Tive escolha
candida 16/08/2013 11:49
Tive escolha Cândida Albernaz Havia acabado de fazer dezessete anos quando entrou na pequena igreja vestida de noiva. O homem que estava ao lado e colocava uma aliança em seu dedo era muito mais velho. Alto, com uma barriga que cobria o cinto da calça que usava, uma calvície acentuada e trinta anos mais do que ela. Os pais conseguiram convencê-la a se casar com seu Osvaldo. Nasceu naquela fazenda, como os cinco irmãos. Moravam numa das casas construídas para os empregados. Recordava uma infância divertida, onde montava em cavalos, apenas os que o patrão permitia que fossem usados por eles, mergulhava num lago da propriedade e corria livre por entre os pastos. Seu Osvaldo era casado, tinha dois filhos e perdeu a mulher para um câncer que tomara conta de seus ossos. Seus pais contavam que ela sofreu muito e ele também, vendo a mulher definhar daquele jeito. No dia em que foi até a sede levar uma camisa que a mãe prendera alguns botões, é que notou um olhar diferente vindo daquele senhor. Estava na cozinha comendo uma fatia de bolo de milho e conversava com Clotilde, a cozinheira, quando ele entrou pedindo café. Sentou na cadeira em frente à dela, que tentou levantar pedindo licença. Disse que precisava ir. Sentiu que ele reparou nela e teve medo. Sua mãe dizia que as mulheres têm instinto. O seu afirmava que ela deveria se afastar dali. Dias depois ele apareceu procurando o pai. Os dois saíram juntos, mas não antes de pedir um cafezinho. Ela mesma entregou a xícara na mão dele, que aproveitou para apertar seus dedos contra os dela. Em seis meses estava casada com o patrão dos pais. Sua família foi morar em uma casa maior e com salário melhor. Um acordo foi feito entre eles e ela aceitou. Havia também o irmão mais novo que precisava de cuidados especiais, o que foi prontamente oferecido por seu Osvaldo. Precisava se submeter a uma cirurgia no pé direito e usar um aparelho durante alguns anos. Coisa cara se quisessem ter sucesso. O bom homem que era seu Osvaldo pagou para que ele fosse atendido por um especialista e comprou tudo o que precisava. Todos estavam agradecidos, inclusive ela. Os problemas só começaram depois que a porta do quarto da casa principal foi fechada. Nunca conseguiu gostar daquele homem sem paciência alguma. Grosseiro e exigente costumava impor suas vontades. Um ano depois, quando o primeiro dos nove filhos que tiveram nasceu, sentiu-se melhor. Agora havia alguém para amar. Mesmo sendo gerado com violência, porque se recusara a se entregar e ele parecia ter prazer em provocá-la para que reagisse, aquela criança fez com que sorrisse inúmeras vezes. Enquanto cuidava dos filhos, conseguia esquecer as noites em que era obrigada a se sujeitar àquele homem que a machucava e violentava por puro prazer. Após alguns anos e filhos, deixou de lutar. Apesar de com isso ele ter se tornado ainda mais agressivo, fechava os olhos e praticamente sem se mover, cedia. Os que foram crianças agora estavam crescidos, uns casados e outros ainda moravam com ela. Os pais já não existiam mais e via os irmãos raramente, a não ser o caçula que continuou vivendo ali. Mal reparou que os cabelos brancos cobriam parte de sua cabeça e as rugas desenhavam seu rosto. Não possuía vaidade alguma. Com o passar do tempo, Osvaldo como enfim aprendera a chamá-lo, deixou de ter o mesmo vigor. Ainda era forte apesar da idade e acreditava que com a saúde que tinha, ela iria antes dele. Habituara-se a não lamentar e podia dizer que hoje tinha uma vida tranquila. Não gostava de pensar no passado. Dia desses, uma das filhas sentada ao seu lado, perguntou por que aguentou tudo calada. Por que não foi embora? Não precisou pensar muito para responder. - Uma época diferente da sua. Talvez eu pudesse ter ido depois que o primeiro ou o segundo filho nasceu. Mas perderia a oportunidade de ter você, por exemplo. Não me arrependo. Tive escolha e escolhi o amor. Escolhi vocês.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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