Sem necessidade
Sem necessidade
Cândida Albernaz
Com esse muro alto na frente, acho que não tenho escolha. Acabou.
Quando acordei naquela manhã, senti a cabeça estourando de dor. Não é normal. Nunca sinto nada. Mãe costuma dizer que tenho saúde de ferro, graças a Deus. Queria mesmo agora era ser todo de ferro. Estaria protegido.
Cheguei a casa na noite anterior com um presente para mamãe. Ela queria trocar a televisão por uma maior, e foi o que fiz. Sorria de ponta a ponta da boca. Gosto de ver mãe feliz. Sofrida, já chorou muito nessa vida.
Quando papai morava aqui, era um inferno. Bebia todos os fins de semana nos bares com amigos. Às vezes só aparecia em casa dois dias depois de ter dito: daqui a pouco venho almoçar. Ela se acostumara ou apenas aceitava o sumiço dele. Falta de opção, acredito.
O problema era quando chegava. Bêbado, fedendo, xingando e provocando a mulher até meter a mão na cara dela. E fazia isso com vontade. Assisti várias vezes.
Se havia tempo, ela me puxava pelo braço e me enfiava dentro do quarto fechando a porta. Não sem antes avisar que estava proibido de sair dali. Então voltava para onde estava o marido e se sujeitava à surra e aos carinhos grosseiros. A única vez em que tentou se esconder indo para os fundos da casa, papai arrombou a porta de onde eu estava e me bateu tanto que precisei ser levado para um hospital.
Fizeram um acordo sem precisar falar. Ela se entregava e ele me deixava em paz.
Não fiquei criança a vida toda e com quinze anos dei uma coça naquele velho e o coloquei para fora de casa. Tentou voltar, mas o ameacei com uma faca, mostrando que não faria diferença alguma aquela arma na minha mão ou dentro do bucho dele. Não era burro e viu que não brincava. Sumiu da área.
Mamãe e eu não discutimos sobre isso, mas percebi seu rosto enfim descansado. Ficou até mais jovem.
Tomou a decisão de trabalhar, o que antes não era permitido. Cozinhando numa casa de família. Tem um tempero que sinto água na boca só em imaginar.
Também precisei me virar e falei com ela que havia arranjado um emprego em que faria entregas. No dia em que cheguei com a moto, estranhou, mas expliquei que o patrão financiou para mim e pagaria aos poucos. Necessitava dela para ser mais rápido.
Fui ajeitando a casa aos poucos. Troquei o fogão, comprei uma cama com um colchão macio e falei que a partir de agora não precisaria dormir no colchonete fino estendido no chão frio.
Com o salário que recebeu me comprou roupas. Avisei que não queria nada, o dinheiro era para gastar com ela mesma e com comida.
Se existe algo que respeito nesse mundo, são as mães. Minha avó morreu cedo, tenho boas lembranças dela. Brincava comigo e sempre tinha alguma bala escondida dentro da roupa para me dar. O vô deu um tiro nela. Foi preso, adoeceu na cadeia e morreu por lá.
Não gosto de homem que encosta a mão em mulher.
Mamãe ontem parecia tão feliz na hora em que dei a televisão para ela... E hoje essa situação. Ainda bem que não chegou do serviço.
Os homens descobriram que participei do assalto. Aqueles manés foram pegos e me deduraram.
Não adianta correr mais. Não sei escalar muro alto e liso. Acho que ninguém. Melhor me entregar.
Parei, levantei os braços e virei para a porta.
Poxa!, sem necessidade esse soco. Estão vendo que não estou armado. Covardia chutar desse jeito. Na cara. Tudo puto porque demoraram a botar a mão em mim.
Tomara que a mãe hoje se atrase. Precisa ver isso não.