace forte para que pare de tremer.