Nada que não se resolva
Nada que não se resolva
Cândida Albernaz
Meu amor querido... e se fala assim é porque em uma das narinas ainda está entrando e saindo ar. O nariz totalmente congestionado o tira do sério. Não há amor e muito menos querido que resista a uma gripe dessas.
Olhou para a garota a seu lado e quase tentou rir, mas mostrar os dentes àquela altura era um pouco demais para ele.
Onde está o remédio que estava no bolso da calça? Impossível que tenha deixado em casa. Vai estragar sua noite esse lapso de memória.
Ela continua sorrindo naquela boca linda querendo um beijo, mas se ele fizer isso agora, morre sufocado.
Droga de gripe. Logo hoje que havia combinado sair com a menina que conheceu na outra noite. Tão linda até pensou que não daria conversa para ele. Deu conversa, uns amassos e ainda marcaram encontro. Maldito nariz entupido! Amanhã ou depois a coitadinha vai estar na mesma situação que ele. Vírus danado. Na verdade não está sentindo muita pena dela. Está com pena é de si mesmo. Precisa achar uma farmácia aberta e colocar para dentro um daqueles analgésicos cheio de cafeína para o corpo funcionar melhor. Dói para todo lado. E principalmente uma solução nasal que o faça respirar como qualquer ser humano consegue.
E ela ao seu lado, falando que nunca esteve naquele bar antes. Coincidência que tenham se encontrado. Acredita em destino? Acreditava em tudo. No que ela quisesse. Ele frequenta aquele local toda semana. Um ponto muito bom para arranjar garotas. Costuma sair com elas o suficiente para conhecê-las melhor. De corpo e alma. Mais corpo que alma, claro.
Quando vale a pena, isso se prolonga por mais algum tempo, um ou dois meses. E não adianta insistir porque não vai além. Entregou-se uma vez e deu no que deu. A namorada depois de três anos juntos, comunicou que não gostava mais dele e que o relacionamento havia estacionado. Nem sabia que gostar de alguém podia estacionar como carro! E mais um tanto de conversa fiada que doeu para burro ter que escutar. Foi um bom tempo com a sensação de que um Truck havia passado em cima de seu corpo. E da cabeça também, porque esta parecia admitir apenas um pensamento: como faço para ter essa mulher de volta? Não teve o que fazer. Em menos de quatro semanas ela estava saindo com o motivo do “relacionamento estacionado”.
Quando os viu sentiu vontade de chegar até eles e quebrar a cara dos dois. Que nada! Respirou fundo e passou ao lado. Pegou uma garota que já conhecia e ficou aos beijos bem perto. Jura ter visto um sorrisinho de piedade no rosto da ex. Derrota!
Enfim uma drogaria. Avisou que estava com alergia e precisava de um medicamento. Ela riu e disse que também era alérgica e que isso era mais uma coincidência entre eles. Depois começou a falar que seu problema era o frio, que poeira não a incomodava... com receio de que o assunto se prolongasse, desceu do carro.
Na volta propôs que sentassem em algum bar e antes de deixá-la em casa poderiam ir a um lugar mais reservado. O que acha?
Abaixou os olhos como se fosse tímida. Promissor...
Voltou à carga:
- Meu amor querido...
Gostava de falar assim. Elas adoravam.