Frases nem tão soltas XIII
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas XIII Cândida Albernaz Não me recordo quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível. * Ontem carreguei você na minha pele. Hoje faço uma esfoliação na alma. * O tempo rouba de nós o tempo que esperávamos viver. * Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita. * A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos? * Algumas pessoas pensam que sabem, mas o máximo que conseguem é imaginar. * Quero que empurre o balanço com muita força para que eu possa ir tão alto que toque as nuvens. Preciso ter certeza de que são feitas de algodão. * Perfeito quando cai em nossos olhos o que escrito descreve o que sentimos. * Admiro quem é inteligente. Dos espertos passo ao largo. * Hoje abri uma caixa onde encontrei parte do que vivi. A sensação de recordar e sentir o que senti quando todas as fotos foram tiradas, ou todas as poesias foram escritas ou todas as cartas foram lidas, me fez rir sozinha. Mas eu não estava realmente só. Tudo aquilo e aquelas pessoas estavam ali comigo. Como num passe de mágica! * Pessoas vêm, pessoas vão... as que importam ficam. * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Sentada na cadeira de pano com as alças de corda presas na árvore, ela girava. E quanto mais girava, mais ria, e naquele momento pequeno, minúsculo, conseguia esquecer o que lhe dava agonia. * Às vezes se via assim: pequena, pequena como um grão de areia fina, em outras, sentia-se como um gigante, não cabendo no curto espaço que era o mundo. * Só uma parte dela estava ali. A melhor. A outra deixara para trás. Não voltaria para buscar. * Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e os engano rindo de mim.  
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Lembranças que vêm da alma
21/01/2017 | 18h50
Lembranças que vêm da alma Cândida Albernaz Lembra quando ainda jovens gostávamos de andar abraçados? Ainda sinto o cheiro da loção que usava. Basta fechar os olhos trazendo sua imagem de quando, ao passar as mãos nos cabelos, fazia com que desejasse que estivessem em meu corpo. Na gaveta de papéis onde se misturam retratos, cartas, documentos, receitas médicas e bulas, é que se encontra o bem mais precioso: a foto que tiramos num entardecer na praia em que seu braço enlaçava meu ombro. No rosto vinha refletido o instante em que eu sentia que ser feliz podia ser só aquele momento. Nada mais era necessário. No verso, com minha letra e datado, o resumo do que sentia: “um instante, mesmo que perdido no tempo, guardado na alma para sempre”. Você não chegou a ver essa foto revelada. Foi embora uma semana depois em que a tiramos. Hoje posso guardá-la ao lado da cama, pois Miguel também se foi há alguns anos. Costumava dizer: - Há alguma coisa em você que escapa, mas sei que me ama e eu a amo também querida. O que lhe fugia era minha alma, que nunca entreguei, porque já estava presa a outro. Mas o amor que existia sempre foi dele. Até o final. Às vezes penso em como teria sido a vida se a tivesse vivido com você. Sei que a rotina tem por hábito esfarelar os sentimentos. Mas sei também que se soubermos aproveitar, a convivência pode nos trazer o prazer de ver no outro as experiências por nós vividas. Gostaria de ter tido um filho seu, para que através dele eu o tivesse novamente. Miguel não pôde me dar filhos. Por muitos anos se culpou por isso. Agora vivo sozinha e uma jovem em dias alternados vem me ajudar. Com a doença tremo muito e nem sempre consigo fazer o que preciso. Talvez um dia ela chegue e me encontre dormindo para nunca mais. Não vai ser assim. Tenho certeza de que por um longo tempo ainda viverei com essa solidão carregada de você. É o que espero. Agora que não preciso mais cuidar de Miguel e tentar fazê-lo feliz por todos os dias, posso me entregar à minha alma. Não sei se vive. Nem quero saber. Continuo vendo seu rosto carregado dos reflexos da juventude. Os cabelos negros e cheios. O corpo possui os músculos e a maciez de outrora. E a boca... ah!, sua boca ainda preenche a minha quando de olhos fechados faz com que queira mais e mais. Lágrimas caem quando penso em nós dois, mas não as troco por nada. Sinto até o gosto salgado, quando escorrem pela face e entram em meus lábios. As absorvo como se sua saliva fosse. Acho que foi melhor não nos termos visto de novo, assim posso imaginar que para você também fui importante. Quem sabe se tivéssemos nos encontrado depois de tanto tempo e eu enxergasse em seu olhar o vazio de quem não mais amava? Quando a garota chega, não consigo ter essa paz. Ela pensa que me sinto só e puxa conversa tentando agradar. Não sabe que a única coisa que espero ansiosa é a hora em que se vai, para que eu fique com minhas fotos, cartas, beijos e seus braços que me aconchegam toda vez em que deito para dormir. Esta noite estou mais trêmula. Quase quebro a xícara que coloco ao lado da minha para que tomemos o café juntos antes de deitarmos. Vou para o quarto mais cedo. Sinto precisar que me abrace forte para que eu pare de tremer.
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Sem necessidade
21/01/2017 | 18h50
Sem necessidade Cândida Albernaz   Com esse muro alto na frente, acho que não tenho escolha. Acabou. Quando acordei naquela manhã, senti a cabeça estourando de dor. Não é normal. Nunca sinto nada. Mãe costuma dizer que tenho saúde de ferro, graças a Deus. Queria mesmo agora era ser todo de ferro. Estaria protegido. Cheguei a casa na noite anterior com um presente para mamãe. Ela queria trocar a televisão por uma maior, e foi o que fiz. Sorria de ponta a ponta da boca. Gosto de ver mãe feliz. Sofrida, já chorou muito nessa vida. Quando papai morava aqui, era um inferno. Bebia todos os fins de semana nos bares com amigos. Às vezes só aparecia em casa dois dias depois de ter dito: daqui a pouco venho almoçar. Ela se acostumara ou apenas aceitava o sumiço dele. Falta de opção, acredito. O problema era quando chegava. Bêbado, fedendo, xingando e provocando a mulher até meter a mão na cara dela. E fazia isso com vontade. Assisti várias vezes. Se havia tempo, ela me puxava pelo braço e me enfiava dentro do quarto fechando a porta. Não sem antes avisar que estava proibido de sair dali. Então voltava para onde estava o marido e se sujeitava à surra e aos carinhos grosseiros. A única vez em que tentou se esconder indo para os fundos da casa, papai arrombou a porta de onde eu estava e me bateu tanto que precisei ser levado para um hospital. Fizeram um acordo sem precisar falar. Ela se entregava e ele me deixava em paz. Não fiquei criança a vida toda e com quinze anos dei uma coça naquele velho e o coloquei para fora de casa. Tentou voltar, mas o ameacei com uma faca, mostrando que não faria diferença alguma aquela arma na minha mão ou dentro do bucho dele. Não era burro e viu que não brincava. Sumiu da área. Mamãe e eu não discutimos sobre isso, mas percebi seu rosto enfim descansado. Ficou até mais jovem. Tomou a decisão de trabalhar, o que antes não era permitido. Cozinhando numa casa de família. Tem um tempero que sinto água na boca só em imaginar. Também precisei me virar e falei com ela que havia arranjado um emprego em que faria entregas. No dia em que cheguei com a moto, estranhou, mas expliquei que o patrão financiou para mim e pagaria aos poucos. Necessitava dela para ser mais rápido. Fui ajeitando a casa aos poucos. Troquei o fogão, comprei uma cama com um colchão macio e falei que a partir de agora não precisaria dormir no colchonete fino estendido no chão frio. Com o salário que recebeu me comprou roupas. Avisei que não queria nada, o dinheiro era para gastar com ela mesma e com comida. Se existe algo que respeito nesse mundo, são as mães. Minha avó morreu cedo, tenho boas lembranças dela. Brincava comigo e sempre tinha alguma bala escondida dentro da roupa para me dar. O vô deu um tiro nela. Foi preso, adoeceu na cadeia e morreu por lá. Não gosto de homem que encosta a mão em mulher. Mamãe ontem parecia tão feliz na hora em que dei a televisão para ela... E hoje essa situação. Ainda bem que não chegou do serviço. Os homens descobriram que participei do assalto. Aqueles manés foram pegos e me deduraram. Não adianta correr mais. Não sei escalar muro alto e liso. Acho que ninguém. Melhor me entregar. Parei, levantei os braços e virei para a porta. Poxa!, sem necessidade esse soco. Estão vendo que não estou armado. Covardia chutar desse jeito. Na cara. Tudo puto porque demoraram a botar a mão em mim. Tomara que a mãe hoje se atrase. Precisa ver isso não.
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Nada que não se resolva
21/01/2017 | 18h50
Nada que não se resolva Cândida Albernaz Meu amor querido...  e se fala assim é porque em uma das narinas ainda está entrando e saindo ar. O nariz totalmente congestionado o tira do sério. Não há amor e muito menos querido que resista a uma gripe dessas. Olhou para a garota a seu lado e quase tentou rir, mas mostrar os dentes àquela altura era um pouco demais para ele. Onde está o remédio que estava no bolso da calça? Impossível que tenha deixado em casa. Vai estragar sua noite esse lapso de memória. Ela continua sorrindo naquela boca linda querendo um beijo, mas se ele fizer isso agora, morre sufocado. Droga de gripe. Logo hoje que havia combinado sair com a menina que conheceu na outra noite. Tão linda até pensou que não daria conversa para ele. Deu conversa, uns amassos e ainda marcaram encontro. Maldito nariz entupido! Amanhã ou depois a coitadinha vai estar na mesma situação que ele. Vírus danado. Na verdade não está sentindo muita pena dela. Está com pena é de si mesmo. Precisa achar uma farmácia aberta e colocar para dentro um daqueles analgésicos cheio de cafeína para o corpo funcionar melhor. Dói para todo lado. E principalmente uma solução nasal que o faça respirar como qualquer ser humano consegue. E ela ao seu lado, falando que nunca esteve naquele bar antes. Coincidência que tenham se encontrado. Acredita em destino? Acreditava em tudo. No que ela quisesse. Ele frequenta aquele local toda semana. Um ponto muito bom para arranjar garotas. Costuma sair com elas o suficiente para conhecê-las melhor. De corpo e alma. Mais corpo que alma, claro. Quando vale a pena, isso se prolonga por mais algum tempo, um ou dois meses. E não adianta insistir porque não vai além. Entregou-se uma vez e deu no que deu. A namorada depois de três anos juntos, comunicou que não gostava mais dele e que o relacionamento havia estacionado. Nem sabia que gostar de alguém podia estacionar como carro! E mais um tanto de conversa fiada que doeu para burro ter que escutar. Foi um bom tempo com a sensação de que um Truck havia passado em cima de seu corpo. E da cabeça também, porque esta parecia admitir apenas um pensamento: como faço para ter essa mulher de volta? Não teve o que fazer. Em menos de quatro semanas ela estava saindo com o motivo do “relacionamento estacionado”. Quando os viu sentiu vontade de chegar até eles e quebrar a cara dos dois. Que nada! Respirou fundo e passou ao lado.  Pegou uma garota que já conhecia e ficou aos beijos bem perto. Jura ter visto um sorrisinho de piedade no rosto da ex. Derrota! Enfim uma drogaria. Avisou que estava com alergia e precisava de um medicamento. Ela riu e disse que também era alérgica e que isso era mais uma coincidência entre eles. Depois começou a falar que seu problema era o frio, que poeira não a incomodava... com receio de que o assunto se prolongasse, desceu do carro. Na volta propôs que sentassem em algum bar e antes de deixá-la em casa poderiam ir a um lugar mais reservado. O que acha? Abaixou os olhos como se fosse tímida. Promissor... Voltou à carga: - Meu amor querido... Gostava de falar assim. Elas adoravam.
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Frases nem tão soltas XII
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas XII Cândida Albernaz   A vida exige, a gente entrega, a vida exige, a gente entrega. Entre uma vírgula ou outra a gente prega uma peça. Ri da vida e ri com ela. * Foi exatamente no ponto em que se percebeu parada que resolveu seguir em frente. Não em linha reta como parecia mais fácil, mas entre uma curva e outra para que tivesse oportunidade de fazer escolhas. * Em alguns dias guarda as sapatilhas para descansar os pés cansados de viver vida e as troca por asas, para que o corpo agora leve possa voar. * Sou melhor escrevendo. Falando posso me tornar um desastre. * Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação. * Lágrimas que escorrem pelo seu rosto sem que ela dê permissão para isso a irritam. Se pudesse secava-as a tapa. * Tenho vidas que me renovam. Cada vez que penso afogar, um sopro forte me faz abrir os olhos, respirar entre bolhas de água e emergir. * Hoje a bruxa má me roubou o sono e se eu não encontrar rápido a fada boa, passarei o dia como um zumbi. * Pensou que eu não conseguiria? Também pensei. Muitas vezes. Enganou-se. Também eu me enganei. * Desculpem mas preciso me levantar porque acabei de ver sorrisos e risos passarem aqui perto. Vou atrás deles. Não posso perdê-los. * Quando a noite chega se disfarça em bailarina, para que assim, entre um sono e outro possa saltar com leveza e não acordar seu dormir tranquilo. * Ontem jurava que seria nunca mais. Hoje afirma que para sempre não mais. * Fechei os olhos e me coloquei em seu colo. Eram seus os braços que me apertavam ao peito. Juro ter escutado: minha filha... E dentro daquele sonho adormeci. * Quando olhou no espelho e não se viu refletida entendeu então que havia se perdido do que esperava ser. * Quero te contar um segredo. Ninguém pode saber. Mas se eu te contar, quem mais ouviria de você um segredo que era só meu? Agora meu e seu? * Talvez o melhor fosse sentir menos, mas então não seria quem sou. * Tantas vezes se quebrou que jurou não tentar mais voar. Hoje pegou novas asas e as prendeu às costas. Olhou para baixo e saltou no vazio.
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Sou eu novamente
21/01/2017 | 18h50
Sou eu novamente Cândida Albernaz Hoje fui buscar você dentro de mim e não encontrei. Pensei que ficaria perdida quando isso acontecesse. Não é assim. Uma espécie de alívio sai da minha boca através de um sopro. Ainda espero por algum tempo e tento escutar o que os pensamentos vão dizer. Continuam calados. Espere, ouço alguma coisa: preciso levantar porque tenho hora marcada no salão daqui a pouco. Tento um arremedo de sorriso e ele sai aberto, com quase todos os dentes à mostra. Fecho a boca rápido e olho para um lado e outro. E se alguém me vir rindo desse jeito? Estão acostumados a me encontrar pelos cantos chorosa, resmungando sobre o amor perfeito bah!, que se foi. Vou aguardar mais um pouco antes de separar o que pretendo vestir. Abro a cortina e noto o céu encoberto por algumas nuvens. Mas então vem uma certeza que o vento vai fazer com que se espalhem e o sol abrirá forte, clareando tudo. Eu hein! cada ideia. Nossa, a planta que ganhei no último aniversário comemorado há meses está florida. As flores voltaram a crescer e estão lindas. Quase não a molho e pensei que tivesse morrido. Vou até a cozinha e pego água. Coloco um pouco na terra e sacudo com os dedos sobre as folhas. Acho que já posso abrir o armário. Meus olhos caem justamente no conjunto de saia curta e camiseta de seda estampada e alças finas. Será? Deixo em cima da cama e vou tomar um banho. Vejo-me refletida no blindex. Fecho os olhos, em seguida abro-os bem e logo depois pisco várias vezes. Faço isso de novo e de novo, e no fim, pareço uma palhaça imitando a mim mesma. Dou uma gargalhada, e quanto mais me escuto, mais encontro motivo para rir. A roupa escolhida ficou ótima, não a havia usado ainda. Pego o porta retrato que está sobre a mesinha. Retiro a foto e vou ao álbum para escolher outra. Há quanto tempo foi tirada esta em que estou com amigas fazendo poses à beira mar? Ridículas! E divertidas! Foi muito bom aquele fim de semana. Passaram-se três, quatro anos? Como rimos e gesticulamos e falamos e dançamos e. Deixaram de me procurar. Deixei de permitir que chegassem a mim. E esta com o sol batendo no rosto e obrigando que eu fechasse os olhos por conta do excesso de claridade? Meu sorriso brilhava. Sacanearam-me e mandaram revelar. Havia um título atrás “a japonesa loura ha ha ha”. Trocarei a anterior por ela. Peguei a que havia deixado ao lado e tive pena de jogar fora. Eu estava tão bonita... onde será que coloquei a tesoura? Pronto. Apenas a metade vai para o lixo. Farei o mesmo mais tarde com as que estão guardadas. Estou com fome. Abro a geladeira e quase nada ali dentro. Se me recordo corretamente, há um mês não compro praticamente nada para abastecê-la. Melhor ir para a rua logo. No caminho como algo. Depois que fizer as unhas vou ao supermercado, padaria, açougue, peixaria. Quase deixo o celular em casa. Cento e sessenta e quatro mensagens! Acho que vou responder. Quem sabe uma das amigas resolveu insistir mais um pouco? Bingo! Convite de Paula para seu aniversário hoje à noite. Preciso comprar um presente para ela e um vestido para mim. Saudades. Sempre foi a mais gentil de todas. Será que pintou o cabelo novamente? Adora variar a cor. Não sei como ainda não caiu tudo. De qualquer forma sempre fica lindo. Dentro do porta luvas uma fotografia. Não estou muito bem nessa. Jogar fora então. Direto para o lixo. Não está doendo. O peito. Ele estava se habituando a ficar apertado, com uma sensação de angústia que provocava dor física. Preciso pedir à faxineira que dê uma limpeza no apartamento. Não está nada bom. Das gavetas eu mesma cuido. Tralhas a espera da lixeira e roupas para doar. Ficarão lindas as flores que comprei para a jarra da sala. Vários tons de laranja. Dizem que esta cor transmite alegria. Digo que por estar alegre quero esta cor. Vou preparar um almocinho, coisa simples feita na hora. Difícil decidir entre tudo que comprei. Sorri de novo. Sei lá, acho que dei para rir à toa.
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Carrego dentro de mim
21/01/2017 | 18h50
Carrego dentro de mim                                                                   CândidaAlbernaz Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez. Quando fechou a porta estava sem fôlego. Agitada, olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o vidro gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez. Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo. Decidiu morar sozinha há quatro anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz. Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse.  Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora. Levava amigas para estudar em casa, e de um momento para o outro, ouvia copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado. A mãe o acusava de indiferença, de ter outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Que ele se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou ...”. O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”. Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta. Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudá-lo. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele, que desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto um sono pesado sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e o pai ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje. Quando ela acordou no dia seguinte e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Durou quatro meses sua abstinência e nesse tempo tiveram sossego. Os dois pareciam ter nascido um para o outro. Decidiu procurar um apartamento para morar, depois que chegou com um namorado em casa e este assistiu uma dessas loucuras entre eles. Voltou a ouvir um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Dentro do quarto, trancou a porta. Lembrou-se de outra época e de outra porta que não tinha chave. Diziam que era para que não ficasse presa lá dentro. E por isso permanecia à mercê do que estava lá fora. Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar. Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Seria a segunda vez que viriam ali. A anterior foi no dia em que se mudou. Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles. Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas. Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou com ninguém sobre essa sensação de estar sendo perseguida. A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução. Noite clara e céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para trás e não viu ninguém. Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez. Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou cobrindo todo o corpo. Em poucos segundos tornou a sentir a respiração pesada do outro ao seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram. Debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez. - Não, pai. Vai me machucar. Não quero. Tinha oito anos novamente.
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Frases nem tão soltas XI
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas XI Cândida Albernaz Escrever só não é mais solitário porque os personagens flutuam a nossa volta exigindo atenção. Egoístas que são, cada um deles quer que sua história seja melhor que a do outro. Então nos obriga a olhar firme em seus olhos impondo que nos deixe livres para pensar. * Muitas vezes a chuva é interna.  Ela chega alagando a alma. * Não gosto de precisar do outro para me sentir. * Às vezes balanço a cabeça de um lado para o outro para que os pensamentos possam ir embora. Funciona. * Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar. * A rotina é nosso pior inimigo quando queremos esquecer. * Se me abraça, eu te abraço e ficamos os dois no meio de nossos braços. * Ilusão é o que nos faz viver o que não era para ser vivido. * Brincava de achar que era possível e trazia na face a inocência do acreditar. * Usei um véu de rendas para cobrir os olhos e enxergar a vida com mais doçura. * Em alguns dias careço de abraço na alma. * Bebo uma taça de tinto ou duas e fico comigo me fazendo companhia. Converso com o corpo e sinto a pele me acarinhando. * O lugar predileto para se encontrar a paz: dentro de nós. * Há dias que permaneço anestesiada esperando que as horas venham me trazer o sono. * Queria poder apenas pensar alegrias e distribuir “coloridices” pela boca. * O silêncio pode ser nossa melhor companhia. * No silêncio a mente discute sem parar. No silêncio chora um pranto que não quer externar. No silêncio busca um abraço que não ousa pedir. O silêncio é só um jeito de falar. * Alguns silêncios possuem ruídos tão altos que nos atordoam. 28/05/2014
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Tenho pena
21/01/2017 | 18h50
Tenho pena Cândida Albernaz Chego a casa e cortaram a luz. O imprestável do meu marido não pagou a conta. Dei o dinheiro na mão dele. Bebeu todo, é claro. As crianças sozinhas sentadas na varanda porque ele saiu com uns amigos “pra resolver uns probleminhas”. Ainda bem que você passou por aqui. Tô ficando cansada dessa vida. Trabalho feito uma condenada e não vejo resultado. Esse que mora comigo, está desempregado há seis meses. Seis. E eu sustentando a casa e os vícios dele. Não venha repetir que a escolha foi minha, que fui avisada, que já bebia quando nos conhecemos e era mulherengo. Mas como eu podia resistir àqueles olhos verdes e àquele corpo, que minha nossa senhora! coisa mais perfeita. Morriam de inveja, fala a verdade. Todas! Quando engravidei da Julinha e ele casou comigo, deixou muita mulher chorando pela redondeza. Inclusive você. Pensa que não sei? E não se faça de boba porque foi ele mesmo quem contou. No dia do nosso casamento você foi atrás pedindo para não casar, porque gostava dele e faria o que quisesse. Riu na sua cara, não foi? Minha madrinha! Escolhi você para madrinha e quando veio me abraçar, chorava tanto, pensei que fosse por mim, por amizade. Que nada! Estava era se roendo por dentro porque foi desprezada. Posso falar uma coisa? Hoje até agradeceria se ele tivesse ficado com você. Porque aquele lá se transformou em um traste. Presta para nada não. Nem na cama posso contar com ele. Bebe tanto e tem tanta mulher que chega à casa: nada! E a barriga? O inchaço embaixo dos olhos? Serve não, amiga. Você ainda quer? Pode levar que não estou aguentando mais. Não me olhe com essa carinha de espanto. Tô brincando. Passado é passado e sei que você me respeita. Vou dizer uma coisa, qualquer dia boto ele para fora. Já dormiu na varanda, no chão da sala, e na casa de algumas vagabundas que encontrou pela rua. Sabe por que ainda não fiz isso? Tenho pena. Pena de quê? Sei lá, coisa de mulher, de instinto maternal... Por falar nisso, com a mãe que teve, só podia ficar desse jeito. Aquela não cuidava dos filhos, botava homem na frente do marido, e dizem que batia nele. Homem forte daquele... Difícil acreditar. Mas o povo fala. Obrigada por você ficar com as crianças enquanto eu não chegava. Tudo escuro e os dois sozinhos. Nem bom pai ele é. Não vai agora não, estou sem sono. Fica mais um pouco porque estou precisando mesmo que alguém me escute. E aquele sujeito com quem você estava saindo? Colocou para correr? Fez bem amiga. Depois que me contou que ele meteu a mão em você, era o que devia ter feito. Porque homem é bicho folgado. A gente perdoa e eles pensam que somos bobas e fazem tudo de novo. Não vê o meu caso? Decidi que ele está com os dias contados. Cansei de verdade. Você vai ver só. E continue não me olhando desse jeito, por favor. Estou esperando ele arrumar um emprego, porque não tenho coragem de botar o pai de meus filhos na rua, sem ter nem para comer. Você tá rindo de mim. Tenho compaixão, sabe o que é isso? Acho que tá na hora de você ir, porque vamos acabar brigando. Veja só quem está chegando! Nossa, quase enfiou a cara no portão. Vai, vai logo que tenho que colocar ele embaixo do chuveiro. Na minha cama fedendo desse jeito é que não vai dormir. É, vou dar comida a ele sim. Quer que deixe morrer de fome? E pare de rir. Vai ser a última vez...
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Espera
21/01/2017 | 18h50
Espera Cândida Albernaz   O colorido das roupas chamava a atenção. Lilás, azul, verde e o amarelo que predominava. O mesmo tom de amarelo que usava. A diferença entre ele e aqueles garotos era a alegria. Uns se acotovelavam, outros levantavam os braços sinalizando para algum colega onde estavam e riam do próprio alvoroço. Todos os dias quando o ônibus chegava no horário da escola, a cena se repetia. Sempre era o último a entrar e passava pelos colegas até achar no fundo, um banco vago onde pudesse sentar.Enquanto percorria o corredor interminável ouvia cochichos e risinhos abafados. Sabia que eram para ele e fixava os olhos no chão com mais força. Todos ali dentro o conheciam. Alguns estudavam em sua turma. Outro dia, a professora pediu que escrevessem uma redação sobre o que gostavam de fazer nos fins de semana. Parecia provocação. Não havia ninguém naquela cidade que não soubesse que seu pai estava preso há um ano. E o porquê. Ele e a avó pegavam uma condução toda semana e iam visitá-lo no presídio. Odiava aquele lugar. Odiava seu pai. Quando disse à avó que não voltaria mais lá, recebeu uma bofetada e em seguida uma ordem: vá se trocar. Não havia o que discutir, só obedecer. Chegavam naquele ambiente sujo e o pai quando o via, puxava-o pelo braço apertando-o contra o peito. Sentia o cheiro do sabão barato que não era muito diferente do que usava. Ficavam quietos enquanto sua avó falava sem parar. Inventava que era um ótimo aluno e que a professora o elogiava. Dizia que o outro filho, seu irmão mais velho, mandava um abraço e prometia que da próxima vez viria com eles. Muito ocupado, o irmão. O pai fingia acreditar e tentava sorrir, o que lembrava uma estranha careta. Na semana passada, notou que faltava um dente bem na frente, quando o pai tentou dar um desses sorrisos. A avó também percebeu. Ninguém falou nada, mas sabiam que o pai devia ter se metido em mais uma briga. Em casa, no outro dia, ouviu a avó falar com seu tio que tinha medo de que um dia o filho aparecesse morto. Ele pensou que podia ser bem feito para o pai. Pelo menos, não precisaria mais visitá-lo ou olhar na cara dele. Aliás, naquela família não se fala sobre o que aconteceu. Finge-se que as coisas ruins evaporam. Como sua mãe. Apenas sumiu e não se fala mais nela. Quando chegou à casa, há três anos, encontrou o pai na porta da sala com uma faca na mão. Perguntou o que houve e não teve resposta. A única coisa que repetia: vagabunda, vagabunda... Correu até a cozinha e viu a mãe no chão. Ouviu seu nome e foi até ela: Não fiz nada... Por que meu filho?... Por quê?... Chamou o vizinho para ajudá-lo, mas quando a ambulância chegou estava morta. A mãe falara por várias vezes que qualquer dia esse maldito me mata. Ela sabia e ele também. Por isso, depois da escola nunca ficou para brincar com os colegas. Tentava chegar o mais cedo que podia achando que assim conseguiria protegê-la. *                                             *                                             * O ônibus parou e todos desceram em frente ao colégio. Sempre ficava lá dentro sentado até que o motorista gritasse com ele para que saísse. Obedecia, como sempre. O percurso até a sala de aula parecia não ter fim. A sensação que tinha era de espera. Esperava que os dias transcorressem, que as pessoas pudessem ter esquecido, que a avó morresse, que o pai saísse da cadeia. Então ele faria o mesmo caminho dos fins de semana. A diferença é que ninguém iria visitá-lo e não faria questão. O pai, este estaria fazendo companhia a sua mãe. Do mesmo jeito.
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Candida Albernaz

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