Não importa o porquê
Não importa o porquê
Cândida Albernaz
Não sei por que resolvi escrever para você agora. Depois de tanto tempo e do que aconteceu. Havia prometido a mim mesma jamais tentar entender seus motivos. Até porque não acredito que haja algum que realmente mereça crédito.
Mas ontem sonhei com você e sorríamos uma para a outra. Parecíamos felizes e nem éramos mais crianças. E se resolvermos colocar na ponta do lápis, podemos observar que só nos divertimos de verdade juntas enquanto crianças.
Sempre admirei seu jeito extrovertido, sacana muitas vezes e parecendo ter certezas sobre tudo.
Nossa mãe era de quatro por você. Até tentou disfarçar em várias situações, mas a preferência era nítida. Acho que se pareciam demais e este foi o maior problema.
Papai, homem sério, calado, cheio de regras que esperava fossem seguidas e ela pronta para transgredir. Sempre me perguntei o que viram um no outro. Você consegue imaginar o namoro entre os dois? Só podia acabar como acabou.
Foi isso o que te fez tanto mal não é? Nunca quis conversar a respeito, mas me recordo de você trancada no quarto escuro por todos aqueles dias. Não abria os olhos, não falava com ninguém, mal comia e não ria. Você não rindo era o que mais me fazia mal. Odiei nossa mãe com toda força que possuía. Por você. Porque não suportava vê-la daquele jeito.
Saiu do quarto obrigada. Papai fez com se sentasse à mesa do almoço, e quando não quis comer, enfiou a mão cheia de comida em sua boca. Você não falou nada, mastigou aquela coisa e ficou esperando que ele repetisse. E ele repetiu até que não houvesse mais nada no prato. Quando acabou, pediu licença e foi para o banheiro. O que fez? Vomitou tudo? Ou apenas lavou toda aquela sujeira? Não soube.
No dia seguinte, voltou à vida normal. Ou quase. Hoje sei que nunca mais nada foi normal.
Só uma vez, uma única vez, você gritando comigo, me chamando de vadia, disse que mamãe poderia ter deixado todos nós, menos você. Havia um acordo de não se abandonarem. Não pense que sofri pouco, apenas diferente de você, onde a alegria ou a tristeza transbordam, inundam tudo o que há em volta.
Arrependo-me de não ter percebido ou entendido.
Vieram os namorados, um, dois, três, quatro, perdi a conta. Era sempre você quem desistia deles. E papai louco de ódio por sua falta de cerimônia levando todos em casa. Apresentou um por um a ele, que sem ter o que fazer na frente dos mesmos, sorria aquele sorriso de vergonha. Quando descobriu que além de levá-los para casa, dormia com eles, não se conteve. Fui obrigada a presenciar a surra que levou sem uma lágrima a escorrer. Só aquele risinho ridículo no canto da boca; o que o enfurecia ainda mais, fazendo com que não parasse. Tive medo e tentei segurá-lo; empurrou-me tão longe que bati a cabeça e cortei a testa. Nem o sangue que escorria no meu rosto fez com que desistisse.
Foi muito difícil entender que mamãe não voltaria. Que aqueles remédios que ingeriu a tinham levado para sempre. Que eu também não era importante o suficiente para que ela lutasse. Mas você, com todo aquele sofrimento, não me permitiu viver a perda dela. Porque estava com medo de perder você também. Não suportaria.
Não adiantou nada. Para que me preocupar tanto? Para que me anular e deixar que você brilhasse? Não foi mais a mesma. Hoje sei que você também morreu naquele dia. A irmã que conviveu comigo a partir dali era outra pessoa.
Estou casada e tenho dois filhos que são a minha vida. Acho que por estar tão bem resolvi escrever esta carta. Quero que saiba que a perdoei, não a entendi, mas perdoei.
Naquele dia que cheguei à casa e vi a luz do banheiro acesa, corri para lá. Queria te contar que Vítor me pedira em casamento. Estava feliz e queria que ficasse também. Por mim.
Não se preocupou em fechar a porta, talvez esperasse que qualquer um de nós entrasse a tempo. Infelizmente não foi assim. A água na banheira estava vermelha e seu rosto coberto por ela. Não houve o que pudesse ser feito.
Quando papai entrou, eu estava abraçada a você, com aqueles braços brancos em excesso em volta do meu pescoço. Ouvi seu grito e me lembrou o de um animal.
Por muito tempo me culpei por não ter notado nada. Mas hoje sei que não dependia de qualquer um de nós.
Minha irmã, espero que mamãe esteja a seu lado e em paz. Quem sabe um dia nos encontramos. Toda a nossa família junta de novo. Com quando éramos crianças e ríamos até sem motivo.
Pode ser que então vocês nos digam o porquê. Pode ser que então não importe mais saber.
10/09/2013