Carrego dentro de mim
Carrego dentro de mim CândidaAlbernaz
Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez.
Quando fechou a porta estava sem fôlego. Agitada, olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o vidro gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez.
Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo.
Decidiu morar sozinha há quatro anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz.
Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse. Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora.
Levava amigas para estudar em casa, e de um momento para o outro, ouvia copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado.
A mãe o acusava de indiferença, de ter outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Que ele se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou ...”.
O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”.
Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta.
Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudá-lo. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele, que desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto um sono pesado sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e o pai ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje.
Quando ela acordou no dia seguinte e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Durou quatro meses sua abstinência e nesse tempo tiveram sossego. Os dois pareciam ter nascido um para o outro.
Decidiu procurar um apartamento para morar, depois que chegou com um namorado em casa e este assistiu uma dessas loucuras entre eles.
Voltou a ouvir um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Dentro do quarto, trancou a porta.
Lembrou-se de outra época e de outra porta que não tinha chave. Diziam que era para que não ficasse presa lá dentro. E por isso permanecia à mercê do que estava lá fora.
Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar.
Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Seria a segunda vez que viriam ali. A anterior foi no dia em que se mudou.
Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles.
Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas.
Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou com ninguém sobre essa sensação de estar sendo perseguida.
A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução. Noite clara e céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para trás e não viu ninguém. Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave.
Livrou-se dessa vez. Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou cobrindo todo o corpo. Em poucos segundos tornou a sentir a respiração pesada do outro ao seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram. Debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez.
- Não, pai. Vai me machucar. Não quero.
Tinha oito anos novamente.