Comparação
candida 03/10/2013 17:11
Comparação Cândida Albernaz Sentado naquela cadeira, olhei para a cara do homem à minha frente. Todo arrumadinho. Imagino o trabalho que deu passar aquela camisa. Claro que o trabalho não foi dele. Não tinha uma dobra e o colarinho estava engomado bem rente ao pescoço. Lembrei do que estava vestindo. Também era uma camisa, mas com algumas diferenças. A começar pelo colarinho puído e manchado. O primeiro botão estava faltando. Havia caído. Mas quem precisa dele? Não uso gravata mesmo, aliás, nunca tive uma. E as unhas do cara? Cortadinhas, limpinhas e com brilho. Arre! Isso não é coisa de macho. Pintar unhas? Abaixei minhas mãos colocando-as no colo. As unhas estavam amareladas da nicotina, isto é, o que sobrava delas já que roia até o sabugo. Adoro fazer meu cigarrinho. Voz mansa a do sujeito. Português correto. Percebia-se até o acento nas palavras quando falava. Ele está aqui todo cheiroso, falando macio, tentando explicar porque estava me mandando embora. Dizia ter consideração por mim e por isso estava dando tanta satisfação. Sei bem o que quero que ele faça com a satisfação que dava. Não vou falar para não chocar o engomadinho. Muito fácil ficar atrás de uma mesa numa sala com ar condicionado, só mandando e desmandando. Eu lá fora todo dia ralando para ganhar uma miséria que mal dava para botar comida em casa. Ainda bem que a patroa da minha mulher era professora e arrumou lugar para as crianças na escola pública onde ela trabalhava, caso contrário não seria tão fácil conseguir vaga. É muito pobre querendo. Outro dia o caçula lá de casa estava com tanto verme que chegou a botar bicho pela boca. E eu olhando esse puto tentando dizer que a partir de então, vou ter que me virar para alimentar os filhos. Queria ver esse aqui assistindo o filho engasgar com aquele monte de porcaria que saía da garganta. Claro que nunca passou por isso! Agora ficou parado me olhando. Eu sei porquê. Espera que levante e saia da sala sem falar nada, indo direto para o departamento pessoal. Não vou fazer isso, não. Vou ficar parado aqui olhando para ele também. Já não sou garoto, mal estudei; como ele acha que vou viver até conseguir trabalho? Será que pensa que é fácil? A mulher dele a essa hora deve estar em um salão fazendo unha, pintando o cabelo, falando da vida dos outros. A minha, coitada, quando sai do serviço ainda vai lavar roupa em casa e preparar comida para a gente. O cabelo já está quase todo branco e o corpo da época que a conheci, não sobrou nada. Também, só faz trabalhar. Envelheceu muito a minha garota. Ele deve estar com pressa, pois aperta as mãos e depois passa as mesmas no cabelo com impaciência. Não tem um fio de cabelo branco, o desgraçado. Deve ter minha idade, mas pareço ser o pai dele. Agora a pressa é porque quer sair cedo para pegar a funcionária nova, pois bem reparei na olhada que deu para ela quando veio trazer o café. Veja só, ainda me serviu cafezinho. Só para depois me dar esse chute na bunda e colocar no olho da rua. Está perguntando se entendi tudo direitinho. Ainda por cima acha que sou burro. O sangue está me subindo à cabeça. Estou ficando muito irritado com isso tudo. A última vez que fiquei assim foi quando o cachorro lá de casa mordeu o Zeca. Quase tirou fora a mão do garoto. Nem pensei muito. Matei à paulada. Minha mulher chorava pelo menino e pelo cachorro. Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso. Ele agora levantou e como se fosse meu amigo veio por trás de mim colocando a mão no ombro. Não gosto que me toquem. Ainda mais um safado desse que tem tudo na vida e o pouco que tenho quer tirar. Girei o corpo segurando a mão dele, torci e as prendi às suas costas. Nem pensei muito, dei-lhe uma gravata e só parei de apertar o pescoço quando vi que não se mexia mais. Deixei ele ali arriado no chão e saí da sala. Vou passar no departamento pessoal. Acabei de ouvir o grito da secretária. Nem liguei. Acabei com ele e não penso mais nisso.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS