I'm so tired
I`m so tired
“I`m so tired...”, a voz da cantora no rádio parecia fazer coro com o que sentia. Também estava cansada. Cansada de lutar, tentar acreditar que com o tempo as coisas mudariam e sua maneira de sentir e querer seriam diferentes.
Dia do seu aniversário e sabia que seria como nos outros anos. Alguns amigos e parentes ligariam dando-lhe os parabéns e perguntando o que faria à noite. Para todos a mesma resposta: Estava ótima e talvez saísse para comemorar. Ligaria depois para dizer a hora e o local. Nunca havia esse depois. Jamais ligava de volta.
Era cedo ainda. Acabara de acordar e não tinha vontade alguma de sair de debaixo do lençol.
O quarto como sempre, seu refúgio. Ali se sentia segura dos medos que a perseguiam.
O único telefonema que esperava receber não viria. Hoje também era aniversário da mulher do homem que amava. Infeliz coincidência. Os dois costumavam viajar. Engraçado, ela sabia tudo da vida da outra e sempre se mostrara compreensiva. No início não fora tão difícil, mas depois de alguns anos só fingia entender. Não queria perdê-lo e já percebera há muito que ele não largaria a esposa. Aliás, ele falou com todas as letras que isso jamais aconteceria. Ela era a outra e seria para sempre. Não tinha forças para deixá-lo. Seu sofrimento servia como um amigo que a acompanhava todo o tempo e já passara a confortá-la.
Ficaria em casa esperando que talvez este ano ele conseguisse dar uma escapulida e ligar. São dez anos juntos. Dez anos à espera desse telefonema.
Depois de um bom tempo levantou-se e olhou o relógio. Já era tarde e sentia que seu estômago não obedecia ao mesmo desejo seu de ficar na cama o dia inteiro. Precisava comer.
Foi até a geladeira e retirou um pote de lasanha que colocou no microondas.
Droga! Seu aniversário e não conseguia ficar satisfeita nem mesmo com o prato predileto.
No dia anterior comprara aquela lasanha pensando em comê-la com uma taça de vinho. Que nada! O vinho continuava sobre a mesa sem ser aberto, e não conseguia sentir sabor algum enquanto comia.
Voltou para o quarto e ligou a televisão. Tentaria assistir a um filme. O controle remoto parecia um brinquedo onde apertava todos os botões passando os canais sem conseguir se concentrar em nenhum.
Volta e meia olhava o telefone. Todos os que podiam desejar-lhe felicidades já haviam ligado.
Começara a escurecer quando este tocou. Pulou da poltrona e correu para atender. Sua voz tremia.
Recebera o telefonema tão esperado. Ele. Não conseguia acreditar que estava ouvindo sua voz. Uma sensação de felicidade infantil invadiu-a. Mal o deixava falar. Ria, ria muito enquanto repetia que o amava. Depois de algum tempo notou que ele estava mudo e só ela falava, então parou e perguntou se havia acontecido algo.
A voz do outro lado da linha estava séria e soltou tudo de uma só vez sem fazer pausa. Dizia que enfim, depois de anos tentando, sua mulher conseguira engravidar. Presenteou-o hoje com o exame positivo e agora ele tomara a decisão de se dedicar a ela e a esse filho tão esperado. Não haveria mais espaço para os dois... e continuou falando, falando, falando. Tirou o fone do ouvido e deixou-o sobre a cama. Foi até o armário e de dentro da gaveta tirou um exame de sangue feito há dois anos. Releu mais uma vez o resultado: Positivo. Lembrava-se desse dia e o quanto ficou feliz, mas quando contou a novidade, recebeu uma ducha de água fria e uma ordem: Tire! Ela obedeceu como sempre. Abortou aquele filho que segundo ele atrapalharia a vida dos dois. Não teriam mais tempo um para o outro. Isso agora é passado, ela agora também era passado.
Entrou embaixo do lençol que não havia sido desfeito desde a manhã. Aliás, não devia ter saído dali. Cobriu o rosto e esperou que o sono chegasse. Sabia que em algum momento seus olhos estariam cansados e se fechariam. Então dormiria e só sobrariam os sonhos.
Cândida Albernaz