Pendências
Pendências
Cândida Albernaz
Hoje vou resolver algumas coisinhas que ficaram pendentes. Soube que tomaram uma decisão a meu respeito. E como não sou homem de esperar, vou atrás.
Há alguns dias as coisas vêm se complicando e não adianta descontar na mulher e nos filhos.
A cara dela está inchada de tanto chorar. Mulher sabe o que acontece com a gente mesmo sem falar para ela. Dizem que as diabas têm sexto sentido. A minha deve ter mesmo, porque desde que mandaram o recado, que recebi sozinho, a danada está calma fazendo tudo certinho sem me aporrinhar.
Também é verdade que estou mudado por estes dias, aí fica fácil qualquer um saber que alguma coisa aconteceu.
Não estou enchendo a cara de cachaça, porque não quero ser pego desprevenido. Não estou enchendo a cara dela de pancada, e isso ela nunca viu antes. Estou pianinho, como diz o Zuza do botequim. Só queria saber quem me entregou para o Caroço.
Estava tudo tranquilo no depósito de bebida. Sou eu quem controla o estoque, porque para contar sempre fui bom.
De um ano para cá, consegui vender umas garrafas do destilado por fora. Meu único cliente é o Nandão, e esse tem tanto interesse quanto eu de ficar com o bico fechado. Quase não rende, porque não posso desviar muito, caso contrário Caroço pode perceber.
Ele costuma ir ao depósito uma vez por semana e eu passo tudo para o papel e entrego. Trabalho sozinho ali dentro. Falei:
- Não preciso de ajuda. O serviço é fácil. Me paga um pouco mais e tá feito.
Caroço confiou. Não ia descobrir nunca se algum idiota não me dedurasse. O Nandão não foi, está tão ferrado quanto eu. Soube ontem que bateu na porta do Caroço e chorou feito criança pedindo perdão, dizendo que tinha mulher, filhos, se arrependia. Nem abriram a porta. Não adianta suplicar arrego, os caras são frios como gelo.
* * *
Minha mulher já levantou. Jussara sempre faz o café e compra o pão bem cedo. Para eu não atrasar.
Em pé, perto da janela, fiquei olhando para ela. O olho esquerdo ainda está um pouco roxo. Dessa vez machucou mais. Está demorando. O braço ainda na tipóia, porque ela caiu em cima dele e torceu. Exagerei. Tinha bebido muito e era ela quem estava na reta. De vez em quando invoco, fico com umas desconfianças e então desço a mão.
Ela também não é fácil. Gosta de responder. Atrevida.
Vontade agora é de dar uns amassos na Jussara, estou precisado, mas primeiro vou conversar com o Caroço.
* * *
Não adiantou. Não me recebeu. Mandou avisar que às cinco horas fala comigo. É, a coisa ficou feia. Acho que vão me apagar e nem adianta fugir. Se tentar e me pegarem, fica pior. Não tenho medo. Conheço a vida e não espero muito dela. Tenho preocupação com os filhos. Se acabarem comigo, a mulher não tem carcaça para criar os três sozinha.
Cinco horas, o dia passou rápido.
No depóisito, Caroço está em pé atrás da mesa. Os outros dois que andam com ele, abaixaram a porta. Não está escuro porque acenderam as luzes.
Nandão, agachado no chão, está com o rosto entre as mãos. Pelas fungadas, deve estar chorando. Sujeito frouxo. Todo sujo de sangue. Deve ter apanhado um bocado.
Caroço fez um sinal e os caras começaram. São covardes, usam de tudo: é corrente, é chute, é soco inglês, é. Nem adianta tentar me defender. Só queria saber quem me delatou, porque lá do inferno, para onde eu vou, volto para buscar.
Minha cara está parecendo uma pasta. Antes de arriar de vez, vejo no canto da parede a Jussara. Chorando a desgraçada. Quando meu olho encontra o dela, leva os dedos nos pontos que recebeu no rosto.