Futuro é o minuto seguinte
candida 01/08/2013 18:43
Futuro é o minuto seguinte Cândida Albernaz Hoje o dia parecia estar nublado. Não tivera a coragem de abrir a cortina, mas pela escuridão do quarto, ou seria da alma?, só poderia estar com nuvens densas lá fora. Não gostava de perceber-se assim. Pesada, como se correntes amarrassem seus pés. Quem sabe voltando a dormir? Quando abrisse os olhos novamente enxergaria de outra forma. O peito apertava dificultando sua respiração. Se conseguisse chorar talvez se sentisse mais leve. Mas o-di-a-va chorar. Experimentava raiva quando isso acontecia. E ainda evidenciaria a todos que encontrasse que não estava bem. Nem a maquiagem disfarçaria o rosto inchado. Droga!, precisava ficar desse jeito? Só porque ele disse que ia embora. Que fosse! Que fosse para o inferno! Ele e sua raiva do mundo. Ontem enquanto discutiam, socou a parede e machucou a mão. Nem assim parou de cuspir palavras que a magoavam. Estava meio cheia de sair por aí catando pedaços de si mesma toda vez que brigavam e ele ameaçava sair de sua vida. Como se em todos os momentos em que se completavam, riam um do outro, e um com o outro, pudesse ser esquecido num estalar de dedos. Ou numa falta de vontade de ser suave. Conheceram-se na faculdade. Ela aluna, ele professor. Verdade que ela insistira para que saíssem a primeira vez. Ele havia sido casado e estava sozinho há alguns anos, com um filho que estudava numa cidade próxima dali. Ela nunca se casara, não tinha filhos e futuro era o minuto seguinte. Estava claro que o amava e claro também que ele a amava, mesmo que pensasse ser fácil a tentativa de se afastar dela. Qualquer dia desses, quando ele ameaçasse ir embora, ela sumiria. E dificilmente a encontraria de novo, porque se deixaria levar para tão longe, que mesmo ele estando ao seu lado, não conseguiria que ela o enxergasse. Não vai encontrar o sono com tantos pensamentos brincando de atormentá-la. Melhor levantar e cuidar da vida. Abriram a firma de publicidade, ela e duas amigas, há dois anos. Conseguiram uma conta importante e estavam acertando uma nova na mesma proporção. Com todas as outras que tinham, o dinheiro começava a entrar com mais facilidade. Criatividade era a palavra chave. E como criar se não tinha sossego? Talvez fosse o momento de ela mesma decidir dar um basta. Coragem! Onde está a danada da coragem? Riu de si mesma; sinal de que estava mais tranquila.   Onde colocou a sacola com o vestido que comprou? Um pouco curto talvez, mas o que importa? Ficou linda com ele. Pelo menos era como se via. Ao trabalho! Sentia um formigamento na imaginação. Ficaria ótima a ideia da campanha para a linha de lingerie. Gostava quando estas fluíam sem muito controle. Notou os olhares quando entrou no prédio. Era disso que precisava: auto estima massageada. Colocou a bolsa no encosto da cadeira, ligou o computador. O celular tocou. Não, não atenderia ninguém. A cabeça fervilhava com imagens de calcinhas, soutiens, espartilhos, rendas. Viu o nome na tela do celular. Seu professor teria que esperar um pouco. Ou muito. Pensou que dessa vez ele terá que dormir em casa por mais alguns dias. Talvez ela mudasse de opinião, quando à noite, se percebesse sozinha no quarto. Naquele momento, tinha certeza do que queria. Ou do que não queria. Entre uma reunião e outra, vinha aquele sorriso de dentes irregulares no rosto moreno com rugas de vida. Resistiria. Não continuaria à mercê das vontades e grosserias daquele homem. Assim que esta nova campanha estivesse pronta, viajaria. Sozinha, como ainda não fizera. Dessa vez precisava que ele esperasse sua decisão de estar junto ou não. Ainda que chorasse por algum tempo, não o faria o tempo todo. No espelho do banheiro, observou pequenas marcas em volta dos olhos. Pelo jeito, o tempo insistia em seguir adiante e ela pensou que faria o mesmo. Não havia escolha. 11-06-2013  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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