Sorte na vida
Sorte na vida
Cândida Albernaz
Ele rolou no paralelepípedo como um pacote sem jeito e disforme. Não era a primeira vez que os vizinhos presenciavam tal cena.
- Dilma, vem cá para fora. O show recomeçou e nem é necessário armar o palco.
Olhavam um para o outro e riam.
Indiferente à curiosidade que provocava ele tentava se levantar gritando:
- Te amo Alzira. Me deixa ficar.
E de dentro de casa:
- Se botar os pés aqui, te jogo na rua de novo. Tô cansada de suas bebedeiras. Dinheiro que é bom, você não traz.
Nem sabia se aquele lugar poderia mesmo ser denominado de casa. Eram três cômodos sem banheiro e um fogão de duas bocas no corredor.
Se quisessem banho, usavam um balde retirando água da bica que havia lá fora, e as necessidades... Bem, estas ficavam num buraco atrás da casa. Isto, quando não resolviam se divertir colocando as fezes em algum saco plástico e jogando no telhado do vizinho. Eles nem mesmo os cumprimentavam; deviam se julgar melhores. Pois sim!
Suas duas filhas, os maridos das mesmas e sete netos moravam com ela. E aquele bêbado safado que de agora para frente teria que ir embora. Sobraria mais espaço e mais comida também.
As filhas emprenharam com quinze e dezesseis anos. Uma criança atrás da outra. O mais velho da turma tinha dez anos. Se alguém tem dúvida de que o inferno existe, é porque nunca passou por ali.
Todos costumavam brigar, gritar e xingar. Nesta ordem. Só não admitia que encostassem a mão um no outro. A única vez que aconteceu, agarrou um pedaço de pau e quebrou a cabeça do genro. Ele foi parar no hospital, caiu da escada. Hum! Que escada era essa? Só rindo. Mas nunca mais enfiou a mão em ninguém lá dentro.
Houve um dia em que a filha caçula chegando do trabalho deu de cara com ela e o genro na cama. Culpa da bebida. E da carência. E daqueles olhos lambidos dele para cima dela. A coisa ficou feia. A garota chorava e ameaçava os dois com um facão. As crianças assistiam a tudo. E os vizinhos, claro. Não que se preocupasse com eles, mas não queria ser motivo de diversão para aquela gente metida à besta.
Prometeu que não beberia mais e assim fez.
Não se falaram por um bom tempo, ela e a filha, mas o neto adoeceu, a neta caiu e cortou a boca, a comida faltou e uma foi precisando da outra. Ninguém ali tinha para onde ir, então tudo se ajeitou como deveria ser. A solução foi continuar a vida.
Ela, Alzira, também teve as filhas muito jovem e ainda não era velha. Um pouco acabada talvez.
Sua mãe vivia com o segundo marido, Orlando, e quando ela morreu, ele pediu que fizesse faxina na casa em que morava:
- Alzira, preciso de alguém para a limpeza da casa. Sei que está desempregada.
Ia lá três vezes por semana, depois falou que precisava de alguém que cozinhasse para ele. Pagava bem. E ela foi gostando de trabalhar naquele lugar. Uma casa pequena, com banheiro, cozinha e quase sem barulho. A não ser quando ele chegava e colocava música para ouvir. Adorava um sambinha antigo. Um dia pediu a ela que dançassem. Não se fez de rogada e abraçados dançaram, dançaram e dançaram.
Dias depois, ele falou que devia colocar os dentes que faltavam em sua boca. Avisou logo que não tinha dinheiro para isso. Ele disse que pagava.
Estava no fogão colocando um frango para assar e o viúvo chegou puxando-a pelo braço colocando uma sacola em sua mão. Quando abriu, havia dois vestidos dentro dela. Sorriu com um sorriso agora completo.
Quando Orlando ficou doente, perguntou se ela podia passar a noite com ele para dar os remédios na hora certa. Havia dois quartos e ela ficaria num deles. Cuidou dele aquela noite e a próxima.
Era um homem alto, um pouco gordo talvez, com uma barriga que chamava a atenção e bem mais velho. Mas cheirava bem e ela já não xingava ou gritava tanto.
Uma tarde chegou antes que ela se fosse e pediu que tomasse um banho, colocasse o novo vestido que trazia e se arrumasse. Pretendia levá-la para um lugar onde dançariam ouvindo uma banda. Quando voltavam, pararam numa praça e ali mesmo Orlando pediu que se casassem.
Olhou para o viúvo da mãe e muito séria, disse que era o que mais queria nessa vida. E ele que tinha guardado no bolso um anel, colocou em seu dedo e avisou:
- A partir de agora somos noivos. Casamos em um mês.
Isso foi há alguns anos.
As filhas ainda moram no mesmo lugar. Conseguiu que o marido fizesse um banheiro e uma cozinha para elas. Soube ontem que um dos genros bateu na mulher.
Pensou que ia ter que descer daquele salto alto por pelo menos mais uma vez. E não precisaria de um pedaço de pau. Com a própria sandália, furaria o olho daquele desgraçado. Queria ver se depois disso ele tentaria chegar perto da filha de novo! 09/09/2013