Carrego dentro de mim
candida 05/06/2014 11:13
Carrego dentro de mim                                                                   CândidaAlbernaz Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez. Quando fechou a porta estava sem fôlego. Agitada, olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o vidro gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez. Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo. Decidiu morar sozinha há quatro anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz. Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse.  Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora. Levava amigas para estudar em casa, e de um momento para o outro, ouvia copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado. A mãe o acusava de indiferença, de ter outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Que ele se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou ...”. O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”. Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta. Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudá-lo. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele, que desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto um sono pesado sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e o pai ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje. Quando ela acordou no dia seguinte e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Durou quatro meses sua abstinência e nesse tempo tiveram sossego. Os dois pareciam ter nascido um para o outro. Decidiu procurar um apartamento para morar, depois que chegou com um namorado em casa e este assistiu uma dessas loucuras entre eles. Voltou a ouvir um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Dentro do quarto, trancou a porta. Lembrou-se de outra época e de outra porta que não tinha chave. Diziam que era para que não ficasse presa lá dentro. E por isso permanecia à mercê do que estava lá fora. Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar. Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Seria a segunda vez que viriam ali. A anterior foi no dia em que se mudou. Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles. Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas. Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou com ninguém sobre essa sensação de estar sendo perseguida. A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução. Noite clara e céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para trás e não viu ninguém. Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez. Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou cobrindo todo o corpo. Em poucos segundos tornou a sentir a respiração pesada do outro ao seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram. Debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez. - Não, pai. Vai me machucar. Não quero. Tinha oito anos novamente.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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