Tenho pena
Tenho pena
Cândida Albernaz
Chego a casa e cortaram a luz. O imprestável do meu marido não pagou a conta. Dei o dinheiro na mão dele. Bebeu todo, é claro. As crianças sozinhas sentadas na varanda porque ele saiu com uns amigos “pra resolver uns probleminhas”. Ainda bem que você passou por aqui. Tô ficando cansada dessa vida. Trabalho feito uma condenada e não vejo resultado. Esse que mora comigo, está desempregado há seis meses. Seis. E eu sustentando a casa e os vícios dele. Não venha repetir que a escolha foi minha, que fui avisada, que já bebia quando nos conhecemos e era mulherengo. Mas como eu podia resistir àqueles olhos verdes e àquele corpo, que minha nossa senhora! coisa mais perfeita. Morriam de inveja, fala a verdade. Todas! Quando engravidei da Julinha e ele casou comigo, deixou muita mulher chorando pela redondeza. Inclusive você. Pensa que não sei? E não se faça de boba porque foi ele mesmo quem contou. No dia do nosso casamento você foi atrás pedindo para não casar, porque gostava dele e faria o que quisesse. Riu na sua cara, não foi? Minha madrinha! Escolhi você para madrinha e quando veio me abraçar, chorava tanto, pensei que fosse por mim, por amizade. Que nada! Estava era se roendo por dentro porque foi desprezada.
Posso falar uma coisa? Hoje até agradeceria se ele tivesse ficado com você. Porque aquele lá se transformou em um traste. Presta para nada não. Nem na cama posso contar com ele. Bebe tanto e tem tanta mulher que chega à casa: nada! E a barriga? O inchaço embaixo dos olhos? Serve não, amiga. Você ainda quer? Pode levar que não estou aguentando mais. Não me olhe com essa carinha de espanto. Tô brincando. Passado é passado e sei que você me respeita.
Vou dizer uma coisa, qualquer dia boto ele para fora. Já dormiu na varanda, no chão da sala, e na casa de algumas vagabundas que encontrou pela rua. Sabe por que ainda não fiz isso? Tenho pena. Pena de quê? Sei lá, coisa de mulher, de instinto maternal... Por falar nisso, com a mãe que teve, só podia ficar desse jeito. Aquela não cuidava dos filhos, botava homem na frente do marido, e dizem que batia nele. Homem forte daquele... Difícil acreditar. Mas o povo fala.
Obrigada por você ficar com as crianças enquanto eu não chegava. Tudo escuro e os dois sozinhos. Nem bom pai ele é. Não vai agora não, estou sem sono. Fica mais um pouco porque estou precisando mesmo que alguém me escute.
E aquele sujeito com quem você estava saindo? Colocou para correr? Fez bem amiga. Depois que me contou que ele meteu a mão em você, era o que devia ter feito. Porque homem é bicho folgado. A gente perdoa e eles pensam que somos bobas e fazem tudo de novo. Não vê o meu caso?
Decidi que ele está com os dias contados. Cansei de verdade. Você vai ver só. E continue não me olhando desse jeito, por favor. Estou esperando ele arrumar um emprego, porque não tenho coragem de botar o pai de meus filhos na rua, sem ter nem para comer. Você tá rindo de mim. Tenho compaixão, sabe o que é isso? Acho que tá na hora de você ir, porque vamos acabar brigando.
Veja só quem está chegando! Nossa, quase enfiou a cara no portão. Vai, vai logo que tenho que colocar ele embaixo do chuveiro. Na minha cama fedendo desse jeito é que não vai dormir. É, vou dar comida a ele sim. Quer que deixe morrer de fome? E pare de rir. Vai ser a última vez...