Apenas mais um
candida 22/08/2013 14:15
Apenas mais um Cândida Albernaz Não foi fácil chegar aqui. Ainda não acostumei com as muletas. Se não fosse aquela senhora a me ajudar, não conseguiria entrar na van. A garota sentada no banco ao lado, olhou feio para mim quando sem querer encostei nela. Dei um sorriso meio torto, mas ela adquiriu uma nova expressão: de impaciência. É jovem, eu entendo. Acredita que vai ser assim para sempre. A consulta está marcada há vinte dias. Tive sorte em conseguir logo. Ruim mesmo foi com o marido de Clotilde, uma vizinha, que ficou quatro dias no corredor do hospital esperando por uma vaga. E ele estava fraquinho, mal conseguia falar. Andar então, nem pensar. Clotilde ficou acabada passando as noites naquele lugar sem nem mesmo ter um espaço decente para sentar. A gente que é pobre não devia ficar doente, porque é sofrimento em dobro. Outro dia, um conhecido do meu filho quase quebrou a cara de um médico. Chegaram ele e a mulher no posto de saúde, com a filhinha no colo. A menina tinha febre alta, gemia de dor e com a respiração difícil. Esperavam por duas horas e ela piorando. A gente escuta tanta coisa sobre crianças que morrem sem ajuda... Falaram com a atendente, com o porteiro e nada. Tinham que esperar a vez. Quando o pai percebeu que os olhos da filha estavam virando de um lado para o outro e o corpo queimava, perdeu a cabeça. Saiu empurrando quem encontrava pela frente e chegou até a sala do doutor. Sem falar nada, agarrou no jaleco do homem e gritou que medicasse a criança. Quase foi preso, mas salvou a filha. Não sei como seria se ele ficasse lá fora esperando, esperando, esperando... melhor ir para a cadeia! Hoje sou eu quem vai esperar. Carrego duas bananas na bolsa caso sinta fome. A dor na coluna está me arrebentando. E depois que caí e quebrei a perna, a coisa piorou. Os filhos falaram sem parar que eu preciso ser mais cuidadosa, que não enxergo direito, não escuto bem, não posso andar sozinha por aí... Hum! Qual deles pôde vir comigo? Nenhum. Estão todos trabalhando. Marcinha, minha filha mais velha, foi quem conseguiu marcar a consulta e sou muito agradecida, mas hoje ela não teve como pedir folga para me acompanhar. Cada um tem seu problema e a própria vida. Eu não gosto de dar trabalho. Que luta para descer desse carro. Meu Deus! está cheio isso aqui e o doutor ainda não chegou. Nem sei a que horas vou embora. Apalpei minha bolsa e senti o volume das bananas que guardei. Fiquei imaginando que elas vão enganar a fome quando precisar. O médico entrou agora. Muito jovem. Espero que deixe explicar com calma sobre minhas dores. Há um senhor numa cadeira de rodas no canto da sala. Chegou depois de mim. Deve estar sentindo algo. Vi quando disfarçou e enxugou uma lágrima. Não é que o doutor antes mesmo de procurar saber de quem era a vez, foi em direção desse senhor e o levou para o consultório? Agora que terminaram está guiando-o até a porta de saída. Correu os olhos pela sala e foi ao encontro de uma senhora velhinha que se firmava numa bengala de um lado e na filha do outro. Ele segurou em seu braço e fez com que as duas entrassem para serem atendidas. Fez isso sucessivamente, buscando pessoalmente os que pareciam necessitar mais, até que chegou minha vez. Acredito que os mais jovens que estavam esperando não estivessem gostando muito daquele procedimento. Houve um início de burburinho. Ele colocando as mãos nos bolsos da roupa branca que usava, avisou que atenderia primeiro os deficientes, os de idade avançada ou com urgência, e então continuaria dando seguimento aos números das senhas. Alguns alegavam que não estava correto, os que chegaram antes deveriam ser recebidos primeiro. O que vi em seguida foi ele olhar firmemente um a um e todos se calarem. Não sei se ele estava certo ou não, mas quando passei por aquela porta, senti como se me enxergasse. Eu não era apenas mais uma. E nenhum daqueles pacientes seria apenas mais um. De volta à casa, entrei na van sozinha, sem precisar de ajuda. Não sei o motivo, mas me senti forte e quando reclamaram das minhas muletas que esbarraram em alguém, pedi desculpas e sorri. Mas não foi um sorriso torto. 19/08/2013.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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