Perfeição pode ser apenas um momento
21/01/2017 | 18h49
Perfeição pode ser apenas um momento
Cândida Albernaz
Não vire ainda. Siga em frente e não se volte. Meus olhos estão colados em sua nuca e à medida que se distancia, mais pareço enxergá-lo. São meus olhos de dentro, aqueles que vêem com a alma. E através deles ouço você rindo muito de alguma graça que fiz. Foi assim desde que nos conhecemos. Rimos um do outro. Rimos um com o outro. Rimos juntos.
Dê-me a mão e puxe para que corra à toa sem lugar para chegar. Só para que, quase sem ar, a gente se beije com a sensação de sufocar.
Caminho seguindo-o, mas sem me aproximar. A qualquer momento vai ter que parar, pois você certamente encontrará o destino; essa palavra que brinca com a gente e nos leva até onde quer.
Um dia fomos a uma cartomante que dizia ler o futuro. Avisamos que só se fôssemos os dois ao mesmo tempo. Contrafeita ela concordou. Falou um pouco a respeito do seu trabalho; errou. Comentou sobre a relação entre mim e mamãe; acertou. Quando disse alguma coisa sobre nós, pareceu impaciente e resumiu aquele monte de cartas em: vai dar tudo certo no final.
Saímos dali abraçados, com uma sensação chata, como se alguém tivesse colocado o dedo onde não devia. Na nossa vida.
Recordo minhas mãos em seu pescoço e o perfume de sua cabeça ao acordar. Tem um cheiro seu, de pele sua que eu gosto de sentir.
Não me dói lembrar as viagens que fizemos ou de algum lugar que fomos. O que machuca é trazer à memória o jeito que você espalha a manteiga na torrada no café da manhã, a maneira silenciosa de se aproximar - proposital – e que quase sempre me surpreende. Um susto de alegria quando então você me agarra e ri um riso de menino. Quando olho seus pés cruzados um sobre o outro no lençol branco e os reconheço como se tivessem estado ali desde sempre. Essa saudade muitas vezes inventada é que faz sofrer.
Acho que sei aonde vai. Houve dias em que o peguei no trabalho para almoçarmos aqui perto porque quase não tinha tempo. Era só para que eu pudesse ficar mais um pouquinho ao seu lado. Você cheio de idéias e preocupações, tentando resolver problemas aumentados de forma gigantesca por sua necessidade de perfeição. Nunca atingida, claro. Ainda bem, porque tudo o que se pretende perfeito, acaba se tornando maçante. Parece não sobrar nada a partir da tal perfeição. Lembra um ponto final.
Acelero o passo, quero que me veja, quero a exclamação refletida em seu rosto.
Paro à sua frente e o faço estancar.
- Ei! Onde estava?
- Te seguindo, observando de longe.
- Muito tempo?
- O tempo de um pensamento que percorreu o presente como se fosse passado.
Seu sorriso me fez rir.
- Você e esse jeito de falar...
- Que você gosta.
- Gosto.
- Vamos para casa? Agora!
- Mas eu preciso almoçar rápido, por aqui mesmo. Tenho muito que fazer.
- Agora! Por favor.
- Uma ordem?
- Um pedido.
- Com pretensão de autoridade...
Eu estou rindo.
Abraçou minha cintura com firmeza e a puxou contra o quadril.
Hoje a necessidade de perfeição vai ficar para depois.
Ou não? Afinal, perfeição pode ser apenas um momento de prazer.
8-10-13
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Comparação
21/01/2017 | 18h49
Comparação
Cândida Albernaz
Sentado naquela cadeira, olhei para a cara do homem à minha frente. Todo arrumadinho.
Imagino o trabalho que deu passar aquela camisa. Claro que o trabalho não foi dele. Não tinha uma dobra e o colarinho estava engomado bem rente ao pescoço.
Lembrei do que estava vestindo. Também era uma camisa, mas com algumas diferenças. A começar pelo colarinho puído e manchado. O primeiro botão estava faltando. Havia caído. Mas quem precisa dele? Não uso gravata mesmo, aliás, nunca tive uma.
E as unhas do cara? Cortadinhas, limpinhas e com brilho. Arre! Isso não é coisa de macho. Pintar unhas?
Abaixei minhas mãos colocando-as no colo. As unhas estavam amareladas da nicotina, isto é, o que sobrava delas já que roia até o sabugo. Adoro fazer meu cigarrinho.
Voz mansa a do sujeito. Português correto. Percebia-se até o acento nas palavras quando falava.
Ele está aqui todo cheiroso, falando macio, tentando explicar porque estava me mandando embora. Dizia ter consideração por mim e por isso estava dando tanta satisfação. Sei bem o que quero que ele faça com a satisfação que dava. Não vou falar para não chocar o engomadinho.
Muito fácil ficar atrás de uma mesa numa sala com ar condicionado, só mandando e desmandando.
Eu lá fora todo dia ralando para ganhar uma miséria que mal dava para botar comida em casa. Ainda bem que a patroa da minha mulher era professora e arrumou lugar para as crianças na escola pública onde ela trabalhava, caso contrário não seria tão fácil conseguir vaga. É muito pobre querendo.
Outro dia o caçula lá de casa estava com tanto verme que chegou a botar bicho pela boca.
E eu olhando esse puto tentando dizer que a partir de então, vou ter que me virar para alimentar os filhos.
Queria ver esse aqui assistindo o filho engasgar com aquele monte de porcaria que saía da garganta. Claro que nunca passou por isso!
Agora ficou parado me olhando. Eu sei porquê. Espera que levante e saia da sala sem falar nada, indo direto para o departamento pessoal.
Não vou fazer isso, não. Vou ficar parado aqui olhando para ele também.
Já não sou garoto, mal estudei; como ele acha que vou viver até conseguir trabalho? Será que pensa que é fácil?
A mulher dele a essa hora deve estar em um salão fazendo unha, pintando o cabelo, falando da vida dos outros. A minha, coitada, quando sai do serviço ainda vai lavar roupa em casa e preparar comida para a gente. O cabelo já está quase todo branco e o corpo da época que a conheci, não sobrou nada. Também, só faz trabalhar. Envelheceu muito a minha garota.
Ele deve estar com pressa, pois aperta as mãos e depois passa as mesmas no cabelo com impaciência. Não tem um fio de cabelo branco, o desgraçado. Deve ter minha idade, mas pareço ser o pai dele.
Agora a pressa é porque quer sair cedo para pegar a funcionária nova, pois bem reparei na olhada que deu para ela quando veio trazer o café.
Veja só, ainda me serviu cafezinho. Só para depois me dar esse chute na bunda e colocar no olho da rua.
Está perguntando se entendi tudo direitinho. Ainda por cima acha que sou burro.
O sangue está me subindo à cabeça. Estou ficando muito irritado com isso tudo.
A última vez que fiquei assim foi quando o cachorro lá de casa mordeu o Zeca. Quase tirou fora a mão do garoto. Nem pensei muito. Matei à paulada.
Minha mulher chorava pelo menino e pelo cachorro. Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso.
Ele agora levantou e como se fosse meu amigo veio por trás de mim colocando a mão no ombro.
Não gosto que me toquem. Ainda mais um safado desse que tem tudo na vida e o pouco que tenho quer tirar.
Girei o corpo segurando a mão dele, torci e as prendi às suas costas.
Nem pensei muito, dei-lhe uma gravata e só parei de apertar o pescoço quando vi que não se mexia mais.
Deixei ele ali arriado no chão e saí da sala. Vou passar no departamento pessoal.
Acabei de ouvir o grito da secretária.
Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso.
I'm so tired
21/01/2017 | 18h49
I`m so tired
“I`m so tired...”, a voz da cantora no rádio parecia fazer coro com o que sentia. Também estava cansada. Cansada de lutar, tentar acreditar que com o tempo as coisas mudariam e sua maneira de sentir e querer seriam diferentes.
Dia do seu aniversário e sabia que seria como nos outros anos. Alguns amigos e parentes ligariam dando-lhe os parabéns e perguntando o que faria à noite. Para todos a mesma resposta: Estava ótima e talvez saísse para comemorar. Ligaria depois para dizer a hora e o local. Nunca havia esse depois. Jamais ligava de volta.
Era cedo ainda. Acabara de acordar e não tinha vontade alguma de sair de debaixo do lençol.
O quarto como sempre, seu refúgio. Ali se sentia segura dos medos que a perseguiam.
O único telefonema que esperava receber não viria. Hoje também era aniversário da mulher do homem que amava. Infeliz coincidência. Os dois costumavam viajar. Engraçado, ela sabia tudo da vida da outra e sempre se mostrara compreensiva. No início não fora tão difícil, mas depois de alguns anos só fingia entender. Não queria perdê-lo e já percebera há muito que ele não largaria a esposa. Aliás, ele falou com todas as letras que isso jamais aconteceria. Ela era a outra e seria para sempre. Não tinha forças para deixá-lo. Seu sofrimento servia como um amigo que a acompanhava todo o tempo e já passara a confortá-la.
Ficaria em casa esperando que talvez este ano ele conseguisse dar uma escapulida e ligar. São dez anos juntos. Dez anos à espera desse telefonema.
Depois de um bom tempo levantou-se e olhou o relógio. Já era tarde e sentia que seu estômago não obedecia ao mesmo desejo seu de ficar na cama o dia inteiro. Precisava comer.
Foi até a geladeira e retirou um pote de lasanha que colocou no microondas.
Droga! Seu aniversário e não conseguia ficar satisfeita nem mesmo com o prato predileto.
No dia anterior comprara aquela lasanha pensando em comê-la com uma taça de vinho. Que nada! O vinho continuava sobre a mesa sem ser aberto, e não conseguia sentir sabor algum enquanto comia.
Voltou para o quarto e ligou a televisão. Tentaria assistir a um filme. O controle remoto parecia um brinquedo onde apertava todos os botões passando os canais sem conseguir se concentrar em nenhum.
Volta e meia olhava o telefone. Todos os que podiam desejar-lhe felicidades já haviam ligado.
Começara a escurecer quando este tocou. Pulou da poltrona e correu para atender. Sua voz tremia.
Recebera o telefonema tão esperado. Ele. Não conseguia acreditar que estava ouvindo sua voz. Uma sensação de felicidade infantil invadiu-a. Mal o deixava falar. Ria, ria muito enquanto repetia que o amava. Depois de algum tempo notou que ele estava mudo e só ela falava, então parou e perguntou se havia acontecido algo.
A voz do outro lado da linha estava séria e soltou tudo de uma só vez sem fazer pausa. Dizia que enfim, depois de anos tentando, sua mulher conseguira engravidar. Presenteou-o hoje com o exame positivo e agora ele tomara a decisão de se dedicar a ela e a esse filho tão esperado. Não haveria mais espaço para os dois... e continuou falando, falando, falando. Tirou o fone do ouvido e deixou-o sobre a cama. Foi até o armário e de dentro da gaveta tirou um exame de sangue feito há dois anos. Releu mais uma vez o resultado: Positivo. Lembrava-se desse dia e o quanto ficou feliz, mas quando contou a novidade, recebeu uma ducha de água fria e uma ordem: Tire! Ela obedeceu como sempre. Abortou aquele filho que segundo ele atrapalharia a vida dos dois. Não teriam mais tempo um para o outro. Isso agora é passado, ela agora também era passado.
Entrou embaixo do lençol que não havia sido desfeito desde a manhã. Aliás, não devia ter saído dali. Cobriu o rosto e esperou que o sono chegasse. Sabia que em algum momento seus olhos estariam cansados e se fechariam. Então dormiria e só sobrariam os sonhos.
Cândida Albernaz
Não importa o porquê
21/01/2017 | 18h49
Não importa o porquê
Cândida Albernaz
Não sei por que resolvi escrever para você agora. Depois de tanto tempo e do que aconteceu. Havia prometido a mim mesma jamais tentar entender seus motivos. Até porque não acredito que haja algum que realmente mereça crédito.
Mas ontem sonhei com você e sorríamos uma para a outra. Parecíamos felizes e nem éramos mais crianças. E se resolvermos colocar na ponta do lápis, podemos observar que só nos divertimos de verdade juntas enquanto crianças.
Sempre admirei seu jeito extrovertido, sacana muitas vezes e parecendo ter certezas sobre tudo.
Nossa mãe era de quatro por você. Até tentou disfarçar em várias situações, mas a preferência era nítida. Acho que se pareciam demais e este foi o maior problema.
Papai, homem sério, calado, cheio de regras que esperava fossem seguidas e ela pronta para transgredir. Sempre me perguntei o que viram um no outro. Você consegue imaginar o namoro entre os dois? Só podia acabar como acabou.
Foi isso o que te fez tanto mal não é? Nunca quis conversar a respeito, mas me recordo de você trancada no quarto escuro por todos aqueles dias. Não abria os olhos, não falava com ninguém, mal comia e não ria. Você não rindo era o que mais me fazia mal. Odiei nossa mãe com toda força que possuía. Por você. Porque não suportava vê-la daquele jeito.
Saiu do quarto obrigada. Papai fez com se sentasse à mesa do almoço, e quando não quis comer, enfiou a mão cheia de comida em sua boca. Você não falou nada, mastigou aquela coisa e ficou esperando que ele repetisse. E ele repetiu até que não houvesse mais nada no prato. Quando acabou, pediu licença e foi para o banheiro. O que fez? Vomitou tudo? Ou apenas lavou toda aquela sujeira? Não soube.
No dia seguinte, voltou à vida normal. Ou quase. Hoje sei que nunca mais nada foi normal.
Só uma vez, uma única vez, você gritando comigo, me chamando de vadia, disse que mamãe poderia ter deixado todos nós, menos você. Havia um acordo de não se abandonarem. Não pense que sofri pouco, apenas diferente de você, onde a alegria ou a tristeza transbordam, inundam tudo o que há em volta.
Arrependo-me de não ter percebido ou entendido.
Vieram os namorados, um, dois, três, quatro, perdi a conta. Era sempre você quem desistia deles. E papai louco de ódio por sua falta de cerimônia levando todos em casa. Apresentou um por um a ele, que sem ter o que fazer na frente dos mesmos, sorria aquele sorriso de vergonha. Quando descobriu que além de levá-los para casa, dormia com eles, não se conteve. Fui obrigada a presenciar a surra que levou sem uma lágrima a escorrer. Só aquele risinho ridículo no canto da boca; o que o enfurecia ainda mais, fazendo com que não parasse. Tive medo e tentei segurá-lo; empurrou-me tão longe que bati a cabeça e cortei a testa. Nem o sangue que escorria no meu rosto fez com que desistisse.
Foi muito difícil entender que mamãe não voltaria. Que aqueles remédios que ingeriu a tinham levado para sempre. Que eu também não era importante o suficiente para que ela lutasse. Mas você, com todo aquele sofrimento, não me permitiu viver a perda dela. Porque estava com medo de perder você também. Não suportaria.
Não adiantou nada. Para que me preocupar tanto? Para que me anular e deixar que você brilhasse? Não foi mais a mesma. Hoje sei que você também morreu naquele dia. A irmã que conviveu comigo a partir dali era outra pessoa.
Estou casada e tenho dois filhos que são a minha vida. Acho que por estar tão bem resolvi escrever esta carta. Quero que saiba que a perdoei, não a entendi, mas perdoei.
Naquele dia que cheguei à casa e vi a luz do banheiro acesa, corri para lá. Queria te contar que Vítor me pedira em casamento. Estava feliz e queria que ficasse também. Por mim.
Não se preocupou em fechar a porta, talvez esperasse que qualquer um de nós entrasse a tempo. Infelizmente não foi assim. A água na banheira estava vermelha e seu rosto coberto por ela. Não houve o que pudesse ser feito.
Quando papai entrou, eu estava abraçada a você, com aqueles braços brancos em excesso em volta do meu pescoço. Ouvi seu grito e me lembrou o de um animal.
Por muito tempo me culpei por não ter notado nada. Mas hoje sei que não dependia de qualquer um de nós.
Minha irmã, espero que mamãe esteja a seu lado e em paz. Quem sabe um dia nos encontramos. Toda a nossa família junta de novo. Com quando éramos crianças e ríamos até sem motivo.
Pode ser que então vocês nos digam o porquê. Pode ser que então não importe mais saber.
10/09/2013
Sorte na vida
21/01/2017 | 18h49
Sorte na vida
Cândida Albernaz
Ele rolou no paralelepípedo como um pacote sem jeito e disforme. Não era a primeira vez que os vizinhos presenciavam tal cena.
- Dilma, vem cá para fora. O show recomeçou e nem é necessário armar o palco.
Olhavam um para o outro e riam.
Indiferente à curiosidade que provocava ele tentava se levantar gritando:
- Te amo Alzira. Me deixa ficar.
E de dentro de casa:
- Se botar os pés aqui, te jogo na rua de novo. Tô cansada de suas bebedeiras. Dinheiro que é bom, você não traz.
Nem sabia se aquele lugar poderia mesmo ser denominado de casa. Eram três cômodos sem banheiro e um fogão de duas bocas no corredor.
Se quisessem banho, usavam um balde retirando água da bica que havia lá fora, e as necessidades... Bem, estas ficavam num buraco atrás da casa. Isto, quando não resolviam se divertir colocando as fezes em algum saco plástico e jogando no telhado do vizinho. Eles nem mesmo os cumprimentavam; deviam se julgar melhores. Pois sim!
Suas duas filhas, os maridos das mesmas e sete netos moravam com ela. E aquele bêbado safado que de agora para frente teria que ir embora. Sobraria mais espaço e mais comida também.
As filhas emprenharam com quinze e dezesseis anos. Uma criança atrás da outra. O mais velho da turma tinha dez anos. Se alguém tem dúvida de que o inferno existe, é porque nunca passou por ali.
Todos costumavam brigar, gritar e xingar. Nesta ordem. Só não admitia que encostassem a mão um no outro. A única vez que aconteceu, agarrou um pedaço de pau e quebrou a cabeça do genro. Ele foi parar no hospital, caiu da escada. Hum! Que escada era essa? Só rindo. Mas nunca mais enfiou a mão em ninguém lá dentro.
Houve um dia em que a filha caçula chegando do trabalho deu de cara com ela e o genro na cama. Culpa da bebida. E da carência. E daqueles olhos lambidos dele para cima dela. A coisa ficou feia. A garota chorava e ameaçava os dois com um facão. As crianças assistiam a tudo. E os vizinhos, claro. Não que se preocupasse com eles, mas não queria ser motivo de diversão para aquela gente metida à besta.
Prometeu que não beberia mais e assim fez.
Não se falaram por um bom tempo, ela e a filha, mas o neto adoeceu, a neta caiu e cortou a boca, a comida faltou e uma foi precisando da outra. Ninguém ali tinha para onde ir, então tudo se ajeitou como deveria ser. A solução foi continuar a vida.
Ela, Alzira, também teve as filhas muito jovem e ainda não era velha. Um pouco acabada talvez.
Sua mãe vivia com o segundo marido, Orlando, e quando ela morreu, ele pediu que fizesse faxina na casa em que morava:
- Alzira, preciso de alguém para a limpeza da casa. Sei que está desempregada.
Ia lá três vezes por semana, depois falou que precisava de alguém que cozinhasse para ele. Pagava bem. E ela foi gostando de trabalhar naquele lugar. Uma casa pequena, com banheiro, cozinha e quase sem barulho. A não ser quando ele chegava e colocava música para ouvir. Adorava um sambinha antigo. Um dia pediu a ela que dançassem. Não se fez de rogada e abraçados dançaram, dançaram e dançaram.
Dias depois, ele falou que devia colocar os dentes que faltavam em sua boca. Avisou logo que não tinha dinheiro para isso. Ele disse que pagava.
Estava no fogão colocando um frango para assar e o viúvo chegou puxando-a pelo braço colocando uma sacola em sua mão. Quando abriu, havia dois vestidos dentro dela. Sorriu com um sorriso agora completo.
Quando Orlando ficou doente, perguntou se ela podia passar a noite com ele para dar os remédios na hora certa. Havia dois quartos e ela ficaria num deles. Cuidou dele aquela noite e a próxima.
Era um homem alto, um pouco gordo talvez, com uma barriga que chamava a atenção e bem mais velho. Mas cheirava bem e ela já não xingava ou gritava tanto.
Uma tarde chegou antes que ela se fosse e pediu que tomasse um banho, colocasse o novo vestido que trazia e se arrumasse. Pretendia levá-la para um lugar onde dançariam ouvindo uma banda. Quando voltavam, pararam numa praça e ali mesmo Orlando pediu que se casassem.
Olhou para o viúvo da mãe e muito séria, disse que era o que mais queria nessa vida. E ele que tinha guardado no bolso um anel, colocou em seu dedo e avisou:
- A partir de agora somos noivos. Casamos em um mês.
Isso foi há alguns anos.
As filhas ainda moram no mesmo lugar. Conseguiu que o marido fizesse um banheiro e uma cozinha para elas. Soube ontem que um dos genros bateu na mulher.
Pensou que ia ter que descer daquele salto alto por pelo menos mais uma vez. E não precisaria de um pedaço de pau. Com a própria sandália, furaria o olho daquele desgraçado. Queria ver se depois disso ele tentaria chegar perto da filha de novo! 09/09/2013
Obituário
21/01/2017 | 18h49
Obituários Cândida Albernaz
O peso nas pernas a impedia de andar com rapidez. Os anos passaram e quando percebeu, já quase não saía. As notícias de fora do seu apartamento, só sabia através do jornal ou da televisão. Aliás, era dali que conseguia saber sobre seus amigos do passado. Adquirira o hábito de ler os obituários e por inúmeras vezes chorou perdas antigas.
O filho Eugênio, que morava com ela, trabalhava durante todo o dia. Saía cedo e só retornava às sete horas da noite. Procurava o que fazer em casa, mas até mesmo costurar, um antigo prazer, se tornara difícil. A visão não ajudava.
Outro dia, sua irmã Zulmira, que morava em Campinas, veio com o filho ao Rio e passou o dia em sua casa. No final, não conseguiu dizer se foi bom ou não. A irmã, que tinha dois netos (e isto causou nela enorme inveja: dois netos!) reclamava de tudo: do filho, que não tinha paciência com ela, da nora que apesar de ser uma boa pessoa falava demais, das dores no corpo, da comida que não podia comer...
Fazia pelo menos três anos que não se viam, moravam longe e dependiam dos outros. Soube por Zulmira, sobre um primo delas. Ficara viúvo há dois meses. Ele e a mulher viveram juntos por sessenta e cinco anos. A irmã achava que ele agora não viveria muito mais, ia morrer de paixão. Por dentro, ela achou até graça. Sabia que ele deveria estar com noventa e seis anos. O que Zulmira queria?
Ela tinha uma forma de ver a vida que o tempo não conseguira modificar. Ria de tudo, via graça nos menores detalhes e tinha uma capacidade de transformar em piada até mesmo os seus problemas. A única coisa que realmente a entristecia era não ter tido netos, para que agora pudesse acompanhar de perto novas vidas que a fariam reviver a sua e de seu marido. Este, um homem de gênio difícil, explosivo, mas que com jeitinho, fazia quase tudo o que ela queria. Sentiu muito quando ele se foi, mas no final, em suas orações pedia para que Nosso Senhor o chamasse para junto dele. Não falava, andava ou fazia qualquer movimento. O tumor no cérebro levou-o em oito meses. Foi uma época dura, ela e o filho revezavam-se nos cuidados e apesar do marido nunca ter aceitado o filho que tinha, e os dois estarem sempre brigando, nunca viu tanto amor de um filho por um pai. Pena não se darem bem em vida. Quem sabe um dia os dois se reencontram e se perdoam pelo tanto de ruim que disseram entre si? Gostava de pensar assim.
Eugênio vive insistindo para que vá ao médico. Não quer e sabe que ele também não tem tempo de levá-la. Já se conhece bem, e o máximo que sente são estas tonteiras quando baixa a pressão. Toma um remedinho que sempre tem em casa, deita por algumas horas e pronto. Está boa de novo. O dia em que for embora, espera que seja como um passarinho e não em hospital se entupindo de remédio e coisas piores.
Hoje ainda não leu o jornal. Foi até a mesa de cabeceira e pegou sua pequena lupa, para enxergar melhor. Não gostava de óculos.
Abriu direto na página de obituários. Começou a ler o que diziam cada um. Alguns tinham dizeres bem bonitos. Havia um nome conhecido entre eles: Carlos José de Almeida. Seu único namorado além do marido. Tinha boas recordações. Bailes e escapadas no jardim da praça perto de casa. Esteve apaixonada por ele durante muito tempo, diferente do amor maduro que sentira pelo marido. Na época em que terminaram ainda se gostavam, mas era orgulhosa e não quis reatar quando Carlos José dias mais tarde pediu de forma insistente. Lembrava-se como se fosse ontem dos olhos cor de mel fitando-a.
Uma lágrima escorreu em seu rosto. Fechou o jornal e ligou a televisão. Estava passando um programa humorístico de que gostava. Tentaria dar boas risadas enquanto esperava o filho chegar para que jantassem juntos.
Frases nem tão soltas VII
21/01/2017 | 18h49
Frases nem tão soltas VII
Cândida Albernaz
Detesto a felicidade quando num piscar de olhos ela muda de humor.
*
Não é que eu tenha fôlego, o que tenho é urgência.
*
Será que em algum momento vamos julgar que se é velho o bastante para parar de querer? Eu nunca.
*
Hoje quero me vestir de cores e sentir os pingos de chuva na pele.
*
Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina.
*
Não gosto de ter sonhos maus. Atrapalham parte do meu dia. Gostaria menos se estes fossem sonhados enquanto acordada.
*
Em qualquer passagem que seja, em qualquer fase em que esteja, por mais que faça ou tenha feito, sempre será pouco a meu ver. É uma coisa minha essa de não se satisfazer.
*
Se o peito aperta, tenho medo de mim. Por mim.
*
Outra noite ao tentar dormir contei pássaros, e eles me levaram em sonhos fazendo das suas, minhas asas.
*
Em alguns dias vou até o limite do não sentir para que os minutos passem sem doer.
*
Nem sempre sou suave. Só para quem me vê com olhos que permito.
*
Vou deixando flores por onde passo, para que não me perca no caminho de volta.
*
Às vezes preciso me esconder do mundo e brincar sozinha.
*
Não importa se faz frio ou chove quando carregamos calor na alma.
*
Em alguns dias, à flor da pele... Apenas um sopro para voar longe.
*
Meu lado sonhador vive me pregando peças.
*
Tenho medo dos meus segredos, porque eles guardam meus desejos.
*
Porque experimentar sabores, viver momentos e se encantar com o que somos está no nosso tempo interno, que é todo e qualquer tempo em que vivemos. Siga em frente. O melhor sempre está aqui, ali, lá. Basta ir buscar.
27/08/2013
Apenas mais um
21/01/2017 | 18h49
Apenas mais um
Cândida Albernaz
Não foi fácil chegar aqui. Ainda não acostumei com as muletas. Se não fosse aquela senhora a me ajudar, não conseguiria entrar na van. A garota sentada no banco ao lado, olhou feio para mim quando sem querer encostei nela. Dei um sorriso meio torto, mas ela adquiriu uma nova expressão: de impaciência. É jovem, eu entendo. Acredita que vai ser assim para sempre.
A consulta está marcada há vinte dias. Tive sorte em conseguir logo. Ruim mesmo foi com o marido de Clotilde, uma vizinha, que ficou quatro dias no corredor do hospital esperando por uma vaga. E ele estava fraquinho, mal conseguia falar. Andar então, nem pensar. Clotilde ficou acabada passando as noites naquele lugar sem nem mesmo ter um espaço decente para sentar. A gente que é pobre não devia ficar doente, porque é sofrimento em dobro.
Outro dia, um conhecido do meu filho quase quebrou a cara de um médico. Chegaram ele e a mulher no posto de saúde, com a filhinha no colo. A menina tinha febre alta, gemia de dor e com a respiração difícil. Esperavam por duas horas e ela piorando. A gente escuta tanta coisa sobre crianças que morrem sem ajuda... Falaram com a atendente, com o porteiro e nada. Tinham que esperar a vez. Quando o pai percebeu que os olhos da filha estavam virando de um lado para o outro e o corpo queimava, perdeu a cabeça. Saiu empurrando quem encontrava pela frente e chegou até a sala do doutor. Sem falar nada, agarrou no jaleco do homem e gritou que medicasse a criança. Quase foi preso, mas salvou a filha. Não sei como seria se ele ficasse lá fora esperando, esperando, esperando... melhor ir para a cadeia!
Hoje sou eu quem vai esperar. Carrego duas bananas na bolsa caso sinta fome. A dor na coluna está me arrebentando. E depois que caí e quebrei a perna, a coisa piorou. Os filhos falaram sem parar que eu preciso ser mais cuidadosa, que não enxergo direito, não escuto bem, não posso andar sozinha por aí... Hum! Qual deles pôde vir comigo? Nenhum. Estão todos trabalhando. Marcinha, minha filha mais velha, foi quem conseguiu marcar a consulta e sou muito agradecida, mas hoje ela não teve como pedir folga para me acompanhar. Cada um tem seu problema e a própria vida. Eu não gosto de dar trabalho.
Que luta para descer desse carro. Meu Deus! está cheio isso aqui e o doutor ainda não chegou.
Nem sei a que horas vou embora. Apalpei minha bolsa e senti o volume das bananas que guardei. Fiquei imaginando que elas vão enganar a fome quando precisar.
O médico entrou agora. Muito jovem. Espero que deixe explicar com calma sobre minhas dores.
Há um senhor numa cadeira de rodas no canto da sala. Chegou depois de mim. Deve estar sentindo algo. Vi quando disfarçou e enxugou uma lágrima.
Não é que o doutor antes mesmo de procurar saber de quem era a vez, foi em direção desse senhor e o levou para o consultório?
Agora que terminaram está guiando-o até a porta de saída.
Correu os olhos pela sala e foi ao encontro de uma senhora velhinha que se firmava numa bengala de um lado e na filha do outro. Ele segurou em seu braço e fez com que as duas entrassem para serem atendidas. Fez isso sucessivamente, buscando pessoalmente os que pareciam necessitar mais, até que chegou minha vez.
Acredito que os mais jovens que estavam esperando não estivessem gostando muito daquele procedimento. Houve um início de burburinho. Ele colocando as mãos nos bolsos da roupa branca que usava, avisou que atenderia primeiro os deficientes, os de idade avançada ou com urgência, e então continuaria dando seguimento aos números das senhas. Alguns alegavam que não estava correto, os que chegaram antes deveriam ser recebidos primeiro.
O que vi em seguida foi ele olhar firmemente um a um e todos se calarem.
Não sei se ele estava certo ou não, mas quando passei por aquela porta, senti como se me enxergasse. Eu não era apenas mais uma. E nenhum daqueles pacientes seria apenas mais um.
De volta à casa, entrei na van sozinha, sem precisar de ajuda. Não sei o motivo, mas me senti forte e quando reclamaram das minhas muletas que esbarraram em alguém, pedi desculpas e sorri. Mas não foi um sorriso torto.
19/08/2013.
Tive escolha
21/01/2017 | 18h49
Tive escolha
Cândida Albernaz
Havia acabado de fazer dezessete anos quando entrou na pequena igreja vestida de noiva. O homem que estava ao lado e colocava uma aliança em seu dedo era muito mais velho. Alto, com uma barriga que cobria o cinto da calça que usava, uma calvície acentuada e trinta anos mais do que ela.
Os pais conseguiram convencê-la a se casar com seu Osvaldo.
Nasceu naquela fazenda, como os cinco irmãos. Moravam numa das casas construídas para os empregados. Recordava uma infância divertida, onde montava em cavalos, apenas os que o patrão permitia que fossem usados por eles, mergulhava num lago da propriedade e corria livre por entre os pastos.
Seu Osvaldo era casado, tinha dois filhos e perdeu a mulher para um câncer que tomara conta de seus ossos. Seus pais contavam que ela sofreu muito e ele também, vendo a mulher definhar daquele jeito.
No dia em que foi até a sede levar uma camisa que a mãe prendera alguns botões, é que notou um olhar diferente vindo daquele senhor.
Estava na cozinha comendo uma fatia de bolo de milho e conversava com Clotilde, a cozinheira, quando ele entrou pedindo café. Sentou na cadeira em frente à dela, que tentou levantar pedindo licença. Disse que precisava ir. Sentiu que ele reparou nela e teve medo. Sua mãe dizia que as mulheres têm instinto. O seu afirmava que ela deveria se afastar dali.
Dias depois ele apareceu procurando o pai. Os dois saíram juntos, mas não antes de pedir um cafezinho. Ela mesma entregou a xícara na mão dele, que aproveitou para apertar seus dedos contra os dela.
Em seis meses estava casada com o patrão dos pais. Sua família foi morar em uma casa maior e com salário melhor. Um acordo foi feito entre eles e ela aceitou. Havia também o irmão mais novo que precisava de cuidados especiais, o que foi prontamente oferecido por seu Osvaldo. Precisava se submeter a uma cirurgia no pé direito e usar um aparelho durante alguns anos. Coisa cara se quisessem ter sucesso. O bom homem que era seu Osvaldo pagou para que ele fosse atendido por um especialista e comprou tudo o que precisava. Todos estavam agradecidos, inclusive ela.
Os problemas só começaram depois que a porta do quarto da casa principal foi fechada.
Nunca conseguiu gostar daquele homem sem paciência alguma. Grosseiro e exigente costumava impor suas vontades.
Um ano depois, quando o primeiro dos nove filhos que tiveram nasceu, sentiu-se melhor. Agora havia alguém para amar.
Mesmo sendo gerado com violência, porque se recusara a se entregar e ele parecia ter prazer em provocá-la para que reagisse, aquela criança fez com que sorrisse inúmeras vezes. Enquanto cuidava dos filhos, conseguia esquecer as noites em que era obrigada a se sujeitar àquele homem que a machucava e violentava por puro prazer.
Após alguns anos e filhos, deixou de lutar. Apesar de com isso ele ter se tornado ainda mais agressivo, fechava os olhos e praticamente sem se mover, cedia.
Os que foram crianças agora estavam crescidos, uns casados e outros ainda moravam com ela. Os pais já não existiam mais e via os irmãos raramente, a não ser o caçula que continuou vivendo ali.
Mal reparou que os cabelos brancos cobriam parte de sua cabeça e as rugas desenhavam seu rosto. Não possuía vaidade alguma.
Com o passar do tempo, Osvaldo como enfim aprendera a chamá-lo, deixou de ter o mesmo vigor. Ainda era forte apesar da idade e acreditava que com a saúde que tinha, ela iria antes dele.
Habituara-se a não lamentar e podia dizer que hoje tinha uma vida tranquila. Não gostava de pensar no passado.
Dia desses, uma das filhas sentada ao seu lado, perguntou por que aguentou tudo calada. Por que não foi embora?
Não precisou pensar muito para responder.
- Uma época diferente da sua. Talvez eu pudesse ter ido depois que o primeiro ou o segundo filho nasceu. Mas perderia a oportunidade de ter você, por exemplo. Não me arrependo. Tive escolha e escolhi o amor. Escolhi vocês.
Futuro é o minuto seguinte
21/01/2017 | 18h49
Futuro é o minuto seguinte
Cândida Albernaz
Hoje o dia parecia estar nublado. Não tivera a coragem de abrir a cortina, mas pela escuridão do quarto, ou seria da alma?, só poderia estar com nuvens densas lá fora.
Não gostava de perceber-se assim. Pesada, como se correntes amarrassem seus pés.
Quem sabe voltando a dormir? Quando abrisse os olhos novamente enxergaria de outra forma. O peito apertava dificultando sua respiração. Se conseguisse chorar talvez se sentisse mais leve. Mas o-di-a-va chorar. Experimentava raiva quando isso acontecia. E ainda evidenciaria a todos que encontrasse que não estava bem. Nem a maquiagem disfarçaria o rosto inchado.
Droga!, precisava ficar desse jeito? Só porque ele disse que ia embora. Que fosse! Que fosse para o inferno! Ele e sua raiva do mundo.
Ontem enquanto discutiam, socou a parede e machucou a mão. Nem assim parou de cuspir palavras que a magoavam.
Estava meio cheia de sair por aí catando pedaços de si mesma toda vez que brigavam e ele ameaçava sair de sua vida. Como se em todos os momentos em que se completavam, riam um do outro, e um com o outro, pudesse ser esquecido num estalar de dedos. Ou numa falta de vontade de ser suave.
Conheceram-se na faculdade. Ela aluna, ele professor. Verdade que ela insistira para que saíssem a primeira vez. Ele havia sido casado e estava sozinho há alguns anos, com um filho que estudava numa cidade próxima dali. Ela nunca se casara, não tinha filhos e futuro era o minuto seguinte.
Estava claro que o amava e claro também que ele a amava, mesmo que pensasse ser fácil a tentativa de se afastar dela.
Qualquer dia desses, quando ele ameaçasse ir embora, ela sumiria. E dificilmente a encontraria de novo, porque se deixaria levar para tão longe, que mesmo ele estando ao seu lado, não conseguiria que ela o enxergasse.
Não vai encontrar o sono com tantos pensamentos brincando de atormentá-la. Melhor levantar e cuidar da vida.
Abriram a firma de publicidade, ela e duas amigas, há dois anos. Conseguiram uma conta importante e estavam acertando uma nova na mesma proporção. Com todas as outras que tinham, o dinheiro começava a entrar com mais facilidade.
Criatividade era a palavra chave. E como criar se não tinha sossego? Talvez fosse o momento de ela mesma decidir dar um basta.
Coragem! Onde está a danada da coragem? Riu de si mesma; sinal de que estava mais tranquila.
Onde colocou a sacola com o vestido que comprou? Um pouco curto talvez, mas o que importa? Ficou linda com ele. Pelo menos era como se via. Ao trabalho!
Sentia um formigamento na imaginação. Ficaria ótima a ideia da campanha para a linha de lingerie. Gostava quando estas fluíam sem muito controle.
Notou os olhares quando entrou no prédio. Era disso que precisava: auto estima massageada.
Colocou a bolsa no encosto da cadeira, ligou o computador. O celular tocou. Não, não atenderia ninguém. A cabeça fervilhava com imagens de calcinhas, soutiens, espartilhos, rendas. Viu o nome na tela do celular. Seu professor teria que esperar um pouco. Ou muito.
Pensou que dessa vez ele terá que dormir em casa por mais alguns dias.
Talvez ela mudasse de opinião, quando à noite, se percebesse sozinha no quarto. Naquele momento, tinha certeza do que queria. Ou do que não queria.
Entre uma reunião e outra, vinha aquele sorriso de dentes irregulares no rosto moreno com rugas de vida. Resistiria. Não continuaria à mercê das vontades e grosserias daquele homem.
Assim que esta nova campanha estivesse pronta, viajaria. Sozinha, como ainda não fizera.
Dessa vez precisava que ele esperasse sua decisão de estar junto ou não.
Ainda que chorasse por algum tempo, não o faria o tempo todo.
No espelho do banheiro, observou pequenas marcas em volta dos olhos. Pelo jeito, o tempo insistia em seguir adiante e ela pensou que faria o mesmo. Não havia escolha.
11-06-2013
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