Espera
candida 15/05/2014 12:17
Espera Cândida Albernaz   O colorido das roupas chamava a atenção. Lilás, azul, verde e o amarelo que predominava. O mesmo tom de amarelo que usava. A diferença entre ele e aqueles garotos era a alegria. Uns se acotovelavam, outros levantavam os braços sinalizando para algum colega onde estavam e riam do próprio alvoroço. Todos os dias quando o ônibus chegava no horário da escola, a cena se repetia. Sempre era o último a entrar e passava pelos colegas até achar no fundo, um banco vago onde pudesse sentar.Enquanto percorria o corredor interminável ouvia cochichos e risinhos abafados. Sabia que eram para ele e fixava os olhos no chão com mais força. Todos ali dentro o conheciam. Alguns estudavam em sua turma. Outro dia, a professora pediu que escrevessem uma redação sobre o que gostavam de fazer nos fins de semana. Parecia provocação. Não havia ninguém naquela cidade que não soubesse que seu pai estava preso há um ano. E o porquê. Ele e a avó pegavam uma condução toda semana e iam visitá-lo no presídio. Odiava aquele lugar. Odiava seu pai. Quando disse à avó que não voltaria mais lá, recebeu uma bofetada e em seguida uma ordem: vá se trocar. Não havia o que discutir, só obedecer. Chegavam naquele ambiente sujo e o pai quando o via, puxava-o pelo braço apertando-o contra o peito. Sentia o cheiro do sabão barato que não era muito diferente do que usava. Ficavam quietos enquanto sua avó falava sem parar. Inventava que era um ótimo aluno e que a professora o elogiava. Dizia que o outro filho, seu irmão mais velho, mandava um abraço e prometia que da próxima vez viria com eles. Muito ocupado, o irmão. O pai fingia acreditar e tentava sorrir, o que lembrava uma estranha careta. Na semana passada, notou que faltava um dente bem na frente, quando o pai tentou dar um desses sorrisos. A avó também percebeu. Ninguém falou nada, mas sabiam que o pai devia ter se metido em mais uma briga. Em casa, no outro dia, ouviu a avó falar com seu tio que tinha medo de que um dia o filho aparecesse morto. Ele pensou que podia ser bem feito para o pai. Pelo menos, não precisaria mais visitá-lo ou olhar na cara dele. Aliás, naquela família não se fala sobre o que aconteceu. Finge-se que as coisas ruins evaporam. Como sua mãe. Apenas sumiu e não se fala mais nela. Quando chegou à casa, há três anos, encontrou o pai na porta da sala com uma faca na mão. Perguntou o que houve e não teve resposta. A única coisa que repetia: vagabunda, vagabunda... Correu até a cozinha e viu a mãe no chão. Ouviu seu nome e foi até ela: Não fiz nada... Por que meu filho?... Por quê?... Chamou o vizinho para ajudá-lo, mas quando a ambulância chegou estava morta. A mãe falara por várias vezes que qualquer dia esse maldito me mata. Ela sabia e ele também. Por isso, depois da escola nunca ficou para brincar com os colegas. Tentava chegar o mais cedo que podia achando que assim conseguiria protegê-la. *                                             *                                             * O ônibus parou e todos desceram em frente ao colégio. Sempre ficava lá dentro sentado até que o motorista gritasse com ele para que saísse. Obedecia, como sempre. O percurso até a sala de aula parecia não ter fim. A sensação que tinha era de espera. Esperava que os dias transcorressem, que as pessoas pudessem ter esquecido, que a avó morresse, que o pai saísse da cadeia. Então ele faria o mesmo caminho dos fins de semana. A diferença é que ninguém iria visitá-lo e não faria questão. O pai, este estaria fazendo companhia a sua mãe. Do mesmo jeito.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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