Lembranças que vêm da alma
Lembranças que vêm da alma
Cândida Albernaz
Lembra quando ainda jovens gostávamos de andar abraçados?
Ainda sinto o cheiro da loção que usava. Basta fechar os olhos trazendo sua imagem de quando, ao passar as mãos nos cabelos, fazia com que desejasse que estivessem em meu corpo.
Na gaveta de papéis onde se misturam retratos, cartas, documentos, receitas médicas e bulas, é que se encontra o bem mais precioso: a foto que tiramos num entardecer na praia em que seu braço enlaçava meu ombro. No rosto vinha refletido o instante em que eu sentia que ser feliz podia ser só aquele momento. Nada mais era necessário. No verso, com minha letra e datado, o resumo do que sentia: “um instante, mesmo que perdido no tempo, guardado na alma para sempre”. Você não chegou a ver essa foto revelada. Foi embora uma semana depois em que a tiramos.
Hoje posso guardá-la ao lado da cama, pois Miguel também se foi há alguns anos. Costumava dizer:
- Há alguma coisa em você que escapa, mas sei que me ama e eu a amo também querida.
O que lhe fugia era minha alma, que nunca entreguei, porque já estava presa a outro. Mas o amor que existia sempre foi dele. Até o final.
Às vezes penso em como teria sido a vida se a tivesse vivido com você. Sei que a rotina tem por hábito esfarelar os sentimentos. Mas sei também que se soubermos aproveitar, a convivência pode nos trazer o prazer de ver no outro as experiências por nós vividas.
Gostaria de ter tido um filho seu, para que através dele eu o tivesse novamente. Miguel não pôde me dar filhos. Por muitos anos se culpou por isso.
Agora vivo sozinha e uma jovem em dias alternados vem me ajudar. Com a doença tremo muito e nem sempre consigo fazer o que preciso. Talvez um dia ela chegue e me encontre dormindo para nunca mais. Não vai ser assim. Tenho certeza de que por um longo tempo ainda viverei com essa solidão carregada de você. É o que espero. Agora que não preciso mais cuidar de Miguel e tentar fazê-lo feliz por todos os dias, posso me entregar à minha alma.
Não sei se vive. Nem quero saber. Continuo vendo seu rosto carregado dos reflexos da juventude. Os cabelos negros e cheios. O corpo possui os músculos e a maciez de outrora. E a boca... ah!, sua boca ainda preenche a minha quando de olhos fechados faz com que queira mais e mais.
Lágrimas caem quando penso em nós dois, mas não as troco por nada. Sinto até o gosto salgado, quando escorrem pela face e entram em meus lábios. As absorvo como se sua saliva fosse.
Acho que foi melhor não nos termos visto de novo, assim posso imaginar que para você também fui importante. Quem sabe se tivéssemos nos encontrado depois de tanto tempo e eu enxergasse em seu olhar o vazio de quem não mais amava?
Quando a garota chega, não consigo ter essa paz. Ela pensa que me sinto só e puxa conversa tentando agradar. Não sabe que a única coisa que espero ansiosa é a hora em que se vai, para que eu fique com minhas fotos, cartas, beijos e seus braços que me aconchegam toda vez em que deito para dormir.
Esta noite estou mais trêmula. Quase quebro a xícara que coloco ao lado da minha para que tomemos o café juntos antes de deitarmos. Vou para o quarto mais cedo. Sinto precisar que me abrace forte para que eu pare de tremer.