Comparação
Comparação
Cândida Albernaz
Sentado naquela cadeira, olhei para a cara do homem à minha frente. Todo arrumadinho.
Imagino o trabalho que deu passar aquela camisa. Claro que o trabalho não foi dele. Não tinha uma dobra e o colarinho estava engomado bem rente ao pescoço.
Lembrei do que estava vestindo. Também era uma camisa, mas com algumas diferenças. A começar pelo colarinho puído e manchado. O primeiro botão estava faltando. Havia caído. Mas quem precisa dele? Não uso gravata mesmo, aliás, nunca tive uma.
E as unhas do cara? Cortadinhas, limpinhas e com brilho. Arre! Isso não é coisa de macho. Pintar unhas?
Abaixei minhas mãos colocando-as no colo. As unhas estavam amareladas da nicotina, isto é, o que sobrava delas já que roia até o sabugo. Adoro fazer meu cigarrinho.
Voz mansa a do sujeito. Português correto. Percebia-se até o acento nas palavras quando falava.
Ele está aqui todo cheiroso, falando macio, tentando explicar porque estava me mandando embora. Dizia ter consideração por mim e por isso estava dando tanta satisfação. Sei bem o que quero que ele faça com a satisfação que dava. Não vou falar para não chocar o engomadinho.
Muito fácil ficar atrás de uma mesa numa sala com ar condicionado, só mandando e desmandando.
Eu lá fora todo dia ralando para ganhar uma miséria que mal dava para botar comida em casa. Ainda bem que a patroa da minha mulher era professora e arrumou lugar para as crianças na escola pública onde ela trabalhava, caso contrário não seria tão fácil conseguir vaga. É muito pobre querendo.
Outro dia o caçula lá de casa estava com tanto verme que chegou a botar bicho pela boca.
E eu olhando esse puto tentando dizer que a partir de então, vou ter que me virar para alimentar os filhos.
Queria ver esse aqui assistindo o filho engasgar com aquele monte de porcaria que saía da garganta. Claro que nunca passou por isso!
Agora ficou parado me olhando. Eu sei porquê. Espera que levante e saia da sala sem falar nada, indo direto para o departamento pessoal.
Não vou fazer isso, não. Vou ficar parado aqui olhando para ele também.
Já não sou garoto, mal estudei; como ele acha que vou viver até conseguir trabalho? Será que pensa que é fácil?
A mulher dele a essa hora deve estar em um salão fazendo unha, pintando o cabelo, falando da vida dos outros. A minha, coitada, quando sai do serviço ainda vai lavar roupa em casa e preparar comida para a gente. O cabelo já está quase todo branco e o corpo da época que a conheci, não sobrou nada. Também, só faz trabalhar. Envelheceu muito a minha garota.
Ele deve estar com pressa, pois aperta as mãos e depois passa as mesmas no cabelo com impaciência. Não tem um fio de cabelo branco, o desgraçado. Deve ter minha idade, mas pareço ser o pai dele.
Agora a pressa é porque quer sair cedo para pegar a funcionária nova, pois bem reparei na olhada que deu para ela quando veio trazer o café.
Veja só, ainda me serviu cafezinho. Só para depois me dar esse chute na bunda e colocar no olho da rua.
Está perguntando se entendi tudo direitinho. Ainda por cima acha que sou burro.
O sangue está me subindo à cabeça. Estou ficando muito irritado com isso tudo.
A última vez que fiquei assim foi quando o cachorro lá de casa mordeu o Zeca. Quase tirou fora a mão do garoto. Nem pensei muito. Matei à paulada.
Minha mulher chorava pelo menino e pelo cachorro. Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso.
Ele agora levantou e como se fosse meu amigo veio por trás de mim colocando a mão no ombro.
Não gosto que me toquem. Ainda mais um safado desse que tem tudo na vida e o pouco que tenho quer tirar.
Girei o corpo segurando a mão dele, torci e as prendi às suas costas.
Nem pensei muito, dei-lhe uma gravata e só parei de apertar o pescoço quando vi que não se mexia mais.
Deixei ele ali arriado no chão e saí da sala. Vou passar no departamento pessoal.
Acabei de ouvir o grito da secretária.
Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso.