Espera
Espera
Cândida Albernaz
O colorido das roupas chamava a atenção. Lilás, azul, verde e o amarelo que predominava. O mesmo tom de amarelo que usava. A diferença entre ele e aqueles garotos era a alegria.
Uns se acotovelavam, outros levantavam os braços sinalizando para algum colega onde estavam e riam do próprio alvoroço.
Todos os dias quando o ônibus chegava no horário da escola, a cena se repetia.
Sempre era o último a entrar e passava pelos colegas até achar no fundo, um banco vago onde pudesse sentar.Enquanto percorria o corredor interminável ouvia cochichos e risinhos abafados. Sabia que eram para ele e fixava os olhos no chão com mais força.
Todos ali dentro o conheciam. Alguns estudavam em sua turma.
Outro dia, a professora pediu que escrevessem uma redação sobre o que gostavam de fazer nos fins de semana. Parecia provocação.
Não havia ninguém naquela cidade que não soubesse que seu pai estava preso há um ano. E o porquê.
Ele e a avó pegavam uma condução toda semana e iam visitá-lo no presídio. Odiava aquele lugar. Odiava seu pai.
Quando disse à avó que não voltaria mais lá, recebeu uma bofetada e em seguida uma ordem: vá se trocar. Não havia o que discutir, só obedecer. Chegavam naquele ambiente sujo e o pai quando o via, puxava-o pelo braço apertando-o contra o peito. Sentia o cheiro do sabão barato que não era muito diferente do que usava.
Ficavam quietos enquanto sua avó falava sem parar. Inventava que era um ótimo aluno e que a professora o elogiava. Dizia que o outro filho, seu irmão mais velho, mandava um abraço e prometia que da próxima vez viria com eles. Muito ocupado, o irmão.
O pai fingia acreditar e tentava sorrir, o que lembrava uma estranha careta. Na semana passada, notou que faltava um dente bem na frente, quando o pai tentou dar um desses sorrisos. A avó também percebeu. Ninguém falou nada, mas sabiam que o pai devia ter se metido em mais uma briga.
Em casa, no outro dia, ouviu a avó falar com seu tio que tinha medo de que um dia o filho aparecesse morto.
Ele pensou que podia ser bem feito para o pai. Pelo menos, não precisaria mais visitá-lo ou olhar na cara dele.
Aliás, naquela família não se fala sobre o que aconteceu. Finge-se que as coisas ruins evaporam. Como sua mãe. Apenas sumiu e não se fala mais nela.
Quando chegou à casa, há três anos, encontrou o pai na porta da sala com uma faca na mão. Perguntou o que houve e não teve resposta. A única coisa que repetia: vagabunda, vagabunda...
Correu até a cozinha e viu a mãe no chão. Ouviu seu nome e foi até ela: Não fiz nada... Por que meu filho?... Por quê?...
Chamou o vizinho para ajudá-lo, mas quando a ambulância chegou estava morta.
A mãe falara por várias vezes que qualquer dia esse maldito me mata. Ela sabia e ele também. Por isso, depois da escola nunca ficou para brincar com os colegas. Tentava chegar o mais cedo que podia achando que assim conseguiria protegê-la.
* * *
O ônibus parou e todos desceram em frente ao colégio. Sempre ficava lá dentro sentado até que o motorista gritasse com ele para que saísse. Obedecia, como sempre.
O percurso até a sala de aula parecia não ter fim.
A sensação que tinha era de espera. Esperava que os dias transcorressem, que as pessoas pudessem ter esquecido, que a avó morresse, que o pai saísse da cadeia. Então ele faria o mesmo caminho dos fins de semana. A diferença é que ninguém iria visitá-lo e não faria questão.
O pai, este estaria fazendo companhia a sua mãe. Do mesmo jeito.