Frases nem tão soltas XVI
21/01/2017 | 18h51
Frases nem tão soltas XVI                                                                      Cândida Albernaz Amigos são os que nos abraçam quando pensamos que vamos cair. * E ontem a paz brincou de me fazer sorrir. * Há dias em que o coração pesa como se uma pedra estivesse dentro dele. É quase impossível conseguir tirá-la do peito para que possa aliviar tamanha pressão. * Vou sair agora. Não para a rua, mas para fora de mim. Os gritos que ressoam do meu corpo estão me deixando surda. Surda de ter paz. * Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria. * E não estou falando de acasos. Acasos não acontecem. Em nenhum caso. * Não entregaria meu coração sem ter a certeza da entrega do outro. Ele não é brinquedo. Ele sangra. * Sinto a dor mesmo antes de saber o que vai acontecer. * Não pare por julgar que o tempo passou. Ele nunca passa o bastante. * Não deixe dúvidas. Dúvidas alimentam a alma com o rancor. * Não sei entender meias palavras. Não gosto que me dêem meios atos. Nada pela metade me satisfaz. * Brinquei de achar que era possível enquanto trazia no olhar a inocência de acreditar. * Ah! se as pessoas que se julgam fracas entendessem que enquanto unidas se transformam em muros difíceis de serem transpostos. * No meio do mato flores nascem como se importantes fossem. Importantes são enquanto flores. Do mato. * Por que deixar que os desejos passem como se o tempo pudesse parar? * Hoje um passarinho me contou que as asas que carrego me farão voar. Não muito alto. Nem muito longe. Apenas até a distância do sonho realizado. * Quero brincar de sorrir. Quero me acabar de tanto rir. Quero gargalhar com você e para mim. Quero que a frase final seja sempre: estou feliz.
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Pendências
21/01/2017 | 18h51
Pendências Cândida Albernaz Hoje vou resolver algumas coisinhas que ficaram pendentes. Soube que tomaram uma decisão a meu respeito. E como não sou homem de esperar, vou atrás. Há alguns dias as coisas vêm se complicando e não adianta descontar na mulher e nos filhos. A cara dela está inchada de tanto chorar. Mulher sabe o que acontece com a gente mesmo sem falar para ela. Dizem que as diabas têm sexto sentido. A minha deve ter mesmo, porque desde que mandaram o recado, que recebi sozinho, a danada está calma fazendo tudo certinho sem me aporrinhar. Também é verdade que estou mudado por estes dias, aí fica fácil qualquer um saber que alguma coisa aconteceu. Não estou enchendo a cara de cachaça, porque não quero ser pego desprevenido. Não estou enchendo a cara dela de pancada, e isso ela nunca viu antes. Estou pianinho, como diz o Zuza do botequim. Só queria saber quem me entregou para o Caroço. Estava tudo tranquilo no depósito de bebida. Sou eu quem controla o estoque, porque para contar sempre fui bom. De um ano para cá, consegui vender umas garrafas do destilado por fora. Meu único cliente é o Nandão, e esse tem tanto interesse quanto eu de ficar com o bico fechado. Quase não rende, porque não posso desviar muito, caso contrário Caroço pode perceber. Ele costuma ir ao depósito uma vez por semana e eu passo tudo para o papel e entrego. Trabalho sozinho ali dentro. Falei: - Não preciso de ajuda. O serviço é fácil. Me paga um pouco mais e tá feito. Caroço confiou. Não ia descobrir nunca se algum idiota não me dedurasse. O Nandão não foi, está tão ferrado quanto eu. Soube ontem que bateu na porta do Caroço e chorou feito criança pedindo perdão, dizendo que tinha mulher, filhos, se arrependia. Nem abriram a porta. Não adianta suplicar arrego, os caras são frios como gelo. *                                                      *                                            * Minha mulher já levantou. Jussara sempre faz o café e compra o pão bem cedo. Para eu não atrasar. Em pé, perto da janela, fiquei olhando para ela. O olho esquerdo ainda está um pouco roxo. Dessa vez machucou mais. Está demorando. O braço ainda na tipóia, porque ela caiu em cima dele e torceu. Exagerei. Tinha bebido muito e era ela quem estava na reta. De vez em quando invoco, fico com umas desconfianças e então desço a mão. Ela também não é fácil. Gosta de responder. Atrevida. Vontade agora é de dar uns amassos na Jussara, estou precisado, mas primeiro vou conversar com o Caroço. *                                                           *                                                           * Não adiantou. Não me recebeu. Mandou avisar que às cinco horas fala comigo. É, a coisa ficou feia. Acho que vão me apagar e nem adianta fugir. Se tentar e me pegarem, fica pior. Não tenho medo. Conheço a vida e não espero muito dela. Tenho preocupação com os filhos. Se acabarem comigo, a mulher não tem carcaça para criar os três sozinha. Cinco horas, o dia passou rápido. No depóisito, Caroço está em pé atrás da mesa. Os outros dois que andam com ele, abaixaram a porta. Não está escuro porque acenderam as luzes. Nandão, agachado no chão, está com o rosto entre as mãos. Pelas fungadas, deve estar chorando. Sujeito frouxo. Todo sujo de sangue. Deve ter apanhado um bocado. Caroço fez um sinal e os caras começaram. São covardes, usam de tudo: é corrente, é chute, é soco inglês, é. Nem adianta tentar me defender. Só queria saber quem me delatou, porque lá do inferno, para onde eu vou, volto para buscar. Minha cara está parecendo uma pasta. Antes de arriar de vez, vejo no canto da parede a Jussara. Chorando a desgraçada. Quando meu olho encontra o dela, leva os dedos nos pontos que recebeu no rosto.
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Eu
21/01/2017 | 18h51
Eu Cândida Albernaz Sinto me perder a cada vez que sua imagem volta à mente. Sei o mal que fiz. Se não era para fazê-la ficar, devia ter demonstrado desde o início. A dissimulação faz parte de mim como uma marca de nascença. Não há o que fazer. Não consigo ser melhor nem pior e não espere de mim o que nunca vou poder lhe dar. Até  gostaria, mas assim sou eu e você não fugiu quando descobriu. Apenas fingiu aceitar. Fingiu sim, porque tenho certeza, pensou poder me modificar. Impossível. Mudança é para quem deseja e estou satisfeito comigo. Nunca almejei ser mais do que sou. Sei o que pensa, já o disse várias vezes: dissimulado egoísta frio. Gosto assim. É cômodo para mim e não há nada que preze mais do que meu bem estar. Quando sugeri que fizesse o segundo aborto, vi tristeza em seu rosto. Notei, claro que notei, mas impus como condição. Obedeceu, como sempre. Recordo-me da hora que chegou a casa. Chorava em silêncio e penso ter visto ódio em seus olhos. Só não sei se por mim ou por si mesma. Saí de perto e fui caminhar na praça em frente ao apartamento. Andando esperava colocar os pensamentos no lugar. Avisei a você quando a conheci. Nada de filhos. Não quero descendentes, não quero mais preocupação. Não mudei de opinião nem vou. Se me deixar, pensei naquele momento, não saberei como continuar a viver sem sofrer, mas não altero nada do que penso por medo. Aliás, não tenho medo, tenho? Voltei para casa e você dormia. No chão ao lado da cama, uma foto amassada. Peguei-a. Ríamos para alguém que passava e pedimos para nos fotografar. Tinha sido uma tarde e tanto. Foi numa praia perto daqui. Almoçamos num restaurante pequeno de frente para o mar, bebemos um vinho e o riso vinha fácil. Seu rosto em contraste com o sol trazia um brilho que me fazia sentir um amor enorme. Eu a amei naquele momento como em nenhum outro. Amo ainda. Depois vieram os dias de melancolia e decepção, como àquele em que me viu na rua dividindo um sorvete com uma garota. Não me escondi. Olhei para você quando passou e a cumprimentei. Meus braços permaneceram em volta da cintura dela. Virei ainda uma vez e vi que estava parada no mesmo lugar. Incredulidade, seu rosto transmitia. Não tive culpa. Não senti culpa nem quando voltei dois dias depois e a encontrei sentada no sofá com a mesma roupa. Fixava a parede sem piscar. O apartamento estava revirado, jarra e cinzeiro quebrados, cartas amassadas e jogadas no chão e objetos fora de lugar. Segurei-a pelo braço levantando-a, e como se fosse uma criança, tirei sua roupa e dei-lhe banho. Deixou-se levar. No chuveiro passei sabonete em seu corpo, beijando cada pedaço dele. Dormimos abraçados. Não perguntou nada. Não expliquei nada. Essa não foi a única vez em que me viu com alguém. Percebi que mudava aos poucos. Deixei-a quieta para que resolvesse seus problemas. Não queria me meter, da mesma forma que não aceitava que opinasse sobre os meus. Hoje tenho a convicção de que não poderia ter dividido uma vida com você, porque simplesmente não sei como se faz isso. Quando cheguei a casa e vi as malas ao lado da porta, sabia que era para sempre. Não pedi que ficasse. Você não ficaria. Olhou-me com olhos tranquilos e colocou a chave na minha mão. Não disse nada. Não havia mais nada para dizer. Notei que estava forte, parecia a garota que conheci. Não a esqueço e não a procuro. Apesar de tudo, sei que não merece que eu tente de novo. Sinto às vezes o peito doer como se algum pedaço faltasse. O telefone toca e saio daquele estado de apatia. - Oi. Já estou descendo. A garota do outro lado da linha tem a voz alegre. Conheci ontem.  
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Frases nem tão soltas XV
21/01/2017 | 18h51
Frases nem tão soltas XV Cândida Albernaz Tentei escutar o que seu coração dizia, mas quando coloquei o ouvido no peito só consegui ouvir: tum-tum, tum-tum, tum-tum. Pensei tentar traduzir, mas desisti. Sons que não entendo são ocos para mim. * Quer ser entendido? Então não se esconda. Principalmente não se cubra com falsas capas. Ninguém gosta de fazer o esforço de sair rasgando vestes que não são reais. Poupe ao outro do que não é verdadeiro. * Amanheci com o peito partido. Sofrendo dores de imaginar. * Tive medo de me perder enquanto escolhia caminhos dos quais nunca havia ouvido falar. Errei algumas vezes, mas em todas que acertei compensaram as que não. * E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro. * Há noites em que peço ao pensamento que me deixe dormir. Quase nunca me ouve. * A paz muitas vezes está apenas em não comparar. Viver cada dia sem se interessar pelo que os outros fazem. Ser apenas o que se quer ou se pode ser. Isto é se encontrar. * O bom do verão é que o sol nasce dentro da gente. * Alguns dias são melhores. Outros não. Hoje são outros. * Protejo-me na indiferença para não sentir mais do que suportaria. * Algumas vezes a sensação de paz e felicidade é tão intensa que me assusta esperar pelo minuto seguinte. * Eu escrevo, eu leio, eu escrevo, eu leio. Vivo em um mundo encantado? Gosto de mundos encantados. * Há pessoas que gostam de ninhos, mas não procuram fazer o seu. São preguiçosas e preferem desfazer ninhos prontos. * Olhando a noite espero escutar nela o falar mudo que grito em silêncio. * Algumas vezes a sensação de paz e felicidade é tão intensa que me assusta esperar pelo minuto seguinte. * Não gosto quando testam minha paciência. Porque ela é pouca. É curta. É quase nenhuma. * Consegue ver os pingos de água na pele? É só orvalho porque as lágrimas estão contidas. * Estavam todos ali. Os chatos, os loucos, estavam até mesmo os que deveriam estar mas não foram, como eu.
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Refazer
21/01/2017 | 18h51
Refazer Cândida Albernaz Vi a chuva inundar nossa casa e levar com ela o pouco que tínhamos. E não foi uma vez. Algumas vezes. Não havia escolha. Refazer vidas foi o que fizemos em todas elas. A terra ainda está úmida por conta do último temporal. Aqui é assim. Ou não chove nunca ou chove até. Cismei em fazer um jardim. Estava lindo com flores coloridas: roxas, amarelas, rosas, vermelhas. Não sobrou nenhuma. Por muitas vezes tivemos que sair e ficar no meu avô. Mamãe chorava feito criança. Não acontecia todos os anos. Quando tinha dezessete foi a última das quatro que presenciei. A água vinha chegando e entrando sem bater na porta. Cobria o sofá, a mesa, e nossas recordações. Nem sempre conseguíamos retirar muito. O essencial já era bastante. Na primeira, mãe contou que nem as fotos do casamento dela e do pai sobraram. Se antes quando ele era vivo não nos mudamos, depois que morreu então é que ficamos para sempre. Nossa vizinha, Tiazica, madrinha do meu irmão foi embora. Não aguentou. Era a melhor amiga da minha mãe. No dia da mudança, as duas se abraçaram forte, cheias de lágrimas escorrendo rosto abaixo e prometeram se encontrar sempre. Falavam do coração para fora, porque sabiam que seria difícil. A vida vai empurrando a gente do jeito que quer e quando percebemos, mal temos comando sobre ela. Soube que Tiazica está doente. Estou esperando o momento certo para contar para a amiga dela. Não sei o que está havendo, mas mamãe deu para ficar chorosa pelos cantos, recordando o que passou e o tempo que perdeu. Falei para que se lembrasse do tanto que já lutou para nos educar e manter a casa em pé. Tem dois netos e uma nora de boa paz, que nunca reclama do seu lado enxerido na vida dos dois. Quase uma santa. Ou sonsa. Deixa para lá. Eu não casei e não caso. Minha paciência é quase nenhuma para homem. Eles chegam com beijos e terminam com tapas. Não são todos, é claro. Mas os que não batem se metem em tudo, gostam de dar ordens, bebem demais, acham que filho é para mulher cuidar... Ufa! Fico exausta só por pensar. Tem um e outro que até salva, mas na minha mão só caíram os piores. Devo ter dedo podre para escolher como diz mamãe. Gosto dos sobrinhos, do trabalho, de nossa casa também. Principalmente agora que não enche  com a chuva. Podiam ter resolvido esse problema antes, mas não fizeram. Tinham coisas mais importantes para resolver. O que significava aquele bando de gente pobre perdendo o pouco que tinha? Aceitar pode ser muito difícil, mas às vezes é só o que sobra. Moro com mamãe. Ela nem tem muita idade, mas o cabelo está todo branco e as pernas cansadas. Os ossos doem e já não obedecem a sua vontade. Perdeu a saúde cedo. Tanto trabalho teve para consertar a alma. Tínhamos mais um irmão. Numa dessas enchentes ele se foi feito peixe. A água o arrastou quando ele brincava na chuva. Havia se afastado de casa com uns amigos dizendo que iam fazer um barco para navegar. Enquanto pegavam madeiras, a tempestade caía. Fora perto demais do rio. Não sei o que deu nele para fazer algo tão perigoso. Acho que foi essa danada da vida comandando nossas vidas. Durante o velório, mãe permaneceu de olhos fechados todo o tempo. Só abriu para dar um beijo de despedida em sua testa. Triste ver a dor que ela sentia. Triste sentir a dor que eu sentia. De lá para cá se entregou. Ele era temporão e o xodó de todos. Hoje vou conversar com ela sobre o tanto que Tiazica está mal. Viram-se poucas vezes depois que ela se mudou. Mãe saía de casa para o serviço e do serviço para casa. Mais nada. No fundo acho que ficou magoada porque a amiga a deixou, indo para o outro extremo da cidade. Antes disso, vou aproveitar que o sol chegou e com ele a terra está mais enxuta. Verei o que ainda posso replantar. Talvez um novo jardim. Mais um refazer.
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Não pensar, não lembrar: adormecer
21/01/2017 | 18h51
Não pensar, não lembrar: adormecer. Cândida Albernaz Falar, falar, falar… e não precisar pensar, porque pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino. O bar está cheio e o som das vozes se mistura com a música que o cantor desconhecido canta, na esperança de que alguém o escute. A maioria veio para beber e rir de tudo e nada, assim como eu. O grupo de amigos à minha volta presta atenção numa piada que Mário conta com uma interpretação irrepreensível: qualquer coisa sobre argentinos e brasileiros, onde é claro, o argentino se ferra. Todos rimos. Olho para Henrique, os olhos parados fixos em um ponto que só ele vê. Deveria puxar conversa e escutá-lo, mas não preciso de mais problemas, bastam os meus. A mulher de Henrique saiu de casa há dois meses. Tentou explicar-lhe que não teve como evitar a paixão repentina pelo aluno quinze anos mais novo. Que poderia ser a última chance para viver esse sentimento. Que não era mais criança e suas rugas não importavam ao rapaz e que a juventude dele fazia com que se sentisse jovem também. Que precisava compreendê-la, desculpá-la, e quem sabe arrumar uma garota? Ele? E o hábito de tantos anos ao lado da mesma mulher, agora não sabendo o que fazer de si mesmo? Não penso, não lembro, não sofro: durmo. Em casa, evito acender as luzes, não resolveria: vou tropeçar nos móveis de qualquer forma. Bebi demais e a cabeça gira como tudo à volta. Tomo um banho e na cama, massageio os pés com as pontas dos dedos: mania, todas as noites faço assim. Antes de deitar, ligo a televisão e quando não aguento mais manter os olhos abertos, durmo. Pela manhã prometo que não vou mais deixá-la ligada por toda a noite. Os hábitos me ajudam a sobreviver: vêm de forma mecânica, sem que precise fazer esforço. Há meses tento não sentir a ausência, principalmente de Vítor. Até suas repreensões e olhares de raiva me fazem falta. Procuro chegar a casa o mais tarde possível, porque assim, com o corpo exausto e o excesso de bebida, não há como não dormir. Se houver sonhos, não importa, não me lembro deles mesmo. Por mais que faça, algo me persegue: culpa. Um ano depois a culpa transpassa meu corpo como uma lança. Não chovia, não era noite. Estávamos os três saindo de casa e você insistiu para que eu não dirigisse. Teimosa como sempre, não abri mão. Sentei ao volante e por mais que tentasse, gritei que se não quisesse ir, podia ficar em casa. Iríamos eu e nosso filho Vítor, para a praia, como havíamos combinado no dia anterior. Sabia que não deixaria que fosse sozinha com ele, o problema seria a volta, depois que já tivesse bebido o suficiente para me divertir. Juro que procurei fazer direito. Sabia que você estava cansado de mim e pensava estar tentando o melhor possível. Quando na curva, virei para trás e brinquei com Vítor, estava na verdade querendo que você visse o quanto podia ser amiga e amorosa com ele. Foi o suficiente para que perdesse a direção e o carro saísse da estrada. Nosso menino foi jogado longe, batendo com a cabeça no asfalto: não resistiu. Você foi embora de casa: não resistiu. Eu tento sobreviver: não sei se vou resistir. Não queria pensar, pois pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino…  
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Frases nem tão soltas XIV
21/01/2017 | 18h51
Frases nem tão soltas XIV Cândida Albernaz   Como no balanço da rede, pensamentos vêm e vão. Fogem e procuram. Não se acham. * Na pia a torneira pinga a água gota a gota provocando um barulho ensurdecedor. Na mente o mesmo pensamento se repete lentamente provocando um sentir enlouquecedor. * Como é aconchegante ver nosso sorriso refletido nos olhos do outro. * Gosto de olhar para mim e me enxergar por dentro. Sem a s carapaças que uso vez ou outra para me proteger. * Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam. * No meio do mato flores nascem como se importantes fossem. Importantes são enquanto flores. Do mato. E lindas sempre serão porque do mato. * Não me dê dúvidas, pois estas costumam alimentar a alma com o rancor. Rancores envenenam o sentir. Então posso me “desentregar” e voltar para mim. * Os gritos que ressoam de nosso corpo nos deixam surdos. Surdos de ouvir a paz. * Não procure entender meias palavras. Não aceite obter meias atitudes. Não queira ser menos do que inteiro. * Não estou falando de acaso. Acasos acontecem. Mas só em alguns poucos casos. Não se engane: não são acasos. * As palavras que saem da boca numa discussão não parecem ter ordem alguma. Atropelam o outro e te engolem. * A rotina é nosso pior inimigo quando queremos esquecer. * Às vezes vem assim... do nada! Não se iluda. Nunca é do nada. * Na ponta dos pés me equilibro para chegar bem perto da lua e em seu ouvido baixinho pedir que ilumine meu sono. Sonhadora que é promete uma noite de magia. Sonhadora que sou começo a sonhar antes mesmo de dormir. * Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela. * E como hoje é aniversário da minha Betina... Ouvi outro dia da minha Betina: - Vozinha, sabe a coisa com o que eu fico mais feliz em sua casa? - Com o que meu amor? - Você! Ela sempre me emociona. E me liberta. * Betina abriu a janela do carro e colocando a cabeça para fora: - Vozinha, a lua está cheia de luz! Eu acho lindo quando ela fica assim. Olhei para onde ela apontava e vi a lua cheia. Tive que concordar. Estava mesmo cheia de luz. Também adoro quando ela fica assim.
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Preciso melhorar de vida
21/01/2017 | 18h51
Preciso melhorar de vida Cândida Albernaz Estou de saco cheio dessa vida. Todo dia a mesma história. Ontem Genilson veio falar comigo outra vez. Sabia o que ele queria e topei. Minha mulher não precisa ficar por dentro porque senão vai falar sem parar e me fazer desistir. Ultimamente vive reclamando que não fico em emprego e que não aguenta mais passar necessidade. Outro dia, Toninho não pôde ir à escola porque o único tênis que tinha soltou a sola inteira além do enorme rasgado na parte de cima. Mandei colocar uma sandália e não tinha nenhuma. Descalço não entrava. Está uma merda essa vida de não ter o que comer direito e a casa caindo aos pedaços. O pai de Cerlene deixou para ela quando morreu. Comprou quando ainda era jovem e tinha um emprego razoável. Nunca fiz uma reforma, porque nunca tive dinheiro sobrando. Estudei pouco, mas graças a Deus sei ler e fazer contas: ninguém me passa para trás. Cerlene sabe mais do que eu porque a mãe fez questão que terminasse o segundo grau. Aí me conheceu, ficou grávida e eu que não sou homem de fugir de responsabilidade, casamos. Claro que tivemos que morar com o sogro. Gente boa me tratava bem. Só tinha uma coisa esquisita; exigia que fosse à igreja com ele toda semana. Era religioso e nem eu escapava. O único problema que tínhamos, era porque vez ou outra eu ficava desempregado. Explicava a ele que não tinha culpa, que esses patrões são muito folgados, que eu trabalhava direitinho, que chegava sempre na hora... Só não conseguia e não consigo levar desaforo para casa e quando vinham chamar minha atenção, dependendo do jeito que falavam eu sentava a mão. Sou brigão na rua, mas com minha mulher é só carinho e dengo. Ela também é melosa para o meu lado. O motivo de a gente brigar é o mesmo do pai dela comigo. Cuida dos nossos filhos, temos dois, com muito amor. Tive sorte em encontrar a Cerlene. Nem gostava tanto dela no início, mas hoje, não vivo sem. Se ela souber que Genilson está rodeando por estas bandas vai ficar zangada. Sempre falou que se orgulhava por eu não me meter com esses caras da área. Agora está difícil. Vai fazer um ano não arrumo nada. O salário de doméstica que ela recebe não dá. Tem trazido roupa para lavar e passar em casa tentando ganhar um extra. Está exausta. O posto de gasolina que nós estamos de olho tem um movimento bom e já sabemos como tudo funciona. Genilson trabalhou lá por uns tempos. Vai ser rápido e não vamos machucar ninguém. Combinamos de usar arma de brinquedo, nunca coloquei a mão numa de verdade. Será na semana que vem.   *                          *                          *   Rendemos os três funcionários e enquanto Genilson está com eles recolhendo a grana, eu vigio. Estou suando muito e o coração parece que vai explodir. Olho para trás algumas vezes e mando andar rápido. Quando já estamos saindo, um idiota atira. Tinha uma arma de verdade na droga do posto. Meu parceiro vira e atira também. Pontaria certeira, o cara cai. Olho para ele e grito que não foi o que combinamos, berra de volta um “seu babaca” e sai correndo. Outro tiro sai lá de dentro, Genilson cai e a mochila que carregava solta de sua mão. Volto para tentar pegar. Mais um tiro. Os filhos da puta me acertaram. O peito parece ter levado um soco violento. Ouço novo barulho e um baque no corpo, não sei onde fui atingido agora. Sinto um líquido grosso encher a garganta me impedindo de respirar. Ainda passa nos meus olhos a imagem de Toninho com o tênis novo, que prometi comprar para ele e para o irmão.
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Trovão
21/01/2017 | 18h51
Trovão Cândida Albernaz Foi lá, no meio daquela terra que cresci. Meu pai trabalhava na roça e mãe com ele. Mal sabiam ler, mas fizeram questão que nós aprendêssemos. Então bem cedo, antes do sol começar a clarear o céu, a gente saía na carroça puxada por Trovão, um cavalo já velho, mas que ainda era forte. Seu Antônio, o dono daquelas terras, prometeu que daria outro para a gente. Dois anos depois e ainda esperávamos. Era assim mesmo. Ali tudo tinha um tempo próprio, mais lento que o resto do mundo. Pelo menos era o que nossa professora afirmava e eu acreditava. A melhor parte do dia era quando na volta da escola encontrava Trovão sem serviço. Montava em seu pelo e andava por aqueles matos. Ele ameaçava um galope, mas logo desistia. Estava cansado e não aguentava.  Não havia problema, mesmo assim eu gostava. Quando chegava o fim da tarde, mãe e pai retornando, jantávamos uma sopa que minha irmã mais velha, que chamávamos de Tia Mana, preparava. Ela tinha catorze anos e tomava conta de todos nós. Cuidou dos irmãos desde sempre. Antes da refeição papai fazia questão de uma oração para agradecer pelo que conseguíamos colocar na mesa. Nunca era muito, mas o bastante para crescermos com saúde. Mantenho o mesmo hábito. Passados alguns anos, minha irmã casou-se e teve três filhos. Nossos outros dois irmãos conseguiram um pedaço de terra onde plantavam e tiravam seu sustento. Fui o único que se lançou para a cidade grande e estudou até completar a faculdade. Seu Antônio me ajudou pedindo a um primo lugar para eu morar, em troca de trabalhar na área externa da residência dele. Limpava a piscina e tratava dos cães também. Costumava virar a noite estudando e quase não via minha família. Soube um dia que Trovão havia morrido. Apesar de homem feito, chorei como criança. Acho que tinha esperança de que ele fosse para sempre. Meus pais estão velhos agora, mas continuam morando na mesma casa. Tia Mana ajuda a cuidar deles. Contou na última carta que me escreveu que têm perguntado muito por mim. Faz mais de três anos que não os vejo. Prometi que no próximo mês estarei com eles. Sou advogado e meu tempo é curto. Trabalho muito e ganho bem. Já enviei para eles o suficiente para que reformassem a velha casa e tivessem algum conforto. Tia Mana me informou que gastaram pouco do que mandei. E me passou a resposta de papai: - Não precisamos de muito mais do que temos. Guarda isso para os filhos de vocês. Entre as poucas modificações que eu soube terem eles feito, foi comprar um colchão novo porque mamãe reclamava de dor nas costas. Ele continua dormindo na rede dentro do quarto. Meus filhos, que ainda são crianças, gostarão de rever os avós e os poucos animais que eles possuem. *                                                            *                                                            * A estrada ainda não é das melhores, os meninos dormem no banco detrás enquanto a mãe deles lê ao meu lado. Abaixei o vidro e deixei que o vento entrasse no interior do carro. O cheiro da terra nunca esquecido entranhou no nariz arrastando lembranças. Diante da entrada, noto que já não é mais uma cancela, um portão de ferro com dois pilares brancos e uma pinha amarela sobre cada um deles que divide a propriedade de seu Antônio com a estrada percorrida.  Soube que está muito doente e que os filhos assumiram a fazenda. Recordo-me dele como um homem ativo e forte. Chegamos à cerca viva que protege nossa casa. É engraçado ainda pensar nela como “nossa”. Papai em pé na varanda nos esperava. Lá dentro uma mesa de lanche estava arrumada. A toalha puída eu reconheci. O perfume do bolo de fubá envolvia o ambiente e senti a boca cheia de água. Levaram-nos até o quarto que estava reformado, com cama nova para os netos e um ventilador de teto. Todo o resto da casa permanecia da mesma forma. Meu pai na porta fez um sinal para que o seguisse. Caminhando atrás dele, não o reconheci no corpo encurvado de um homem agora com aparência frágil. Meu irmão mais novo chegou puxando um cavalo. Fiquei surpreso. - Trovão? Papai sorriu com os olhos. Não, não podia ser Trovão. - Ainda é capaz de montar em pelo? Eu tinha certeza que sim apesar dos anos que se passaram. Fitei-o e agradeci com a alma. Montei devagar, ao passo, em seguida o trote e o galope veio sem perceber. Esse não cansaria rápido. E nem eu. Éramos eu e Trovão novamente.
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O vento traz a música
21/01/2017 | 18h50
O vento traz a música Cândida Albernaz “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…”. A canção de Chico estava tocando em algum lugar ali perto. Só pode ser no bar de Zico, que ele gosta de  mpb. Costumo deixar a janela entreaberta e sento no escuro ouvindo a música que vem de lá. Bom gosto musical ele tem. Gosto igual ao meu, quero dizer. Desde o dia em que Carlão foi embora, dizendo que não ia demorar a vir me buscar junto com as crianças, costumo ouvir o som que vem da rua. E isso já faz uns dois anos. Como o único rádio que tenho está quebrado, roubo para escutar, a que vem do bar. Houve uma época em que Zico tentou se bandear para o meu lado. Disse que queria cuidar de mim e das meninas. Quero não, bem preciso, mas não quero. Homem diferente do pai ao lado delas, não dá. São muitas histórias que a gente ouve por aí. Dulce acreditou num sujeito que chegou mansinho para cima dela, cheio de carinhos, dizendo que nunca mais ela e os filhos iam passar necessidade. Qual! Em menos de um ano ele estava desempregado. Ficava o dia inteiro em casa vendo televisão ou deitado, enquanto ela se matava no serviço de faxina. Um dia, o filho veio falar que viu o infeliz dando um beijinho na boca da irmã e dizendo que era o papai dela. Dulce não pensou duas vezes. Entrou no quarto, que o malandro gostava era de dormir, e tirou ele dali à vassourada. Esse nunca mais apareceu. Ela teve sorte porque o filho viu logo no início, tem umas que só depois do fato acontecido é que vêm saber. Aí a menina fica com a vida estragada, que isso não tem conserto. Eu poderia até namorar uns e outros por aí sem botar dentro de casa, mas não tenho vontade. Mesmo sem notícias, ainda espero que Carlão apareça com um sorrisão na cara, dizendo que veio buscar a gente. As meninas, tenho duas, viviam perguntando pelo pai. Agora deram um tempo. Fico triste quando querem saber dele e tenho que inventar algo. Acho que elas perceberam e demoram mais a tocar no assunto. Consegui um emprego de arrumadeira num hotel no centro, foi Dulce quem me falou que estavam precisando. Estou lá há um ano e meio. Tenho carteira assinada e eles pagam plano de saúde para os funcionários. Isso ajuda muito. Nem ganho tanto assim, mas só em poder levar minhas filhas ao médico sem precisar gastar já é um alívio. Minha pequena vive com gripe, tem a saúde frágil. O médico falou que ela precisa pegar sol, de vitaminas e frutas. Faço o máximo que posso, como ele manda, mas ela fica doente assim mesmo. Tem muito pesadelo, a pobrezinha, está sempre sonhando que o pai morreu e não vai mais voltar. Abraço com ela e explico que é só um sonho, que ele volta um dia com o braço carregado de presentes para as duas e aí vamos todos embora dali para morar junto dele. Consigo até que dê risada no final, com as histórias que invento. Depois que ela dorme, quem não pega no sono sou eu. “Oh, pedaço de mim. Oh, metade afastada de mim. Leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento…” A música agora é outra. Tão bom ficar aqui à noite ouvindo o vento trazer o som. Fico quietinha. Às vezes choro, porque tem melodia que mexe com a gente. Deixa esse negócio de tristeza para lá, que amanhã pego cedo no batente, e antes tenho que deixar as meninas na escola. Vou tentar dormir. Batendo na porta a essa hora? Será que Dulce está precisando de alguma coisa? Nós somos amigas e uma ajuda a outra. Não é Dulce quem está parada ali. Quase não o reconheço. Tão magro o meu homem. Ele não me olha, parece que perdeu qualquer coisa no chão. - As meninas? - Estão dormindo. - Demorei… - Mas está aqui e é o que importa. - Não posso fazer o que prometi. Não consegui um emprego bom e não juntei dinheiro também. - Estou trabalhando e logo você consegue um serviço. Sempre foi homem inteligente. - Burro muito burro. Puxo Carlão para dentro de casa, coloco sentado na cadeira e vou para a cozinha esquentar o que sobrou do jantar. Ainda bem que hoje sobrou algo. O barulho da tampa da panela que mexo, do prato e do garfo que coloco na mesa… Há quanto tempo não esquentava o jantar para Carlão. Olho para ele, que está de costas. Uma lágrima escorre no meu rosto, não me preocupo em secar. Essa é diferente das outras, essa é de felicidade.  
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Candida Albernaz

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